26/08/2026
Há poucos dias escrevi que “tempo perdido é vida perdida” e defendi a necessidade de uma Força Internacional de Resposta Imediata às Catástrofes, permanentemente preparada, treinada e capaz de ser projectada em poucas horas para qualquer ponto do planeta.
Hoje, infelizmente, o Nepal volta a demonstrar que esta discussão não é teórica.
Uma gigantesca cheia súbita atingiu o norte daquele país, na região do Bhotekoshi, junto à fronteira com o Tibete. Com povoações atingidas, estradas e pontes destruídas, comunicações interrompidas e centenas de pessoas dadas como desaparecidas. Entre elas encontram-se cidadãos de numerosas nacionalidades.
A dimensão exacta da tragédia ainda está a ser determinada. E justamente por isso devemos retirar dela uma primeira conclusão:
— Nenhuma catástrofe espera que o Mundo se organize para responder. Somente acontece. E, a partir desse instante, começa uma corrida contra o tempo.
Nas primeiras horas são necessários meios de busca e salvamento, helicópteros, equipas médicas, comunicações de emergência, engenharia, logística, drones, meios cinotécnicos, hospitais de campanha, abastecimento de água, energia, transporte e capacidade de evacuação.
Mas existe uma diferença fundamental entre ter esses meios espalhados pelo Mundo e ter esses meios organizados para responder como uma única capacidade internacional.
É exactamente aí que reside o problema.
O Mundo possui bombeiros, militares com capacidade logística., equipas médicas de emergência, aeronaves de transporte estratégico, hospitais de campanha, equipas internacionais de busca e salvamento, redes de comunicações, satélites, drones e toda a tecnologia capaz de localizar vítimas e cartografar uma região devastada em poucas horas.
Portanto, o problema fundamental já não é a inexistência dos meios. O problema é sim o tempo necessário para transformar milhares de capacidades dispersas numa resposta internacional coordenada.
É aqui que acontecimentos como o de hoje no Nepal deveriam obrigar-nos a repensar profundamente o modelo internacional de Protecção Civil.
NÃO PRECISAMOS DE INVENTAR MAIS MEIOS. PRECISAMOS DE OS ORGANIZAR ANTES DA CATÁSTROFE.
Imagine-se que cada Estado-Membro das Nações Unidas designava previamente uma pequena parcela das suas capacidades nacionais para uma reserva internacional permanente.
Não seria necessário retirar esses meios aos respectivos países.
Continuariam nos seus quartéis, hospitais, bases aéreas, unidades de Protecção Civil e organizações de emergência. Profissionais treinados e identif**ados, certif**ados, meios inventariados, cadeias de comando estabelecidas, protocolos definidos, meios de activação e de mobilização ultra-rápida agilizados.
As autorizações diplomáticas preparadas é uma via-verde global activada em permanência.
E os exercícios internacionais seriam realizados regularmente.
Quando acontecesse uma catástrofe desta dimensão, não começaríamos então a perguntar por quem pode ajudar, pois saberíamos antecipadamente quem pode ajudar.
Essa diferença pode representar centenas ou milhares de vidas.
O NEPAL REVELA OUTRO PROBLEMA
As grandes catástrofes modernas deixaram de ser acontecimentos exclusivamente nacionais.
Quando centenas de cidadãos de diferentes países se encontram numa região atingida, quando rios atravessam fronteiras, quando sistemas meteorológicos abrangem vários Estados e quando infra-estruturas estratégicas são partilhadas, a emergência torna-se imediatamente trans-nacional.
A catástrofe pode acontecer dentro das fronteiras de um Estado mas as suas consequências, porém, podem deixar de caber dentro dessas mesmas fronteiras.
É precisamente nestes acontecimentos que a comunidade internacional necessita de uma doutrina previamente estabelecida; não para retirar soberania aos Estados, como o disse anteriormente, mas para impedir que a soberania se transforme involuntariamente numa demora operacional.
Defender uma capacidade internacional de resposta imediata não signif**a defender o direito de qualquer organização entrar arbitrariamente no território de outro Estado.
Essa solução seria juridicamente perigosa e politicamente inaceitável.
A solução deverá ser mais inteligente, em que os Estados poderiam aderir previamente a um Protocolo Internacional de Assistência Automática em Grandes Catástrofes, estabelecendo antecipadamente as condições em que determinada classif**ação de emergência permitiria desencadear mecanismos simplif**ados de auxílio internacional.
Assim, aquilo que hoje necessita de ser negociado depois da tragédia passaria a estar acordado antes da tragédia. E essa é talvez a verdadeira mudança de paradigma que tão necessariamente se tem demonstrado ao longo dos anos.
A DIPLOMACIA DA EMERGÊNCIA TEM DE EXISTIR ANTES DA EMERGÊNCIA
Actualmente preparamo-nos operacionalmente para as catástrofes, mas continuamos demasiadas vezes a negociar politicamente depois de elas virem a acontecer. Quantas vezes tudo f**a na mesma.
Deveríamos inverter essa lógica. Negociar antes. Treinar antes. Autorizar antes. Inventariar antes. Criar corredores humanitários antes. Definir procedimentos aduaneiros antes. Estabelecer frequências e sistemas de comunicação antes. Preparar capacidade aérea antes. Criar equipas multinacionais antes.
E então, quando a tragédia acontecesse somente seria, será, necessário e emergente, partir.
Porque existe uma enorme diferença entre uma força que pode ser constituída e uma força que já existe e está pronta.
Falo de uma espécie de “112 DA HUMANIDADE”
Talvez seja esta a imagem mais simples para explicar aquilo que defendo.
Quando alguém telefona para o 112 não começa naquele instante a constituir-se um corpo de bombeiros. Os bombeiros já existem. As ambulâncias já existem. Os hospitais já existem. Os protocolos já existem. O comando já existe. Tudo foi preparado antes de alguém precisar. A emergência apenas activa o sistema.
Por que razão não podemos aplicar, à escala internacional, o mesmo princípio?
Uma grande catástrofe deveria desencadear um mecanismo semelhante:
alerta → avaliação imediata → activação → projecção → intervenção.
Não dias nem semanas. Não intermináveis consultas diplomáticas. Não sucessivas conferências entre governos.
Horas. Idealmente, as primeiras equipas internacionais deveriam poder estar em movimento no próprio dia e em poucas, mesmo poucas horas.
E HÁ AINDA UMA SEGUNDA LIÇÃO DO NEPAL
A tragédia de hoje ocorre numa região extraordinariamente vulnerável a fenómenos naturais extremos.
Isto recorda-nos que a Protecção Civil do futuro não poderá limitar-se à resposta. Terá necessariamente três dimensões — prever, preparar e responder.
A mesma estrutura internacional deveria possuir capacidade permanente de análise de risco através de satélites, meteorologia, hidrologia, sismologia, observação de glaciares, inteligência geo-espacial e sistemas de alerta precoce.
Porque salvar alguém dos escombros é extraordinário, mas conseguir que essa pessoa não esteja debaixo dos escombros quando a catástrofe acontece é ainda melhor.
DA SOLIDARIEDADE ESPONTÂNEA À SOLIDARIEDADE ORGANIZADA
Quando acontecem tragédias desta dimensão, o Mundo manifesta geralmente uma enorme solidariedade.
Os Governos oferecem ajuda. As Organizações mobilizam equipas. Imensos Voluntários apresentam-se. As Populações recolhem bens. Profissionais preparados disponibilizam-se. Mas a solidariedade espontânea tem limites.
A solidariedade verdadeiramente ef**az precisa de organização. Precisa de comando. Precisa de treino. Precisa de logística. Precisa de comunicações, de interoperabilidade, de regras previamente estabelecidas. E precisa, sobretudo, de estar pronta antes de ser necessária.
É por isso que continuo a defender uma verdadeira capacidade internacional permanente de Protecção Civil e Assistência Humanitária, constituída pelos Estados e coordenada internacionalmente pela ONU, exclusivamente destinada às grandes catástrofes.
E, acima de tudo, sem finalidade militar, nem política, sem ingerência ideológica, sem ocupação territorial. Mas com uma única missão, de chegar, salvar, estabilizar e retirar-se.
HOJE É O NEPAL. AMANHÃ NÃO SABEMOS ONDE SERÁ.
Esta talvez seja a maior razão para avançarmos, pois nenhum país está completamente protegido.
Pode ser um terramoto no Mediterrâneo.
Um tsunami no Pacífico.
Um grande incêndio na Europa.
Uma erupção vulcânica.
Uma cheia na Ásia.
Um ciclone.
Um acidente industrial de enorme dimensão.
Ou uma catástrofe que ainda nem sequer imaginámos.
Não sabemos onde. Não sabemos quando. Mas sabemos uma coisa, tudo aquilo que pode ocorrer, vai voltar a acontecer.
Se sabemos que acontecerá, se possuímos os meios e se conhecemos a importância das primeiras horas, então continuar a improvisar a coordenação internacional depois de cada catástrofe deixa de ser apenas uma deficiência administrativa.
Passa a ser uma responsabilidade política e moral. Uma irresponsabilidade, diria.
Por isso acrescentaria hoje uma segunda formulação àquilo que escrevi anteriormente:
— A soberania deve proteger os povos mas nunca deve impedir que estes sejam protegidos.
E reafirmo o princípio que então propus:
— Perante uma grande catástrofe, a primeira soberania pertence à vida humana.
Talvez o Nepal nos esteja hoje, dolorosamente, a recordar precisamente isso.
A Humanidade não necessita apenas de ser solidária, necessita de estar preparada para exercer essa solidariedade a tempo. Porque uma ajuda extraordinária que chega três dias depois pode ser humanitariamente importante.
Mas uma equipa de salvamento que chega três horas depois pode signif**ar algo incomparavelmente maior, pode signif**ar a vida.
E é por essa vida que todo o sistema deveria começar.
Por uma Humanidade que importa.
Victor Varela Martins
Especialista em Medicina Natura Integrativa