20/08/2022
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No autocarro em que eu seguia ia uma mãe com uma criança pequena que devia ter os seus 3 ou 4 anos. Era final do dia e estava agitada, com os chamados bichos carpinteiros. Ora escorregava no banco, ora se punha de pé em cima do assento. A mãe estava notoriamente sem paciência e irritada, e embora a criança nem estivesse a fazer barulho apesar de irrequieta, volta não volta ouvia-se os gritos da mãe ameaçando que se não parasse quieto ainda levava uma galheta.
As crianças são hábeis a fazer ouvidos de marcador e por isso as ameaças não tiveram grande efeito. A prometida palmada lá acabou por chegar. O restante caminho fez-se entre o choro da criança e as constantes reprimendas da mãe.
Chegada a casa contei o que assisti à Bia que na altura estava nos seus 4 anos. Pedi-lhe para me avisar quando estivesse a ser aquela mãe do autocarro para que eu parasse e fizesse diferente, porque, apesar de compreender que às vezes nos faltem recursos, não queria ter aquele comportamento com ela. Ela disse que assim faria e cumpriu.
De vez em quando, se achava que me excedia, lá me dizia:
- Mãe, tu não queres ser a mãe do autocarro.
Um dia, em conversa com umas colegas, relatei este episódio e a conversa que tinha tido com a minha filha. Rapidamente recebi as sentenças:
- O que foste fazer! Agora tem-te na mão!
- Vai fazer o que quer com esse trunfo!
Na altura senti-me mal, envergonhada. Fiquei a pensar que se calhar tinham razão. Teria feito mal?
Hoje sei que não fiz mal. Se senti de coração que aquele compromisso era importante para mim e para a minha relação com a minha filha, então estava certo.
Afinal, onde fomos buscar a ideia que nos devemos proteger dos nossos filhos, levantar muros para que não nos atinjam quando menos esperamos ou nos tornemos seus reféns? Porque faria isso sentido dentro da minha casa, na minha família?
Entre nós não nos servem os muros, máscaras ou armas. Com a aprendizagem, a experiência e a consciência sinto-me hoje bem mais confiante no caminho que escolhi e isso faz-me sentir bem... Faz-nos felizes.
Repost 5 de julho de 2019