25/06/2026
Uma das ilusões mais persistentes sobre o desejo é a ideia de que ele se sustenta apenas por , ou .
No entanto, a vida cotidiana tem um papel decisivo na dinâmica erótica de um casal.
Quando as responsabilidades da casa, dos filhos e da organização da vida recaem de forma desigual sobre uma única pessoa, o desejo frequentemente paga a conta.
Na perspectiva psicanalítica, o desejo necessita de um espaço onde o sujeito possa existir para além das obrigações.
Quando alguém é colocado constantemente na posição de cuidar, administrar, lembrar, resolver e sustentar tudo, sua identidade passa a ser reduzida à função que exerce.
E é difícil desejar ou ser desejado quando se está aprisionado em um papel que exige apenas doação e responsabilidade.
Muitas crises se***is não nascem da falta de amor, mas do acúmulo silencioso de ressentimentos.
O parceiro que não divide as tarefas não está apenas deixando de lavar uma louça ou arrumar uma casa; está, muitas vezes, comunicando que o tempo, o descanso e o bem-estar do outro valem menos.
E o desejo dificilmente floresce onde existe a sensação de injustiça.
O erotismo pressupõe o encontro entre dois sujeitos.
Quando um ocupa o lugar de cuidador permanente e o outro o de alguém que apenas recebe cuidados, a relação corre o risco de se aproximar mais de uma dinâmica parental do que de uma relação entre adultos.
E ninguém deseja sexualmente quem precisa constantemente maternar ou paternar.
Dividir tarefas não é apenas uma questão de colaboração doméstica. É uma forma de reconhecimento.
É dizer ao outro: “a vida que construímos é responsabilidade de ambos”. Esse reconhecimento produz algo fundamental para o desejo: admiração, respeito e reciprocidade.
Talvez por isso tantas pessoas descubram que o desejo não desapareceu.
Ele apenas ficou soterrado sob pilhas de roupas, listas mentais intermináveis e a experiência dolorosa de carregar sozinho aquilo que deveria ser compartilhado.
Porque o não vive apenas no quarto. Ele também habita a forma como um divide a vida.
Vídeo recorte do filme COMO NOSSOS P