31/12/2020
Há um ano, olhava com expectativa para 2020. Ia mudar-me para Lisboa: tinha sido escolhida para um full time na minha área de especialidade, deixando para trás dois part times de 4 anos na área de geriatria e muito mais anos de domicílios em fisio pélvica e saúde da mulher.
Há 10 anos de volta para Coimbra após a licenciatura, tinha encontrado um cantinho em que me sentia feliz mas não realizada: afinal, só conseguia trabalhar na minha área a meio tempo, e não conseguia viver só disso. Perante a instabilidade financeira dos últimos anos, valeu-me o apoio da família: todo o dinheiro amealhado era investido em formações, na pós graduação, no mestrado. Várias vezes me questionei se teria feito a opção certa, e a incerteza apoderou-se de mim quando tive que encerrar o meu gabinete em 2018. Achava: “isto não é para mim”.
Mudei de vida. Iniciei em Fevereiro o trabalho na clínica onde afinal as coisas não eram bem assim, onde tive 95% de casos fora da minha área de especialização, com cuja abordagem não concordava. Pensei: virei a minha vida do avesso para isto? Desmotivei. O mestrado ficou em standby, enxuguei lágrimas, valeu-me o apoio das amigas. Criei este instagram na esperança de me dar a conhecer e conseguir mudar para melhor.
Entretanto, a pandemia chegou e voltei para casa. Mais incerteza e lágrimas. A saúde mental, já tremida após mês e meio num trabalho que era o oposto do que queria, ficava cada vez pior pelo receio da pandemia e pela tristeza em pensar que teria que voltar para a clínica. Mas respirei fundo, levantei a cabeça e pedi ajuda, e segui em frente. Libertei-me do que tinha que libertar, na esperança de dias melhores, e rezando a todas as divindades possíveis para que aquelxs que amo não fossem afectadxs por esta terrível pandemia.
Em poucos meses, tantas coisas mudaram. Saí daquela clínica. (Olhando para trás, sei que precisava de algo que me arrancasse da zona de conforto em que estava há 4 anos, e assim foi.) Tive oportunidades únicas pelas quais serei grata para o resto da minha vida. Senti que finalmente tinha um rumo a seguir. Reconstruí aos poucos a minha saúde mental, e cuidei de mim como nunca tinha feito. E pouco a pouco, tudo foi encaixando e correndo melhor.
Porque faço uma partilha tão pessoal no último dia de 2021? Porque temos que normalizar a vida como ela é: crua, imperfeita e vulnerável, por vezes com percursos difíceis mas que um dia valerão a pena. Não podemos dar valor à alegria se nunca tivermos vivido a tristeza, e não sabemos o quão resilientes somos até cairmos e nos levantarmos outra vez.
Não sei o que aí vem. Não sei o que me espera a mim ou a todxs nós. Mas se há uma coisa que este ano me ensinou é que sou mais forte do que pensava ser: todxs somos. Ás vezes só precisamos de ajuda para recuperarmos a nossa força… e está tudo bem.
Que sejamos todxs tão fortes e resilientes como precisamos ser. Feliz 2021!