23/07/2026
Dormir no mesmo quarto que os pais atrasa o desenvolvimento da criança?
A ciência não sustenta essa afirmação. Não há evidência robusta de que compartilhar o quarto, por si só, cause atraso cognitivo, prejuízo emocional ou falta de autonomia.
A ideia de que o quarto próprio é uma etapa obrigatória do desenvolvimento é, em grande parte, uma construção cultural. Nas sociedades ocidentais industrializadas, o sono separado ganhou força ao longo dos últimos dois séculos, acompanhando mudanças na arquitetura das casas e novos ideais de privacidade, higiene e individualidade. Não nasceu de um estudo demonstrando que crianças precisam dormir sozinhas para se desenvolver bem.
Um estudo clássico comparou famílias dos Estados Unidos e do Japão. Entre as famílias americanas, o dormir no mesmo quarto estava associado a mais conflitos na hora de dormir e despertares noturnos. No Japão, onde dormir junto era uma prática culturalmente esperada, essa associação foi muito menor. A conclusão não foi que dormir junto melhora o desenvolvimento, mas que o contexto cultural influencia a maneira como o arranjo é vivido e percebido como um problema.
Às vezes, o que mais pesa não é o local da cama, mas tudo o que se constrói em torno dele: privação de sono, ansiedade, conflitos e a sensação de que a família está fazendo algo errado. A própria literatura reconhece que a crítica social ao arranjo do sono pode estar associada a maior preocupação e sofrimento materno.
Um ponto importante: para bebês, compartilhar o quarto não é o mesmo que compartilhar a cama. A recomendação atual é que o bebê durma no quarto dos pais, mas em berço ou superfície própria, firme e plana, durante pelo menos os primeiros seis meses. A cama compartilhada não é recomendada por aumentar o risco de sufocação e mortes relacionadas ao sono.
Latz S, Wolf AW, Lozoff B. Cosleeping in Context: Sleep Practices and Problems in Young Children in Japan and the United States. Arch Pediatr Adolesc Med. 1999;153(4):339–346. doi:10.1001/archpedi.153.4.339.
Dr. Daniel Bancovsky | Neuropediatra