21/08/2026
Gustavo Santos, desta vez respondo-lhe como psicólogo. Mas, sobretudo, respondo-lhe como doente oncológico.
Li as declarações em que afirma que a quimioterapia é uma forma de “sacar guita” a quem está a morrer. Li também que associa o cancro a viver com “raiva, rancor, ódio, culpa e vergonha”.
E não consigo ficar calado.
Porque uma coisa é ter opiniões sobre estilos de vida, alimentação, espiritualidade ou bem-estar. Outra, muito diferente, é falar sobre uma doença potencialmente mortal e sobre os seus tratamentos como se conhecimento científico, investigação e experiência clínica fossem apenas uma opinião entre muitas.
Eu tenho cancro.
E posso garantir-lhe uma coisa: quando recebemos um diagnóstico oncológico, já carregamos medo suficiente.
Não precisamos que alguém nos acrescente culpa.
Como psicólogo, preocupa-me profundamente a mensagem implícita de que adoecer é consequência de emoções erradas ou de uma forma errada de viver.
Uma pessoa com cancro não tem de se perguntar:
"Será que adoeci porque tive demasiada raiva?"
"Será porque guardei rancor?"
"Será porque não soube viver?"
Não.
O cancro não é um castigo emocional.
E há algo particularmente cruel nesta narrativa: se a pessoa adoeceu porque “não viveu corretamente”, então, quando a doença progride, facilmente se conclui que também não pensou positivamente o suficiente, não perdoou suficientemente, não mudou suficientemente.
Isto não é empoderar um doente. É colocar-lhe às costas uma responsabilidade que não lhe pertence.
E depois há a quimioterapia.
Quem passa pela oncologia sabe que ninguém romantiza a quimioterapia. Sabemos que pode ser dura. Sabemos dos efeitos secundários, do cansaço, do medo antes dos tratamentos e dos dias em que o corpo parece deixar de nos pertencer.
Mas também sabemos outra coisa:
a quimioterapia salva vidas.
Em alguns cancros pode ter intenção curativa. Noutros reduz o risco de a doença regressar. Noutros controla a progressão da doença ou permite ganhar tempo — tempo de vida, tempo com os filhos, com os pais, com os amigos, com quem amamos.
Por isso, chamar-lhe uma forma de “sacar guita” não é apenas uma frase polémica.
É uma afirmação que pode ser perigosa quando chega a alguém assustado, vulnerável e desesperado à procura de uma alternativa.
Saunas podem proporcionar bem-estar. Alimentação adequada é importante. Exercício, quando clinicamente indicado, é importante. Apoio psicológico é importante. Relações humanas são importantes.
Mas complementar não significa substituir.
Como psicólogo, defenderei sempre a importância da saúde mental durante o cancro.
Como doente oncológico, defenderei sempre o direito de cada pessoa fazer perguntas, procurar uma segunda opinião e participar nas decisões sobre o seu tratamento.
Mas liberdade de escolha exige informação séria.
Porque há uma diferença enorme entre dar esperança a alguém e vender-lhe a ideia de que basta “acordar”.
Eu também acredito no poder da mente.
Acredito no amor.
Acredito na esperança.
Acredito profundamente que a forma como vivemos psicologicamente uma doença pode transformar a maneira como atravessamos o caminho.
Mas não peço à esperança que faça o trabalho da oncologia.
A esperança acompanha o tratamento.
Não o substitui.
E a quem está neste momento a lutar contra um cancro, quero deixar sobretudo isto:
Você não adoeceu porque falhou enquanto pessoa.
Não adoeceu porque sentiu raiva.
Não adoeceu porque teve medo.
Não adoeceu porque não amou suficientemente.
Pode estar zangado.
Pode ter medo.
Pode chorar.
Pode revoltar-se.
E continua a merecer exatamente a mesma coisa:
ciência, tratamento, cuidado, dignidade e esperança.
Bruno Martins — Psicólogo e doente oncológico