Prof. Dr. Carlos M Lopes Pires -psicólogo clínico

10/08/2026

TEORIAS SOBRE AS PERTURBAÇÕES DEPRESSIVAS

A HIPÓTESE BIOQUÍMICA DA DEPRESSÃO. Comecemos pela muito divulgada teoria bioquímica da depressão que, aliás, fundamenta a prescrição e promoção dos tratamentos farmacológicos, na sua forma mais popular e divulgada entre os profissionais.
A abordagem bioquímica da depressão assenta no pressuposto de que existe um problema relacionado com as monoaminas, especialmente a norepinefrina e a serotonina. Este problema teia a ver com um défice na actividade destes neurotransmissores. Segundo Stahl (2001) as razões para este défice de actividade poderiam ser várias, constituindo as quatro hipóteses biológicas mais relevantes quanto à depressão. Vejamos aquela que é a mais popular entre a classe médica e farmacêutica.
A HIPÓTESE MONOAMINÉRGICA. Sendo a mais antiga das hipóteses, é também a mais divulgada e usada como base científica por parte da propaganda farmacêutica. Nela é suposta a existência de uma deficiência dos neurotransmissores monoaminérgicos, nomeadamente na norepinefrina e serotonina, resultante de determinados processos patológicos (doença, dr**as, stresse) e provocando a diminuição, igualmente patológica, daquelas aminas: daí resultariam os próprios sintomas depressivos.
Esta hipótese tem origem em alguns dos efeitos provocados por uma categoria de fármacos chamada IMAO (INIBIDORES DA MONOAMINA OXIDASE), que nos anos 60 se utilizava no tratamento da tuberculose. Na medida em que esta droga inibia a MAO (que é uma enzima responsável pela destruição de neurotransmissores, como a norepinefrina e serotonina), logicamente se concluiu que, tendo a inibição da MAO por resultado um aumento daquelas aminas, então, é porque na depressão haverá uma situação inversa: défice nesses neurotransmissores.
CONCLUSÃO: de acordo com esta hipótese, as pessoas deprimem-se porque nos seus cérebros existe norepinefrina ou serotonina a menos. Teríamos, então, uma síndrome de deficiência de norepinefrina e/ou um síndrome de deficiência de serotonina.
Estas síndromes constituiriam, por assim dizer, a “doença” depressiva, para a qual existiria um tratamento indicado, justamente as dr**as capazes de aumentar a quantidade de aminas biogénicas (norepinefrina e/ou serotonina).
Qual o grau de sustentação para esta hipótese e suas variantes? Se nos quisermos referir a sustentação científica, a resposta parece ser obrigatoriamente: NENHUMA. No seu livro, de referência na área da psicofarmacologia clínica, "Essential Psychopharmacology: Neuroscientific Basis and Practical Applications”(2001), Stephen Stahl reconhece que, até à data não foi encontrada qualquer confirmação para aquelas hipóteses, não só no respeitante à depressão, mas igualmente no respeitante a qualquer outra desordem psicológica (o mesmo afirmam muitos outros, com destaque para Antonuccio, 2002).

Teorias de base psicológica

03/08/2026

Para uma pessoa deprimida prestar atenção pode ser, simplesmente, algo que a exaura, que a esgota. Não consegue fixar o que lê nem o que lhe dizem. Fala devagar e com longas pausas, com poucas palavras, em tom baixo, arrastando-se numa voz monocórdica e monótona. Outras, pelo contrário, tornam-se agitadas, não conseguem estar quietas, movem-se muito, gesticulam muito, mesmo quando se estão a queixar.
Uma pessoa deprimida, quando é confrontada com um problema, não consegue imaginar uma solução ou ideias que possam conduzi-la a uma saída. Todas as coisas são vividas com gravidade e auto-recriminações constantes. Um tal estado pode conduzir à negligência na alimentação, na higiene e na limpeza, com queixas de dores e outros sintomas com aparente base orgânica. À depressão junta-se, frequentemente, elevada ansiedade.
Ao longo da vida, a sintomatologia depressiva pode variar. Assim, a depressão em crianças pode revestir-se de grande actividade e agressividade. Em adolescentes pode manifestar-se em negativismo, comportamento anti-social, ou através da manifestação de sentimentos de incompreensão por parte dos adultos.
ALGUNS DADOS ESTATÍSTICOS
A depressão é uma desordem com uma prevalência estimada como rodando os 5% e os 9% para as mulheres, 2% e 3% para os homens (DSM-IVTR, 2002), variando com os países e com os instrumento psicométricos usados para fazer o diagnóstico. Também é mais frequente em pessoas de classes socio-económicas mais baixas, tendendo a ser uma desordem recorrente. Por exemplo, segundo Stahl (2001) das cerca de 60% de pessoas deprimidas, que melhoram com antidepressivos (em tratamento de 1 ano), ao fim de 1 ano sem medicação (após terminado o tratamento), apenas 15% se mantêm livres de depressão (o que, diga-se de passagem, reduz os 60% iniciais de sucesso para 35%...).

25/07/2026

Facilmente se conclui que, mesmo utilizando estes critérios (que já são muito “elásticos”), os diagnósticos de depressão que acontecem por todo o lado, são habitualmente baseados em coisas como tristeza ou desmotivação, situações que ocorrem a toda a hora e nas mais variadas circunstâncias. É claro que é fácil concluir que muita gente anda medicada sem qualquer necessidade ou justificação. A grande maioria das pessoas que referem este mal-estar beneficiariam, simplesmente, de aconselhamento ou orientação psicológica pontual.
Frequentemente, meter-se a tomar medicação é meter-se numa alhada para toda a vida. Bom, poder-se-á perguntar, e aquelas que, verdadeiramente, estão num estado depressivo? Aí a estória pode ser outra.

24/07/2026

Seguidamente pode ser observado o conjunto de sintomas que, segundo o DSM-5, são requeridos para o diagnóstico da DEPRESSÃO MAJOR. A DEPRESSÃO é um estado emocional caracterizado por profunda tristeza e apreensão, sentimentos de culpa, isolamento, perda/excesso de sono, do apetite, do desejo sexual, e das coisas da vida em geral. É necessário distingui-la das experiências comuns, transitórias e normais, como os estados disfóricos decorrentes de doenças ou de decepções:
A. Cinco (ou mais) dos seguintes sintomas estão presentes há pelo menos duas semanas e representam uma alteração do estado anterior; pelo menos um dos sintomas
é (1) humor deprimido ou (2) perda de interesse ou prazer.

1. Humor depressivo a maior parte do dia, quase todos os dias, referido pela própria pessoa (por exemplo, sentir-se triste, vazio, sem esperança) ou por observação de outras pessoas.
(Nota: em crianças e adolescentes, o humor pode ser irritável.)
2. Diminuição significativa no interesse ou no prazer para todas ou quase todas as actividades, a maior parte do dia, quase todos dias.
3. Perda significativa de peso sem dieta, ou aumento de peso (por exemplo, modificação de mais de 5% do peso corporal num mês) ou diminuição ou aumento de apetite quase todos os dias.
4. Insónia ou hipersónia quase todos os dias.
5. Agitação ou lentidão psicomotora quase todos os dias (observável por outros; não simplesmente o sentimento subjectivo de inquietação ou de desaceleração).
6. Fadiga ou perda de energia quase todos os dias.
7. Sentimento de uso excessivo ou impróprio de culpa (que pode ser delirante) quase todos os dias (não simplesmente a auto-reprovação ou culpa por estar doente).
8. Diminuição da capacidade de pensar ou concentrar, bem como para tomar decisões, quase todos os dias (a partir das informações subjectivo ou observação por outras pessoas).
9. Pensamentos recorrentes sobre morte (não apenas medo de morrer), pensamentos suicidas recorrentes, sem um plano específico tentativa de suicídio ou um plano específico para realizá-lo.
B. Os sintomas causam desconforto clinicamente significativo ou deterioração em áreas sociais, laborais ou outras áreas importantes de funcionamento.
C. O episódio depressivo não pode ser atribuído aos efeitos fisiológicos de uma
substância ou uma condição médica

16/07/2026

Há um terceiro motivo, digamos que mais técnico, para uma tal inflação de depressões.
Esse motivo tem que ver com os critérios a serem cumpridos para se fazer este diagnóstico, que são critérios cada vez mais próximos da “normalidade”. Quer dizer, com o objectivo de aumentar o número de pessoas diagnosticadas como deprimidas, e assim serem mais prescritas embalagens de antidepressivos, passou a considerar-se do âmbito depressivo, por exemplo, situações de luto e situações femininas ligadas ao período menstrual.
Há que referir, ainda, que no diagnóstico da chamada depressão, e não só, claro, são usadas escalas clínicas, como a escala de Hamilton ou a CESD. O que sucede, é que muitos dos itens (cerca de 1/4) dessas escalas constituem sintomas de ansiedade. Isto significa que uma pessoa andando muito ansiosa, mas não deprimida, tem uma elevada probabilidade de ser diagnosticada deprimida a partir de tais itens.
Um ponto interessante, antes de falarmos, propriamente, de humor depressivo, é o seguinte: contrariamente à ideia difundida, as pessoas deprimidas são muito sugestionáveis, podendo melhorar do seu estado depressivo com alguma facilidade, desde que acreditem em algo que lhes é dito ou dado (por exemplo, um comprimido).

Contexto e diagnóstico do humor depressivo ("depressão")

12/07/2026

1. As pessoas comuns não sabem, mas os antidepressivos tornaram-se a primeira escolha farmacológica para a generalidade dos distúrbios psicológicos, incluindo os que respeitam à ansiedade e ao medo. Isto quer dizer que, praticamente todo o leque de situações de mal-estar ou sofrimento psicológico é medicado com antidepressivos. Claro que como estes fármacos são chamados “antidepressivos”, decorre que o cidadão comum facilmente conclui que quem toma “antidepressivos” está deprimido. Mas também os profissionais de saúde, que acabam por olhar para tudo como variantes depressivas. O problema é que o termo “antidepressivo” é uma etiqueta de marketing (bem-sucedida, diga-se).
2. Quando na década de 80 do século passado foi feita a promoção do Prozac (fluoxetina), o respectivo laboratório fez uma campanha publicitária, que penetrou na cultura ocidental, em geral, levando a uma percepção exagerada sobre a ocorrência de pessoas deprimidas. Mesmo actualmente, continuam a haver notícias nos media, dando a entender que quase toda a gente sofre de depressão. O que não é verdade, evidentemente.
Há um terceiro motivo, digamos que mais técnico, para uma tal inflação de depressões.

05/07/2026

O caso da depressão

A primeira coisa a dizer é que, de todas as perturbações psicológicas, esta é, quase de certeza, aquela que é mais vítima de mal-entendidos, mistificações e falsidades. É, igualmente, sobrevalorizada em termos de ocorrência. “A depressão” é um negócio. Antes de mais, para as farmacêuticas. Mas também para os psiquiatras e até para os psicólogos.
Digo que é sobrevalorizada estatisticamente, já que muita gente é assim diagnosticada, sem que esteja, realmente, num estado depressivo. E também não é verdade que pelo facto de se consumirem muitos antidepressivos, e tais consumos virem aumentando quase de ano para ano, isso signifique que há cada vez mais pessoas deprimidas, como li recentemente. Não! Uma coisa não tem que ver com a outra. Consomem-se mais antidepressivos, simplesmente, porque se prescrevem mais, e cada vez mais. A pergunta que deverá fazer-se é: por que motivo (ou motivos) se prescrevem cada vez mais? São duas, as respostas.

22/06/2026

8. Problemas gerais derivados da tomada de psicofármacos para a ansiedade
Embora sejam múltiplos os tipos, e combinações de fármacos, usados no manuseamento da ansiedade, por uma questão de simplicidade, poderemos resumi-los a três tipos mais comuns: benzodiazepinas, ou aparentados, antidepressivos e antipsicóticos.
a) As benzodiazepinas, popularmente designadas como “calmantes” constitui um conjunto muito vasto de moléculas, de algum modo semelhantes, mas com certas particularidades que podem diferenciá-las nos respectivos efeitos farmacológicos e clínicos. Segundo diferentes instituições médicas internacionais, não devem ser tomadas mais que alguns dias. Na prática, muita gente toma-as toda a vida. De notar que a grande maioria das benzo cria habituação ao fim de 4 dias. De qualquer modo, o uso prolongado destas substâncias tem um efeito depressor no Sistema Nervoso Central, o que pode traduzir-se por problemas de memória, raciocínio, motivação, entre outros, entre os quais, estados depressivos.
b) Os antidepressivos: segundo o psiquiatra David Healy, os antidepressivos modernos (os mais usados):
- Estão mal nomeados (não são antidepressivos)
- São menos eficazes do que se afirma,
- Têm riscos graves subestimados (por exemplo, ideacção suicida, perturbação sexual, entre muitas outras, para além de poder deixar alterações biológicas persistentes e nefastas, mesmo depois de serem parados de tomar-
Na verdade, pode dizer-se que, actualmente, estas substâncias são usadas para praticamente todas as ditas desordens mentais, o que parece corroborar o resultado de vasta investigação que tem encontrado os antidepressivos serem sobretudo placebos.
C) O caso dos antipsicóticos: até há vinte ou trinta anos atrás, mais ou menos, etas substâncias eram reservadas para esquizofrenia e outras condições ditas psicóticas, por um lado devido à sua acção fortemente depressora e por outro lado, por terem diversos ricos associados (“efeitos secundários”). Com o tempo, porém, foi-se generalizando o seu emprego, incluindo em crianças. Sobretudo em ansiedade e insónias. Substâncias como a risperidona ou a quetiapina são hoje em dia comuns em tais situações. Seja como for, e faça-se a publicidade que se faça, estes fármacos provocam apatia, indiferença, desmotivação, deterioração cognitiva, para além de problemas de movimento e musculares. É apenas uma questão de tempo…

Próximo tópico: depressão

13/06/2026

7. O caso da terapia psicológica em paralelo com medicação
Embora muito preconizada pelo senso comum (“dois tratamentos é melhor do que um”), tal carece de fundamento e, psicologicamente, tem muito que se lhe diga. Excepto na situação, atrás referida, crítica, em que à falta de outra alternativa, a pessoa toma uma substância durante uns dias, tudo o que seja o uso prolongado de um psicofármaco para lidar com ansiedade, revela-se uma solução fraca e até arriscada, frequentemente. Consideremos vários motivos para esta afirmação:
a) Como explicado anteriormente (veja os primeiros textos sobre pânico), a ansiedade é um sistema de alarme para ameaças, não imediatamente presentes. Objectivo desse alarme é que a pessoa desenvolva algum meio de eliminar ou reduzir a ameaça (ou, mais concretamente, os danos que ela acarrete, se realize). Neste sentido, o uso prolongado de substância, desde logo, desloca a atenção da ameaça para o alarme, propriamente dito, passando este a ser percebido como a ameaça. A pessoa pode, então, viver com a ameaça a provocar-lhe danos sucessivos, sem se dar conta da relação e, por conseguinte, não desenvolvendo estratégias adequadas para evitar tais danos. Conclusão: o uso de uma terapia psicológica, neste caso, é uma falácia.
b) Frequentemente, a focalização na experiência de ansiedade, sem o seu enquadramento psicológico, quer dizer, sem considerar que a ansiedade faz parte de um sistema de defesa, que se inicia como alarme, conduz à ideia de que a ansiedade é uma doença e que, enquanto tal, tem de ser combatida com comprimidos. Esta ideia desliga, desconecta a pessoa da sua experiência de vida. Isto é, a ansiedade começa sempre por ser uma resposta saudável a um acontecimento ameaçador (ainda que a pessoa disso não seja consciente).
c) Conclusão: o uso simultâneo de medicação e terapia psicológica é, ao contrário do que muita gente pensa, um problema, nomeadamente, quando consideramos o médio e o longo prazo.

8. Problemas gerais derivados da tomada de psicofármacos para a ansiedade

31/05/2026

6. As pessoas medicadas
Nota: para adequada compreensão do que se segue, aconselho a leitura do que escrevi na introdução da perturbação de pânico, em que se explica, nomeadamente, que a ansiedade é um sistema de alarme para ameaças não imediatas.
O princípio é o seguinte: a ansiedade é desencadeada pela percepção de uma ameaça. Portanto, é um alarme. Calar, simplesmente, o alarme é geralmente um erro, que pode pagar-se de várias maneiras. Daí que o uso de um psicofármaco deva ser apenas paliativo e temporário. Existe, pois, uma circunstância, que considero sensata. Aquela em que numa situação de urgência, e à falta de melhor alternativa, a pessoa toma uma benzodiazepina, ou equivalente, durante uns dias (a maior parte das fontes diz que ao fim de quatro dias se produz habituação). Sendo assim, como paliativo e transitoriamente, não vejo que venha mal algum. O problema é quando se prescreve, além de uma benzodiazepina ou equivalente, se prescrevem, por exemplo, um antidepressivo e um antipsicótico. Quando se faz isto, inicia-se um processo que será sempre, no mínimo, de meses.
Evidentemente, que há quem, por razões de ignorância, de características de personalidade, ou de preferência, escolha tomar diariamente tais substâncias ou tomá-las por períodos em que se sinta mais ansiosa. Embora tais escolhas envolvam riscos psicológicos e de saúde geral, é um seu direito. Se essa é a sua escolha, a introdução de elementos psicológicos, seja como terapia, ou simplesmente apoio, será, quase de certeza, uma perda de tempo.
7. O caso da terapia psicológica em paralelo com medicação

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