26/04/2026
Tem coisas que não vêm em palavras, nem em explicações bem organizadas. Vêm em gestos. Em mãos que sabem o que fazer antes mesmo da gente entender o que está sentindo. Vêm no cuidado que se repete, quase como um ritual silencioso, atravessando gerações.
Na minha família, isso sempre teve gosto de chá de boldo. Amargo na boca, daqueles que fazem a gente franzir o rosto antes mesmo do primeiro gole. Mas vinha em xícara conhecida, geralmente acompanhada de um “vai melhorar”, dito com uma certeza que não se explicava, se sentia.
Era para dor de estômago, sim. Para o mal-estar depois de um dia difícil, também. Mas, olhando de longe, hoje, parece que nunca foi só sobre isso. Era sobre colo. Sobre alguém que percebia antes da gente que algo não estava bem. Sobre o cuidado que não pedia autorização para existir. Sobre a presença que ficava ali, por perto, esperando o efeito do chá ou talvez garantindo que ele acontecesse.
Porque, no fundo, o que curava nunca foi exatamente o boldo. Era o jeito de preparar, o olhar atento, o afeto que envolvia tudo isso, como se dissesse, sem precisar de palavras: “você não está sozinho nisso que está sentindo”.
Talvez seja por isso que, mais tarde, a gente reconheça esse mesmo lugar em outros espaços da vida. Na clínica, por exemplo. Ali também existe um certo “amargor”: o de olhar para si, de tocar em feridas antigas, de nomear dores que, por muito tempo, ficaram sem palavra. Nem sempre é confortável. Às vezes, faz franzir o rosto por dentro.
Mas há uma presença. Um psi que escuta com atenção, que sustenta o silêncio, que percebe o que ainda não foi dito. Um olhar que não invade, mas também não se ausenta. Um cuidado que não apressa, mas acompanha.
E, pouco a pouco, algo começa a se reorganizar.
Não porque alguém “resolveu” a dor, mas porque ela pôde, enfim, existir em um espaço onde há acolhimento suficiente para que seja sentida e, quem sabe, transformada.
Como o chá de boldo, a clínica não é sobre evitar o desconforto. É sobre oferecer um lugar onde ele possa ser atravessado com cuidado.
(Continua nos comentários)