29/05/2026
Eu nunca tinha feito uma cirurgia.
Essa foi a primeira.
Já seria tudo novidade:
a agulha na coluna,
a sensação de ser um s**o de batatas flutuando na mesa operatória,
a tremedeira,
a sonda vesical.
Mas o que ninguém explica muito bem é que, pouco tempo depois, você precisa se levantar para cuidar de um bebê.
(Ou até tentam… a gente é que não acredita.)
Quando a placenta sai, ela deixa dentro do útero uma ferida do mesmo tamanho, sangrando.
Se essa ferida estivesse nas suas costas, provavelmente todos insistiriam para que você fizesse repouso.
Mas ela está escondida dentro de você, enquanto existe um bebê totalmente dependente dos seus braços.
Se eu pudesse te dar um conselho, eu diria:
faça repouso.
Aceite ajuda para levantar da cama,
para ir ao banheiro,
para tomar banho.
(E se quiser chorar sozinha no banho, tudo bem. Acontece.)
Eu não fiz isso.
Quis ser forte.
E enfrentei um pós-operatório difícil:
inflamação,
seroma,
secreção,
antibióticos,
fibrose
e muita dor.
É sério:
por pior que pareça, aceite ajuda.
Nos primeiros dias, meus mamilos pareciam dois botões vermelhos incandescentes no escuro. Ficaram sensíveis, machucados e ardiam. Amamentei chorando algumas vezes.
E até descobrirmos a alteração no freio lingual da minha filha, eu me perguntei várias vezes se valia a pena insistir na amamentação.
E essa era uma decisão racional.
Porque emocionalmente, eu só queria algo mais fácil.
Quando você se olhar no espelho e se sentir estranha, saiba:
é estranho mesmo.
Um dia antes havia um bebê dentro da sua barriga.
No outro, existe uma barriga flácida, dolorida e cheia de gases.
É normal não se reconhecer no espelho.
Mas levantar antes do bebê acordar,
passar um filtro solar com cor,
um batom,
pentear os cabelos…
também pode ser um começo.
A conclusão a que cheguei é:
tornar-se mãe dói.
Dói física,
emocional
e silenciosamente.
Dói se despedir da mulher que você foi para abrir espaço para uma nova versão de si mesma.
Uma versão capaz de enfrentar tudo por um bem maior.
É chorar fácil.
Duvidar de si.
Sentir-se exausta.
Lutar em silêncio.
E ainda assim,
se levantar todos os dias,
porque alguém depende de você.