28/12/2025
Acordar antes do sol porque alguém chama, levantar um corpo pesado de sono e sonhos interrompidos, preparar pequenos-almoços que não serão comidos, limpar mesas antes e depois, limpar mãos pegajosas, limpar lágrimas sem saber de onde vieram, vestir camisolas do avesso, desvestir camisolas imediatamente a seguir, procurar sapatos debaixo da cama, dentro do sofá, em lugares metafísicos, negociar mais cinco minutos, depois mais dois, depois mais um, carregar mochilas gigantes, segurar mãos em passadeiras, ouvir histórias intermináveis com detalhes inúteis mas essenciais, responder a perguntas que não têm resposta, inventar respostas para não destruir o espanto, dobrar roupas que nunca ficam dobradas, apanhar brinquedos espalhados, cozinhar refeições rejeitadas com convicção científica, insistir em legumes, limpar pratos quase intactos, insistir no banho, negociar a temperatura da água, lavar cabelos em choro ritual, secar corpos que não param quietos, cortar unhas mínimas, tratar feridas imaginárias, consolar quedas dramáticas, ler a mesma história até decorar cada vírgula, apagar luzes, deixar portas entreabertas, verificar se respiram, voltar a verificar, sorrir mesmo exausto, agradecer mesmo cansado, agradecer por estar ali.
Amo tanto esta vida. Não quero romantizar o cansaço; quero reconhecê-lo como prova de presença. Cada gesto diário contém uma variação mínima, um detalhe novo, um olhar que cresce, uma palavra que amadurece. Quem vive à espera do extraordinário perde o essencial.
Amo o previsível. O previsível é espantoso. Saber o que vem a seguir, contar com o dia seguinte, é o luxo supremo. Quando estive fechado num hospital com o meu filho, só sonhava com isto: a banalidade absoluta, uma manhã igual à anterior, uma rotina chata e tão bonita. Amar um filho é perceber que a felicidade é uma prática. Não é um pico; é uma luz acesa todas as noites. Não me venham dizer que estou a abdicar de mim. Não estou. Não sou menos eu porque já não faço o que fazia antes de ter filhos. Sou mais. Não faço isto por dever, nem por sacrifício, nem por virtude. Faço-o porque me faz feliz.
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O HOSPITAL DE ALFACES
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