12/08/2026
QUE O ECLIPSE NÃO NOS ECLIPSE
Há qualquer coisa de bonita na forma como esperamos por um eclipse.
Procuramos o melhor lugar, fazemos quilómetros, compramos óculos especiais e paramos tudo para assistir, durante alguns minutos, ao dia transformar-se em noite.
E está bem.
Há momentos que merecem ser contemplados. Há fenómenos que nos lembram o quão pequenos somos diante da imensidão do universo.
Mas, enquanto esperamos pelo extraordinário, talvez devêssemos perguntar-nos se ainda sabemos olhar para aquilo que está todos os dias diante dos nossos olhos.
O Sol nasce todas as manhãs.
Sem anúncios.
Sem bilhetes.
Sem reservas.
Sem exigir que ninguém o fotografe.
E, tantas vezes, já nem levantamos a cabeça para o ver.
É curioso como somos capazes de fazer planos para assistir a um eclipse que dura apenas alguns minutos, mas nem sempre encontramos tempo para olhar demoradamente para quem amamos.
Esperamos que o céu escureça para nos maravilharmos com a luz.
Talvez devêssemos aprender a maravilhar-nos porque ela está sempre lá.
E talvez o verdadeiro eclipse seja, afinal, aquele que acontece dentro de nós.
Por isso, enquanto esperamos pelo céu escurecer, talvez valha a pena fazer algumas perguntas:
Quem precisa hoje da minha luz?
A quem preciso de dizer “obrigado”?
A quem devo dizer “perdoa-me”?
A quem preciso simplesmente de dizer “estou aqui”?
Porque também existem eclipses na vida.
Há pessoas que deixámos de ver, mesmo estando perto.
Há afetos que fomos deixando ficar às escuras.
Há sonhos que perderam o brilho.
Há esperanças que quase desapareceram.
E há momentos em que até Deus parece escondido.
Mas talvez Deus também seja isto: a certeza de que a luz continua a existir, mesmo quando os nossos olhos já não conseguem encontrá-la.
A Lua pode esconder o Sol.
Mas não o apaga.
E talvez esta seja uma das mais bonitas lições que um eclipse nos pode ensinar:
Há luzes que permanecem, mesmo quando a nossa noite nos convence de que desapareceram.
Há pessoas que continuam a amar-nos, mesmo quando não conseguimos sentir esse amor.
Há esperança que continua viva, mesmo quando já não conseguimos vê-la.
E há uma luz dentro de nós que, por vezes, precisa apenas de tempo para voltar a encontrar o caminho.
Por isso, que o eclipse não nos eclipse.
Que não nos faça esquecer o Sol que continua lá.
Que não nos faça deixar de olhar para quem está ao nosso lado.
Que não nos faça adiar o abraço, o “obrigado”, o “perdoa-me” ou o simples “estou aqui”.
Porque o eclipse passa.
A noite passa.
E a luz, mesmo quando escondida, nunca deixou de existir.
Que nunca nos esqueçamos disso: mesmo quando não conseguimos ver a luz, ela continua a procurar-nos.
Mary 💜