Camila Scarpati Dias - Psicóloga e Psicanalista

Camila Scarpati Dias - Psicóloga e Psicanalista Meu nome é Camila Scarpati Dias, sou psicóloga (16/6902) e psicanalista, atendo na cidade de Vitor

Ser mulher é o tipo de coisa que não dá pra esquecer que se é. Não é algo tipo respirar, que a gente faz de forma natura...
08/03/2026

Ser mulher é o tipo de coisa que não dá pra esquecer que se é. Não é algo tipo respirar, que a gente faz de forma natural a ponto de esquecer que faz. Com isso de ser mulher não é bem assim. Não é naturalmente visto na nossa sociedade o corpo feminino, principalmente se estiver vivendo. Logo vem alguém lembrar dos limites que deveríamos ter por ser mulher. Seja na roupa, no gesto ou nos lugares onde escolhemos andar desacompanhadas (lê-se: sem um homem ao lado).

Sim, esse é o mundo em que a gente vive.

O que fazemos nele, ou o quanto insistimos em fazer nele, é que dá o tom da vida que vivemos. Essa coisa preciosa que passa tão rápido.

Hoje fiquei pensando em quanto ser mulher interfere no meu trabalho. Pode parecer pouco, já que trabalho numa área em que mulheres são maioria, ainda que seja lendo majoritariamente homens. Mas logo fui percebendo as sutilezas, como o quanto, ao buscar uma sala, a segurança era um fator muito importante para mim: prédio com portaria, de preferência com câmera nos andares.

Isso para citar um exemplo. Poderia seguir com uma lista e talvez ainda possamos conversar mais sobre isso em outro momento.

Por agora fico com a Camila de 20 anos que, “desacompanhada”, ia para outra cidade, para a faculdade, para a vida (muitas vezes com medo), mas ainda assim indo.

Talvez seja isso que mais me interessa preservar: a possibilidade de continuar indo.

Por pior que esteja, e sei que está bem ruim, hoje é possível esperançar algo diferente de ontem. Insisto.

Mesmo quando o mundo insiste em lembrar que sou mulher.
E justamente por ser.

Ontem estive em um lançamento de livro de um pesquisador que é Ph.D. em ciência política e mestre em estatística que ten...
06/02/2026

Ontem estive em um lançamento de livro de um pesquisador que é Ph.D. em ciência política e mestre em estatística que tenta com números e dados ajudar a entender um pouco desse conjunto de pessoas que chamamos povo brasileiro.

Dia desses reli meus trabalhos de conclusão das graduações em história e em psicologia. Me dei conta que nos duas usei dados, na tentativa de a partir deles construir um saber. Não “só com eles”, claro, mas “também com eles”.

O que tem a ver com psicologia e psicanálise? Além de escutar pessoas que estão imersas (cada uma a sua maneira) em algo maior chamado país, querendo ou não, a gente faz conta o tempo todo.

Neuroticamente elaboramos balanços inconscientes da nossa relação com os outros (e olha que nem estou falando sobre investimentos de tempo e dinheiro).

Os números compõem uma linguagem em que muitas vezes não nos sentimos fluentes, e por isso mesmo nosso primeiro movimento é afastar e dizer que de nada vale. Será esse um caminho?

Humildemente acho que dados eticamente trabalhados e bem escutados desorganizam certezas e nos obrigam a olhar para além da nossa experiência imediata que tomamos como medida do mundo. Deixam claro o quanto aquilo que viamos como universal ou majoritário pode ser bem diferente.

Afinal, desculpa se doer aí, é bom lembrar que a nossa percepção, e a da nossa bolha de estimação, não dá conta das diferentes realidades.

Tanto Felipe Nunes especif**amente sobre os brasileiros quanto Hans Rosling, com dados de em dezenas de países chegam a uma mesma conclusão: sabemos muito menos sobre o mundo a nossa volta do que pensamos saber. Em suas pesquisas, em relação a perguntas do cotidiano como “qual o índice de desemprego do país” ou “o número de assassinatos nos últimos x anos” a quantidade de acerto dificilmente ultrapassa 20%.

Talvez o papel dos dados hoje seja esse: produzir um pequeno incômodo. E, com sorte, um pouco mais de mundo dentro de nós, mundo esse que pode ser até melhor do que esperamos, ou menos contaminado com nossos medos e preconceitos.

As Guerrilla Girls colaram cartazes nos museus para lembrar que relações de poder existem inclusive na arte. Elis, Simon...
22/01/2026

As Guerrilla Girls colaram cartazes nos museus para lembrar que relações de poder existem inclusive na arte.

Elis, Simonal, Elza e sofreram cada um a seu modo com cancelamentos. Nara Leão, mocinha da zona sul, cercada de privilégios, se propôs a construir pontes, levando o samba do morro ao asfalto, abriu espaço para o novo, fez Carcará.

Sempre me impressionou como as verdadeiras transformações não acontecem por rupturas abruptas, mas por passagem.

Ao assistir Caetano e Bethânia cantando Isa no show vi pontes sendo construídas. E agora Menescal levando a bossa nova às novas gerações, com Luísa Sonza, é ponte outra vez, com a única musica inédita do álbum sendo composta por ela. Ele poderia f**ar no lugar da queixa e “jogar pedra na Geni”, mas não.

Infelizmente se esses são mais excessões do que o habitual na arte e na vida. Muita vezes seguimos investindo energia em criar abismos.

Como se o espaço fosse escasso e, para um crescer, outro precisasse desaparecer. E talvez esse seja um dos maiores enganos que herdamos e que só está a serviço de quem tem o interesse em desagregar mais e mais.

A gente não se dá conta que toda vez que um alguém abre caminho, ele não ocupa um lugar: ela amplia o território.
Toda vez que uma geração escuta a outra, não perde identidade: ganha futuro.

A arte não avança por competição, mas sim por transmissão. Só que se fazer ponte é muito mais difícil do que ser muro, exige um empenho muito maior, mas é só assim que a história continua.

Tecnicamente, sobre música posso falar pouco, só entendo o suficiente para saber do que gosto, e gosto de bastante coisa, felizmente diferentes entre si.

Dito isso, fico feliz e escutando e assistindo basicamente tudo que é fruto do trabalho de Sonza e Menescal.

Ser responsável pela nossas escolhas é radicalmente diferente de ser refém delas. O lugar de refém supõe um outro (pai, ...
03/01/2026

Ser responsável pela nossas escolhas é radicalmente diferente de ser refém delas.

O lugar de refém supõe um outro (pai, mãe, chefe, parceiro amoroso) que nos mantém ali.

Achar que há a possibilidade de viver sem sustentar decisões e as delegar a esses outros é o jeito mais rápido de se fazer refém ao invés de se assumir responsável.

Ao assumimos que a chave do cativeiro está com a gente o tempo todo f**a mais possível ocupar outros lugares na vida que não os porões.

Porque no instante em que reconhecemos que até a omissão é uma decisão, o cativeiro perde força e a responsabilidade deixa de ser só peso para virar possibilidade.

E é aí que a frase do Guimarães Rosa toma corpo: “o que a vida quer da gente é coragem” inclusive de deixar o porão quando a porta sempre esteve destrancada.

Cresci assistindo todos os filmes de natal possíveis na televisão com finais felizes com muita neve. Por aqui as coisas ...
26/12/2025

Cresci assistindo todos os filmes de natal possíveis na televisão com finais felizes com muita neve.

Por aqui as coisas sempre foram diferentes em muito sentidos.
Se Natal tem alguma coisa a ver com Ideal, isso se limita a rima.

Lamento (ou não) informar que a ceia ideal, a família ideal, a noite ideal são tão reais quanto o papai noel.

Talvez por isso eu goste tanto do dia seguinte, daquilo que vem depois, quando ninguém mais espera por uma mesa impecável ou acha necessário esperar até meia noite para qualquer coisa.

Ficamos com um monte de restinho misturado e aquela pergunta de porque não nos empenhamos mais vezes em assar um peru em casa (mas o que seria do Natal se fizéssemos isso?).

O dia seguinte é o dia da dignidade daquilo que f**a.

O que ficou da comida, das conversas, dos afetos, quando não pensamos mais ser necessário performar felicidade mas sim a leveza de quando não se espera muito mais do que a vida acontecendo.

Há dignidade no que não é perfeito. E em tempos de redes sociais é cada vez mais necessário lembrar da legitimidade daquilo que escapa a imagem. Talvez exatamente porque o que é possível existir é sempre outra coisa.

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