22/07/2026
Os sintomas gastrointestinais são, de facto, os efeitos adversos mais frequentes dos medicamentos agonistas do recetor GLP-1, como a semaglutida (Ozempic®) e a tirzepatida (Mounjaro®).
Náuseas, vómitos, diarreia e obstipação estão bem descritos na literatura científica. Surgem sobretudo no início do tratamento ou após um aumento da dose e, na maioria das pessoas, tendem a melhorar com o tempo.
Mas há uma situação que se observa com alguma frequência na consulta.
Pessoas que continuam com distensão abdominal, flatulência, desconforto abdominal, alterações persistentes do trânsito intestinal ou intolerância alimentar durante meses, mesmo depois de a dose estar estabilizada.
Nestes casos, atribuir todos os sintomas apenas ao medicamento pode significar perder a oportunidade de identificar outro problema que já existia, ou que merece uma investigação mais aprofundada.
Entre as hipóteses que podem justificar esta persistência encontram-se alterações da motilidade gastrointestinal, síndrome do intestino irritável, obstipação crónica, doença celíaca, deficiências enzimáticas (como por exemplo a intolerância à lactose ou défice de DAO), SIBO ou outras condições gastrointestinais que exigem uma avaliação individualizada.
O medicamento pode ser parte da explicação, mas nem sempre é toda a explicação.
É precisamente por isso que uma abordagem baseada apenas em “é normal, vai passar” nem sempre é a mais adequada.
O papel do nutricionista passa também por monitorizar a tolerância gastrointestinal, adaptar a alimentação à medida que o apetite diminui, prevenir défices nutricionais, preservar a massa muscular e identificar precocemente situações que justificam uma abordagem nutricional diferente.
Nem todos os sintomas devem ser ignorados, e nem todos exigem interromper o tratamento.
A diferença está, muitas vezes, em saber quando tranquilizar… e quando investigar.