23/07/2026
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O que era o Asperger?
(E por que agora se chama “Espectro do Autismo”?)
Durante anos, muitas pessoas foram diagnosticadas com o que se chamava síndrome de Asperger: inteligência normal ou alta, dificuldades sociais, interesses restritos, rotinas rígidas.
Hoje esse termo caiu em desuso médico, não por desrespeito, mas porque se entendeu que não há autismos separados. Há um espectro. Um contínuo.
Por isso, aquilo a que chamavam Asperger, agora chama-se TEA , Transtorno do Espectro do Autismo, nível 1.
E é aqui que entra o Henrique.
O meu filho. Um cérebro brilhante. Uma alma única.
E alguém que, durante anos, foi só “diferente” aos olhos do mundo. Quando na verdade era autista. Funcional, mas autista.
Como se manifesta o autismo funcional?
(E por que tantos adultos só hoje têm esse diagnóstico)
Quem está neste lado do espectro: – Tem inteligência normal ou superior,
– Pode falar fluentemente (muitas vezes até cedo demais!),
– Mas, não entende códigos sociais subtis: ironias, duplos sentidos, expressões faciais...
– Leva tudo à letra, o que pode gerar mal-entendidos.
– Tem hiperfoco: mergulha em temas com uma profundidade rara.
– Gosta de rotina, previsibilidade, repete frases, sons, ideias.
– E sim, tem maneirismos , movimentos repetitivos que fazem parte da forma como o cérebro se auto-regula.
Maneirismos e estereotipias porquê?
É comum vermos pessoas no espectro com gestos repetitivos:
– Abanar as mãos,
– Balançar o corpo,
– Andar de um lado para o outro,
– Repetir frases em loop,
– Falar sozinhas.
O Henrique fazia isso.
Andava de um lado para o outro sem parar. Falava consigo mesmo, em voz alta, durante horas.
Não era distracção. Era processamento.
Era o cérebro dele a organizar o mundo , à maneira dele.
E isso, para mim, nunca foi um problema.
Foi só o modo dele de estar vivo.
A ciência chama-lhes estereotipias motoras.
São formas que o cérebro encontra para descarregar excesso de estímulo, stress, excitação ou simplesmente manter o equilíbrio emocional.
Não são “tiques”, nem más-criações. São estratégias naturais de autorregulação neurológica.
Mas por que razão tantos adultos só agora estão a descobrir que são autistas?
Porque a maioria cresceu a ouvir frases como: “És muito sensível”
“Falas demais”
“Não sabes brincar com os outros”
“Estás sempre no teu mundo”
“És estranho/a”
“Pareces um velho com esse vocabulário”
E cresceu a tentar parecer “normal”.
A mascarar os gestos. A repetir o que os outros faziam. A decorar regras sociais sem as entender.
Só que esse esforço tem um preço: ansiedade, depressão, burnout, sensação de não-pertencer.
Hoje, muitos adultos olham para dentro e percebem:
nunca foram desajustados , foram mal compreendidos.
E o cérebro? O que diz a neurociência?
O cérebro autista: Tem hiperconectividade sináptica em certas áreas (memória, sensorial, detalhe);
Filtra menos estímulos (por isso o barulho, luz ou toque pode ser avassalador);
Tem mais actividade em zonas ligadas à lógica e menos em zonas ligadas à intuição social;
Funciona com base em padrões, regras internas e previsibilidade.
Isto não é defeito.
É estrutura neurológica distinta.
E o Henrique?
Nunca estudou à maneira convencional.
Não fazia resumos, não sublinhava nada.
Mas era sempre o melhor aluno.
Porque o cérebro dele absorvia não decorava, nem memorizava: assimilava.
Tinha dificuldades em grupos, evitava confusões, falava consigo próprio durante horas como quem ensaia o mundo.
E foi crescendo. E foi brilhando.
Mesmo sem o mundo o ter percebido logo.
Hoje sei: o Henrique não é menos nada.
É mais.
Mais focado, mais sensível, mais puro, mais honesto, mais literal, mais ele.
E se este texto puder ajudar alguém a olhar para o seu filho, sobrinho, amigo ou para si próprio e reconhecer estes sinais já valeu tudo.
Porque o autismo não é uma doença.
É uma forma rara de ver o mundo.
E quem tem a sorte de amar um autista... vê o mundo com outros olhos também.