23/04/2026
Na tentativa de ser algo, qualquer coisa que pareça mais aceitável, a gente se afasta do próprio desejo ao tentar responder ao Outro.
A questão não é querer ser.
É querer ser para o outro.
Há sempre um olhar que organiza, que cobra, que mede.
E a gente entra no jogo. Ajusta o gesto, a fala, a forma de se posicionar.
Vai se tornando performance.
Quando você decide não recuar ao que não se é,
o outro não se incomoda com você.
Se incomoda com o lugar que você deixa de ocupar.
Com a expectativa que você não sustenta.
Com a imagem que já não se confirma.
E é aí que muitos voltam atrás.
Se corrigem, se suavizam, se reorganizam para caber de novo.
Mas cada retorno ao que não se é tem um preço.
Porque toda vez que você se ajusta demais,
algo seu f**a de fora.
Você paga por se retirar.
Ser não é se afirmar.
É sustentar o desconforto de não ser tudo para alguém.
Nem resposta, nem encaixe, nem garantia.
E, para quem sempre tentou não causar incômodo,
isso é quase insuportável.
Performar não é viver, é responder ao que o Outro espera de você.
Viver começa onde a imagem cai.
Ser não tem nada de bonito.
Não tem reconhecimento garantido, nem lugar assegurado.
Tem perda.
Perda da imagem que funcionava.
Perda da versão que agradava.
Perda da ilusão de que dá pra caber no desejo do Outro.
Mas é só aí que algo seu aparece.
Não como resposta.
Como falta.
E sustentar isso, sem voltar correndo ao que te apaga,
é talvez o único modo de sustentar a própria falta.
O único gesto ético possível.
E sim, isso dói.
Bruna Stefany
Psicóloga e Psicanalista Lacaniana
(34) 98428-8672 (WhatsApp)
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