08/09/2026
A MORTE DA NOSSA EXISTÊNCIA: COMO O MEDO DA VERDADE SE TRANSFORMOU NUM HÁBITO DE DESISTIR DE OLHAR PARA NÓS PRÓPRIOS
Temos um hábito cultural muito nosso, disfarçado de delicadeza, que se resume a empurrar as coisas com a barriga para evitar todo e qualquer atrito. É o café que juramos que temos de combinar — sem intenção nenhuma de o fazer —, a resposta difícil que deixamos no vácuo para não dar más notícias e a mensagem enviada à última hora a desmarcar um encontro, com a desculpa de que a semana foi um inferno. Aprendemos desde cedo que é preferível o silêncio confortável, ou uma mentira bem-educada, a sustentar o desconforto de olhar alguém nos olhos e dizer que não nos apetece, que não concordamos, ou que decidimos tomar outro rumo. Chamamos a isto «não querer chatices» ou «saber estar» — mas este facilitismo do quotidiano é apenas a forma mais cobarde de fugirmos de qualquer conversa que nos exija presença e verdade.
O problema é que ninguém mantém esta atitude cá fora sem acabar por aplicá-la à sua própria vida. Quando as coisas começam a pesar cá dentro e decidimos procurar ajuda para mudar o que nos sufoca, levamos exactamente os mesmos vícios connosco. Prometemos a nós próprios que, desta vez, vamos levar o caminho até ao fim. Mas, assim que o processo deixa de ser uma conversa ligeira sobre os outros e começa a tocar nas nossas feridas, o alarme da fuga dispara de imediato. De repente, falta o tempo, o dinheiro passa a ser um obstáculo inultrapassável, e a rotina serve de desculpa para tudo. Ou então, fazemos o que já nos habituámos a fazer nas relações — mandamos uma mensagem curta pelo telemóvel a desistir, ou simplesmente deixamos de responder e desaparecemos sem rasto, como se estivéssemos apenas a cancelar um pacote de televisão. Acreditamos na ilusão ingénua de que estamos a fintar quem nos acompanha e a poupar a nossa carteira, quando a única coisa que estamos a fazer é confirmar à nossa consciência que não somos de confiança, e que abandonamos o barco sempre que a água começa a entrar.
O compromisso com a nossa própria transformação não é um castigo, nem é um favor que prestamos a quem nos escuta. É a decisão muito simples de parar de inventar desculpas para não crescer. Ninguém é obrigado a f**ar num caminho para sempre, mas ser uma pessoa inteira exige a maturidade de saber estar por inteiro enquanto se está, e de ter a coragem de dar a cara quando se decide sair. Enquanto continuarmos a achar que podemos fugir às decisões difíceis através de desculpas fáceis e do ecrã do telemóvel, continuaremos a queixar-nos de que a vida está vazia — esquecendo-nos de que fomos nós que passámos anos inteiros a desertar de nós próprios.
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