09/05/2026
“Nada é mais comum às diversas culturas indígenas da Terra do que um reconhecimento do ar, do vento e do sopro como aspectos de um poder
singularmente sagrado. Em virtude da sua presença impregnante, da sua total invisibilidade e da sua manifesta influência em todos os tipos de fenómenos visíveis, o ar, para os povos orais, é o arquétipo de tudo o que é inefável e incognoscível, mas todavia inegavelmente real e ef**az. Os seus vínculos óbvios com a fala – a noção de que as palavras faladas são sopro estruturado (tentem dizer uma palavra sem exalar ao mesmo tempo) e na verdade de que as frases ditas recebem o seu poder comunicativo deste meio invisível que se move entre nós – confere ao ar uma profunda associação com o sentido linguístico e com o pensamento. De facto, a inefabilidade do ar parece afim à inefabilidade da própria consciência e não deveríamos f**ar surpreendidos por muitos povos indígenas interpretarem a consciência, ou “mente”, não como um poder que resida dentro das suas cabeças, mas antes como uma qualidade na qual eles próprios estão dentro, junto com os outros animais e as plantas, as montanhas e as nuvens”
~ David Abram, The Spell of the Sensous. Perception and Language in a More-Than-Human World, New York, Vintage Books, 1997, pp.226-227.