29/07/2026
Porquê tanta raiva? Porquê tanto mal?
De cada vez que abrimos um jornal ou abrimos as redes sociais somos confrontados com um cenário muito comum: inúmeras manifestações de raiva, da discussão com aquele que está ao nosso lado que degenera para a violência, aos conflitos entre grupos e mesmo entre países. Porquê tanta raiva num mundo que é suposto ser o melhor já construído? Como é que ela se desenvolve? E há remédio para a raiva?
Como muitas outras coisas humanas a raiva é hoje simplesmente mais visível. Como paixão humana atravessa a história nas suas diferentes épocas. Contudo, a expressão actual da raiva tem as suas especificidades, fruto, nomeadamente, das redes sociais onde a raiva se mostra é cada vez mais desinibida e descomplexada, ainda que individualmente seja muito pouco assumida. Apesar da sua expressão e desinibição actual, apesar da facilidade com que encontra grupos que lhe conferem força e legitimidade, a raiva dificilmente se confessa, porque, basicamente se tem a consciência que ela é má, que ela é uma expressão do mal. A raiva, porque deseja e procura fazer o mal a alguém, dificilmente se pode confessar ou assumir. A pessoa que a sente vai sempre procurar formas de a negar, vai inclusivamente tentar convencer outros que aquilo sente e expressa não é raiva, que se trata de algo como uma grande indignação, como a expressão de um grande desgosto ou de um grande sentimento de desprezo, mas nunca a vai assumir, porque isso signif**a admitir que deseja o mal a alguém. Assumir tal desejo de morte e aniquilação do outro não é coisa simples e pode ser muito desestruturante.
Em termos individuais a raiva é antes de mais o reflexo dum sofrimento causado por um sentimento de que a pessoa se sente lesada naquilo que é o centro do seu ser, da sua identidade. Sentimo-nos lesados porque nos sentimos humilhados, com o sentimento duma profunda injustiça, mas também porque nos podemos sentir profundamente incompreendidos. Sofremos e procuramos uma resposta para este sofrimento que acreditamos encontrar designando uma causa exterior, única, que vai concentrar todo o nosso sentir, e é uma causa intencionalmente má de alguém que nos quis intencionalmente mal, pelo que, consequentemente, nos sentimos autorizados a querer-lhe também mal. O certo é que o pior sofrimento é aquele que não encontra forma de ser expresso.
A raiva não é uma emoção como a cólera. Quando a sentimos há um desequilíbrio e teremos alguma dificuldade em voltar a encontrar a harmonia, mas a cólera não durará, porque tentamos fugir dela como fazemos com o medo. Com a raiva é diferente. A raiva é uma paixão, ela dura, não temos vontade que ela passe e vamos procurar todos os meios para a alimentar, tal como o fazemos com o amor, nem que para isso tenhamos de distorcer a realidade dos factos, desconsiderar os argumentos, não querendo ouvir nada que a contradiga. A raiva é uma rejeição e um desejo de aniquilar alguém com quem se tem um laço negativo muito forte. É uma rejeição integral da pessoa pouco importando as suas qualidades ou feitos.
E como saímos disto?
Se pudéssemos encontrar uma solução para a raiva talvez o perdão para a pessoa que nos fez mal deveria ser levado em conta. Contudo, quando se crê firmemente que alguém nos fez mal, que todos os males vêm dela, fechamo-nos numa crença da qual dificilmente se consegue sair. Na raiva parte-se dum contexto de vitimização, em que a pessoa se sente vítima, sem qualquer responsabilidade e com o desejo de denunciar o culpado, numa tentativa de partilhar o seu ponto de vista e encontrar um meio favorável para se sentir mais forte no número. Nesse sentido é vingativa, procura justiça de uma injustiça.
Mas, basicamente, a raiva não é saudável e não quer perdoar. Nenhuma reparação será suficiente e esse é o drama. A partir de certa altura já não se quer discutir, argumentar, ou reparar e nada estará à altura do que se sofreu, portanto, não há perdão, não há reparação, não há equivalência face ao que se crê ter sofrido. O passo seguinte é desejar a eliminação desse alguém que nos magoou no mais íntimo de nós mesmos.
A raiva, como paixão, é um turbilhão interior que nos anima. Se queremos sair dela não é com argumentos exteriores, com um discurso de lógica ou sensato, que se muda alguma coisa. Na raiva estamos no registo da afectividade e é porque a pessoa sofre muito que sente que se asfixia a si própria. E aí há uma pequena luz em que a pessoa se vê a funcionar e se pode dar conta do quanto “isso” é louco. Aproveitando este momento de lucidez a pessoa pode interrogar-se se será uma pura vítima ou que esse alguém que se detesta será o único culpado. E talvez que aí o perdão faça sentido, não tanto a pensar no outro que supostamente fez mal, mas em si própria, para poder seguir em frente sem pesos desnecessários e sem venenos. Naquelas raivas mais fortes, que roçam o patológico, a pessoa precisa de ajuda para se compreender a si própria e livrar-se dessa paixão.
E sim, com consciência, esperança e amor é possível construir um futuro mais harmonioso.
Bom dia a todos!
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