08/03/2026
Ser mulher é o tipo de coisa que não dá pra esquecer que se é. Não é algo tipo respirar, que a gente faz de forma natural a ponto de esquecer que faz. Com isso de ser mulher não é bem assim. Não é naturalmente visto na nossa sociedade o corpo feminino, principalmente se estiver vivendo. Logo vem alguém lembrar dos limites que deveríamos ter por ser mulher. Seja na roupa, no gesto ou nos lugares onde escolhemos andar desacompanhadas (lê-se: sem um homem ao lado).
Sim, esse é o mundo em que a gente vive.
O que fazemos nele, ou o quanto insistimos em fazer nele, é que dá o tom da vida que vivemos. Essa coisa preciosa que passa tão rápido.
Hoje fiquei pensando em quanto ser mulher interfere no meu trabalho. Pode parecer pouco, já que trabalho numa área em que mulheres são maioria, ainda que seja lendo majoritariamente homens. Mas logo fui percebendo as sutilezas, como o quanto, ao buscar uma sala, a segurança era um fator muito importante para mim: prédio com portaria, de preferência com câmera nos andares.
Isso para citar um exemplo. Poderia seguir com uma lista e talvez ainda possamos conversar mais sobre isso em outro momento.
Por agora fico com a Camila de 20 anos que, “desacompanhada”, ia para outra cidade, para a faculdade, para a vida (muitas vezes com medo), mas ainda assim indo.
Talvez seja isso que mais me interessa preservar: a possibilidade de continuar indo.
Por pior que esteja, e sei que está bem ruim, hoje é possível esperançar algo diferente de ontem. Insisto.
Mesmo quando o mundo insiste em lembrar que sou mulher.
E justamente por ser.