01/09/2026
EM DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA
Defender a Língua Portuguesa não é defender uma relíquia, um objecto, é defender uma forma de pensar. E, o pensar influencia o ser.
Uma Língua não é apenas um conjunto de palavras que utilizamos para comunicar. É sim, memória, identidade, cultura e, sobretudo, uma arquitectura do pensamento. Quanto mais rica, precisa e diferenciada for a linguagem que dominamos, maior é a nossa capacidade de distinguir ideias, sentimentos, intenções e realidades, não é?!
Por isso, preocupa-me a progressiva simplif**ação do Português. Não porque uma língua deva permanecer imóvel — pois nenhuma Língua viva o permanece — mas porque evoluir não é necessariamente empobrecer. Não pode sê-lo!
Há palavras que parecem sinónimas e não o são. Há diferenças aparentemente pequenas que transportam séculos de elaboração cultural e permitem dizer exactamente aquilo que queremos dizer.
Veja-se, por exemplo, a diferença entre “reparação” e “reparo”.
Quando uma máquina avaria, fazemos a sua reparação.
Quando causamos um dano a alguém, podemos procurar a reparação desse dano.
Mas quando observamos alguma coisa e chamamos a atenção para ela, fazemos um reparo.
E podemos ainda dizer:
— Não tive reparo nisso.
Ou:
— Permita-me fazer-lhe um reparo.
Aqui, “reparo” não signif**a conserto. Signif**a observação, advertência, chamada de atenção ou acto de reparar no sentido de observar.
A diferença é subtil. Mas é precisamente nessa subtileza que habita a riqueza de uma Língua.
Se começarmos a substituir indiscriminadamente “reparo” por “reparação” ou a abandonar uma das palavras porque outra “serve aproximadamente para a mesma coisa”, não estamos a modernizar a Língua. Estamos sim a perder capacidade de expressão, a perder signif**ação da linguagem.
O mesmo acontece quando desaparecem distinções entre ouvir e escutar, ver e observar, lembrar e recordar, erro e engano, dever e obrigação, liberdade e licença, autoridade e poder.
As palavras não são recipientes vazios. Pois cada uma delimita uma parcela da realidade e, quando perdemos palavras, corremos o risco de perder também a capacidade de reconhecer as diferenças que essas palavras exprimiam.
A Língua Portuguesa possui uma extraordinária riqueza porque nela convergem séculos de História: a matriz latina, os vestígios das línguas anteriores à romanização, influências germânicas e árabes, a tradição cristã medieval e, posteriormente, o encontro com África, Ásia, América e Oceânia.
É uma língua que atravessou mares e que, ao fazê-lo, não permaneceu igual em todos os lugares. Tornou-se portuguesa, brasileira, angolana, moçambicana, cabo-verdiana, são-tomense, guineense, timorense, goense — múltipla na expressão, mas pertencente a uma mesma grande comunidade linguística — que tanto é algarvia quanto conimbricense, bragantina como é açoreana, alentejana ou vimaranense.
Essa diversidade deve ser respeitada. E, respeitá-la é respeitarmo-nos.
Mas respeitar a diversidade da Língua Portuguesa não signif**a apagar as particularidades do Português de Portugal.
Não precisamos de uniformizar aquilo que a História tornou plural, não é?!
Portugal não tem de deixar de dizer autocarro porque no Brasil se diz ônibus; nem comboio porque noutros lugares se prefere trem; nem telemóvel porque se generalizou internacionalmente outra terminologia. Do mesmo modo, seria absurdo exigir aos brasileiros, angolanos ou moçambicanos que abandonassem as formas que legitimamente desenvolveram nas suas próprias comunidades.
A unidade não exige uniformidade. Exige sim, compreensão, aceitação e empatia.
Há ainda outra dimensão que me parece fundamental: quem domina poucas palavras f**a dependente de pensamentos mais simples.
Não porque seja menos inteligente, mas porque lhe faltam instrumentos para organizar e exprimir a complexidade.
Uma pessoa pode sentir algo profundamente diferente de tristeza, mas, se apenas conhecer a palavra “triste”, terá dificuldade em distinguir melancolia, desalento, pesar, mágoa, nostalgia, consternação, desânimo, saudades ou saudade.
E nenhuma dessas palavras signif**a exactamente a mesma coisa, pois são a expressão da miríade de vocábulos e signif**ações específ**as desta Língua.
A palavra saudade, aliás, demonstra magnif**amente aquilo que está em causa. Não é apenas uma palavra bonita. É uma determinada maneira de reconhecer e nomear uma experiência humana.
Defender a Língua Portuguesa é, portanto, defender também esta capacidade de distinguir.
É ensinar às novas gerações que escrever correctamente não é submissão a uma autoridade gramatical: é adquirir liberdade.
Porque quem conhece vinte palavras onde outro conhece duas possui vinte possibilidades de pensamento, de expressão e de escolha.
A linguagem pobre favorece o pensamento aproximado; já a linguagem rica permite o pensamento rigoroso.
Por isso devemos desconfiar da ideia de que todas as simplif**ações representam progresso. Algumas facilitam a comunicação; outras apenas eliminam diferenças que já não tivemos paciência para aprender.
Uma Língua pode transformar-se sem renunciar à sua memória. Pode receber palavras novas sem expulsar desnecessariamente as antigas.
Pode acompanhar a tecnologia sem abandonar a literatura. Pode falar de inteligência artificial sem esquecer Camões, Padre António Vieira, Eça, Camilo, Pessoa, Sophia ou Agostinho da Silva.
E pode ser uma Língua do futuro precisamente porque possui um passado.
Defender o Português não é fechar-lhe as portas. É exactamente o contrário.
É querer que continue suficientemente vivo para criar palavras novas, suficientemente livre para admitir diferenças e suficientemente rico para não precisar de destruir uma única palavra sempre que aparece outra aproximadamente equivalente.
Porque entre reparo e reparação existe apenas uma pequena diferença de letras mas pode existir uma enorme diferença de signif**ado.
E é dessas pequenas diferenças que se constrói a precisão do pensamento.
Uma Língua não se empobrece apenas quando perde palavras. Empobrece quando deixamos de perceber por que razão elas eram, são, diferentes.
Preservar a Língua Portuguesa é, por isso, mais do que preservar palavras. É preservar a memória. É preservar a identidade. É preservar o pensamento.
E um povo que deixa de cuidar da sua Língua começa, lentamente, a deixar que outros pensem por ele.
Boas reflexões, para Todos.
Victor Varela Martins
Especialista em Medicina Natural Integrativa