19/06/2026
“Akira não fala, não anda, tem dificuldade em ouvir, tem hipotonia [diminuição do tónus muscular] e atrasos generalizados, mas, apesar de todas as coisas que as pessoas dizem que ele 'sente falta', ele consegue aproximar-se a um nível que faz com que todos se sintam profundamente vistos e amados. Nos dias em que a minha ansiedade me atormenta, quando estou preocupada com o futuro dele, volto sempre a isto: as pessoas sentem-se bem ao pé dele, na sua presença. Ele é como um raio de sol. O meu pequeno sol brilhante."
Akira é neto de Sting. É não-verbal.
Não é mudo; mudo é quem não o compreende.
Na imagem, encosta-se ao avô. Um gesto breve, absoluto. Sting, homem de multidões, fecha os olhos. Não quer escapar; quer render-se.
Não sei se este planeta cada vez mais intolerante está preparado para crianças como Akira. A doença assusta quem exige normalidade. A diferença, quando não serve de bandeira, continua a ser vista como um erro. Akira é tudo menos um erro; é um milagre que só os sensíveis descodificam.
O diagnóstico, o selo clínico que vem cedo demais, tenta dizer quem ele é. O diagnóstico falha: reduz, limita, fecha, comprime. A condição dele não pode ser uma prisão; tem de ser outra maneira de ser gente: mais crua, mais pura, mais exigente, mais humana, até, menos robótica.
Penso na mãe. Na solidão dela nos corredores dos especialistas, na dor de ouvir que ele “não vai ser como os outros”. Como se ser como os outros fosse o objectivo, como se amar um filho assim fosse menos amor. É um amor que sai da impossibilidade, sem contrato, sem plano, à margem do ruído social, à margem de uma normalização que se constrói para nos acalmar os medos.
A doença não serve para criar mártires.
Pode servir para criar pessoas maiores, caminhos cabrões, cheios de lágrimas, mas também de uma espécie de salvação que vem do nevoeiro denso. A doença faz mães de olhos inchados e coluna direita; faz pais que aprendem a traduzir gestos; faz irmãos que amadurecem antes do tempo; faz gente que olha para a vida como a dádiva absoluta que os outros estupidamente desprezam.
Akira não fala; obriga-nos a escutar. É o que mais precisamos de aprender a fazer.
Obrigado.