Sophie Seromenho

Sophie Seromenho Somos uma clínica localizada em Setúbal que alia psicologia, neuropsicologia, nutrição clínica e coaching

E se a questão nunca tiver sido simplesmente gostarmos ou não gostarmos do nosso corpo?Quando uma mulher diz “quero muda...
26/08/2026

E se a questão nunca tiver sido simplesmente gostarmos ou não gostarmos do nosso corpo?

Quando uma mulher diz “quero mudar isto em mim”, quem está exatamente a falar dentro desse desejo? De onde veio a ideia de que aquela parte precisava de ser diferente? Quando começou a incomodar? Quem estava presente quando começou a ser olhada com vergonha? Que comentários ouviu? Que corpos aprendeu a admirar? E, sobretudo, o que imagina que acontecerá quando finalmente tiver o corpo que deseja?

Será mais desejada? Mais escolhida? Mais segura? Mais feminina? Menos abandonável?

Porque nenhum desejo nasce completamente isolado. Desejamos a partir da nossa história, das relações que tivemos, dos olhares que nos constituíram e das imagens às quais aprendemos a atribuir valor.

Mas isto também não significa que todo o desejo estético seja submissão. Podemos perguntar: será que uma mulher deixa de ser livre porque gosta de maquilhagem, quer emagrecer, fazer uma cirurgia ou modificar o corpo? Ou retirar-lhe essa possibilidade em nome de uma suposta libertação não seria também decidir por ela aquilo que deveria desejar?

Talvez a pergunta mais incómoda seja outra: quanto há de escolha naquilo que sentimos como escolha?

eu quero ser magra, porque quero ser magra? Se quero parecer mais jovem, o que significa para mim envelhecer? Se preciso de me sentir bonita, de quem preciso que venha esse reconhecimento? Se ninguém pudesse ver o meu corpo, continuaria a querer modificá-lo?

E quando digo “faço isto por mim”, quem é esse “mim”? Uma identidade constrói-se também através do olhar dos outros. Então, onde termina o meu desejo e começa aquilo que aprendi a desejar para continuar a ser amada?

Talvez nunca exista uma resposta totalmente limpa.

Podemos desejar genuinamente uma mudança e, ao mesmo tempo, carregar medo de rejeição. Podemos sentir prazer estético e procurar validação. Podemos escolher e estar condicionadas. O psiquismo suporta contradições muito melhor do que os discursos políticos.

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O corpo das mulheres nunca foi apenas um corpo. Foi, durante séculos, território político, moral, económico e social. Os...
25/08/2026

O corpo das mulheres nunca foi apenas um corpo. Foi, durante séculos, território político, moral, económico e social. Os média e quem nos rodeia dizem-nos como devíamos parecer, quanto espaço podemos ocupar, que partes devíamos esconder, quais devíamos mostrar, quando era aceitável envelhecer, engordar, emagrecer, desejar, parir, amamentar ou simplesmente existir sem pedir desculpa.

Nos, mulheres, aprendemos muito cedo a olhar para o corpo de fora para dentro. Antes de perguntarmos “como me sinto aqui?”, aprendemos a perguntar “como estou a ser vista?” Ou “como quero ser vista pelos outros?”. Imaginem, então, neste cenário, as nossas adolescentes a aprenderem logo aos 11-12 anos a verem o seu corpo feminino sobretudo através do olhar do outro. Elas deixam de ser um lugar de experiência e transformam- se num objeto permanentemente observado, corrigido e avaliado.

E há sempre uma nova exigência! Ser magra, mas com curvas. Ter glúteos, mas pouca gordura. Envelhecer, mas sem parecer velha. Ser mãe, mas recuperar rapidamente o corpo anterior. Ser sensual, mas não demasiado. Cuidar da aparência, mas fingir que não dá trabalho. Amar o corpo, mas continuar a comprar tudo aquilo que promete modificá-lo.

Mas um corpo feminino não precisa de justificar as suas mudanças. Pode ter estrias, gordura, músculo, cicatrizes, pelos, rugas, flacidez. Pode transformar-se depois de uma gravidez, de uma doença, de uma perda, do envelhecimento ou simplesmente porque os organismos vivos mudam.
Isto não é sobre não podermos modificá-lo porque obviamente que podemos fazê-lo. Ao contrário do que muitos pensam, o feminismo não exige que uma mulher adore cada centímetro do seu corpo, nem transforma qualquer desejo estético numa traição política. A questão mais interessante é perceber de onde vem esse desejo, quanto há nele de escolha e quanto há de medo de deixar de ser desejável.

Precisamos de ensinar as nossas mulheres a questionar esta vigilância interior que aprendemos desde a adolescência a exercer sobre nós próprias! Porque o corpo feminino tem muito mais para fazer nesta vida do que ser bonito enquanto a atravessa.

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Os vínculos humanos não sobrevivem porque duas pessoas conseguem nunca falhar uma à outra. Sobrevivem quando a falha pod...
22/08/2026

Os vínculos humanos não sobrevivem porque duas pessoas conseguem nunca falhar uma à outra. Sobrevivem quando a falha pode ser reconhecida, pensada e reparada. Amar alguém implica inevitavelmente desiludi-lo. Não há relação íntima sem desencontro, porque não há duas pessoas com o mesmo desejo, o mesmo ritmo, as mesmas necessidades ou a mesma história.

O problema começa quando esperamos do outro uma presença perfeita. Nesse lugar, qualquer ausência parece abandono, qualquer diferença parece rejeição e qualquer erro parece prova de desamor. A relação deixa então de ser encontro entre duas pessoas inteiras e passa a ser convocada para reparar, permanentemente, uma falta antiga.

Crescer emocionalmente implica poder descobrir outra coisa: posso precisar de ti sem exigir que existas apenas para mim. Posso zangar-me contigo sem precisar de te destruir. Posso desiludir-te sem concluir que deixei de merecer o teu amor. Posso reconhecer que te magoei e aproximar-me novamente.

É nessa possibilidade de reparação que o vínculo amadurece.

Quando alguém falha connosco e consegue permanecer suficientemente próximo para escutar a dor que provocou, acontece algo muito mais transformador. A experiência deixa de confirmar que toda a falha termina em abandono. Surge uma memória emocional nova: podemos magoar-nos e continuar ligados.

Talvez amar seja também isto.. Reconhecer que o outro nunca preencherá completamente aquilo que nos falta e, ainda assim, encontrá-lo. Suportar a frustração de ele ser diferente daquilo que desejávamos, sem deixar de o ver como alguém digno de amor.

Uma relação suficientemente boa não elimina a falta. Dá-nos companhia para a atravessar. E, quando existe culpa, permite transformá-la em responsabilidade, cuidado e reparação.

Porque o vínculo humano não se constrói na perfeição. Constrói-se na capacidade de voltar ao encontro depois daquilo que nos separou.

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A depressão começa muitas vezes antes da tristeza. Começa quando uma pessoa deixa, pouco a pouco, de poder ser quem é.A ...
19/08/2026

A depressão começa muitas vezes antes da tristeza. Começa quando uma pessoa deixa, pouco a pouco, de poder ser quem é.

A criança precisa do amor dos outros para sobreviver psicologicamente. E, quando percebe que certas partes de si ameaçam esse amor, adapta-se. Se a sua zanga incomoda, aprende a engoli-la. Se a sua autonomia é vivida como afastamento, aprende a depender. Se aquilo que deseja encontra indiferença, crítica ou ausência, aprende a desejar menos. Vai sobrevivendo, mas pagando essa sobrevivência com partes de si.

Talvez uma das dimensões mais profundas da depressão esteja precisamente aqui, no empobrecimento do desejo.

O deprimido pode sofrer porque perdeu alguém, mas também porque se perdeu de si próprio na relação com os outros. Viveu demasiado para corresponder, agradar, não desiludir, conservar vínculos ou conquistar um amor que nunca pareceu inteiramente seguro.

A agressividade, necessária para nos diferenciarmos e defendermos, pode então voltar-se contra o próprio. Em vez de contestar quem o diminuiu, diminui-se. Em vez de reconhecer aquilo que lhe fizeram, acusa-se. Em vez de sentir raiva, sente culpa. A relação que um dia existiu fora passa a acontecer dentro.

É assim que se constrói uma voz interna cruel. “Não valho.” “Não consigo.” “Sou um peso.” O outro já nem precisa de estar presente. O seu olhar foi interiorizado.

Por isso, compreender a depressão exige escutar também aquilo que ficou impedido de existir. A raiva que nunca pôde ser sentida, a necessidade que parecia excessiva, a autonomia que ameaçava o vínculo, o desejo abandonado para continuar a ser amado.

O acompanhamento psicológico procura devolver movimento ao que ficou paralisado. Recuperar a capacidade de sentir, desejar, escolher, investir e amar. Porque há uma diferença profunda entre estar vivo e sentir que a vida nos pertence.

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Há sintomas que insistem porque carregam uma função que a própria pessoa ainda não consegue reconhecer. Repetem-se no co...
17/08/2026

Há sintomas que insistem porque carregam uma função que a própria pessoa ainda não consegue reconhecer. Repetem-se no corpo, nas relações, nas escolhas, nos medos, nos mesmos lugares onde jurámos que nunca mais voltaríamos. E quanto mais tentamos arrancá-los de nós, mais parecem encontrar outra porta por onde entrar.

O sinthoma (sim, como Lacan escreveu) permite pensar algo ainda mais profundo: há formas de sofrimento que, apesar de dolorosas, ajudam a manter a pessoa psiquicamente organizada. Funcionam como um nó. Um modo singular de manter juntas partes de si que, sem aquele arranjo, poderiam tornar-se difíceis de sustentar.

Por isso, retirar um sintoma sem compreender aquilo que ele segura pode produzir mais angústia do que liberdade.

A obsessão pode organizar o caos.
O controlo pode conter uma sensação profunda de desamparo.
A ansiedade pode manter a pessoa permanentemente preparada para um perigo que já não sabe nomear.
Uma relação destrutiva pode proteger contra uma solidão ainda mais intolerável.
A repetição pode preservar uma ligação inconsciente àquilo que se perdeu.

Há sofrimento, mas há também uma tentativa de solução.

Talvez seja esta uma das ideias mais desconfortáveis da psicologia: aquilo que nos faz sofrer pode, simultaneamente, estar a impedir que alguma coisa dentro de nós se desfaça.

O trabalho psicológico exige então delicadeza. Antes de perguntar “como eliminamos isto?”, talvez seja necessário perguntar: “o que é que isto mantém unido?”

Porque há sintomas que só podem perder a sua necessidade quando encontramos outras formas de sustentar aquilo que eles sustentavam. E, por vezes, a transformação mais profunda acontece quando deixamos de travar uma guerra contra o sintoma e começamos a escutar a estranha lógica com que ele tentou, durante tanto tempo, manter-nos inteiros.

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Há demasiado tempo que a parentalidade é organizada como se a mãe fosse a figura principal e o pai uma espécie de ajudan...
16/08/2026

Há demasiado tempo que a parentalidade é organizada como se a mãe fosse a figura principal e o pai uma espécie de ajudante. Ele “ajuda” no banho, “fica” com o bebé, “dá uma mão” durante a noite. A própria linguagem denuncia aquilo que continuamos a esperar de homens e mulheres. Ninguém diz que uma mãe está a ajudar o pai quando muda uma fralda.

Incluir verdadeiramente o pai desde o início implica mexer numa organização social profunda. Cuidar, conhecer os sinais do bebé, acordar durante a noite, marcar consultas, preparar refeições, saber que roupa deixou de servir, acalmar o choro e antecipar necessidades pertencem à parentalidade, não ao feminino.

Também exige que a mãe consiga ceder espaço. Muitas mulheres cresceram a aprender que ser uma “boa mãe” significa ser indispensável. Quando o pai faz de maneira diferente, pode surgir a vontade de corrigir, controlar ou assumir novamente a tarefa. Mas a competência parental constrói-se através da experiência. Um pai constantemente supervisionado terá menos oportunidades de desenvolver confiança, autonomia e uma relação própria com o filho.

Quando participa desde cedo nos cuidados quotidianos, o pai aprende a reconhecer o bebé, a tolerar o choro, a responder às suas necessidades e a descobrir formas próprias de o confortar. O bebé também vai construindo segurança na relação com diferentes figuras cuidadoras.

Isto protege igualmente a mãe. Reduz a sobrecarga física e mental, permite descanso e preserva partes da sua identidade para além da maternidade. E distribui algo frequentemente invisível: a responsabilidade de pensar, antecipar e organizar a vida familiar.

Incluir o pai também implica aceitar que ele fará algumas coisas de forma diferente. Diferença não significa incompetência. Quando um homem cuida do próprio filho, não está a substituir a mãe nem a fazer-lhe um favor. Está a exercer a parentalidade. E transformar esta ideia em prática quotidiana é político porque questiona, dentro de casa, uma desigualdade que durante gerações foi tratada como natural.

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13/08/2026

🥲

No princípio, somos radicalmente dependentes. Nascemos entregues ao outro porque ainda não sabemos o que fazer com aquil...
12/08/2026

No princípio, somos radicalmente dependentes. Nascemos entregues ao outro porque ainda não sabemos o que fazer com aquilo que sentimos. A fome invade, o frio incomoda, a dor assusta, a tensão cresce sem que o bebé saiba de onde vem ou quando terminará. Ele ainda não sabe que a angústia passa. Apenas sabe que, naquele momento, ela existe.

É então que aparece alguém.

Alguém que pega, alimenta, aquece, embala, toca e fala. Alguém que transforma, repetidamente, uma experiência intolerável numa experiência suportável. E é nessa repetição que começa a nascer uma confiança fundamental: aquilo que dói pode acabar. Aquilo que assusta pode ser suportado. O outro pode desaparecer e voltar.

Pouco a pouco, o outro que acalma começa também a existir dentro de nós.

É aqui que começa aquilo a que chamamos segurança psicológica.

Sentirmo-nos seguros implica termos aprendido, num lugar muito profundo, que podemos sentir angústia sem sermos destruídos por ela. Podemos desejar sem receber imediatamente. Esperar sem desesperar. Estar sós sem nos sentirmos abandonados. Ser contrariados sem sentirmos que deixámos de ser amados.

Quando esta segurança interna ficou pouco construída, o presente ganha facilmente a violência do passado. Uma rejeição transforma-se em abandono. Uma crítica toca numa vergonha antiga e torna-se humilhação. Uma distância parece perda. Uma sensação corporal transforma-se em ameaça. O acontecimento pode ser pequeno, mas aquilo que desperta dentro da pessoa é enorme.

A maturidade psicológica não elimina a ansiedade, a raiva, a tristeza, o ciúme, o medo ou o desejo. Dá-nos maior capacidade para receber aquilo que sentimos, dar-lhe um lugar dentro de nós e pensá-lo, sem precisarmos imediatamente de fugir, atacar, controlar ou anestesiar. E alguma coisa do nosso desamparo inicial permanece para sempre: continuamos a precisar dos outros, vulneráveis ao amor, à ausência e à perda.

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Há qualquer coisa de profundamente político na forma como uma mulher aprende a olhar para o próprio corpo. Ninguém nasce...
09/08/2026

Há qualquer coisa de profundamente político na forma como uma mulher aprende a olhar para o próprio corpo. Ninguém nasce a odiar as coxas, a barriga, as rugas, os pelos, a celulite ou o envelhecimento. Esse olhar é aprendido. E aprende-se cedo.

Aprendemos que o corpo feminino está permanentemente em avaliação. Há sempre qualquer coisa para corrigir, reduzir, aumentar, preencher, alisar, esconder ou rejuvenescer. A insatisfação torna-se particularmente lucrativa quando conseguimos convencer alguém de que o seu corpo é um projeto eternamente inacabado.

E isto vai muito além da estética. Quando uma mulher passa uma parte significativa da sua vida mental a vigiar o corpo, sobra menos disponibilidade psíquica para outras coisas. Há energia investida em comparar, controlar, antecipar o olhar dos outros, calcular calorias, esconder partes do corpo, procurar tratamentos, fotografar-se no ângulo certo ou sentir culpa por envelhecer.

O problema agrava-se porque transformámos exigências sociais em fracassos individuais. A mulher já não pensa apenas “existe um ideal de beleza impossível”. Pensa “eu devia conseguir aproximar-me dele”. E, quando não consegue, aparece a vergonha.

Claro que querer emagrecer, fazer exercício, maquilhar-se, realizar procedimentos estéticos ou cuidar da aparência não significa automaticamente submissão. Seria infantil retirar às mulheres a capacidade de desejar genuinamente essas coisas. A questão interessante está noutro lugar: quanto desse desejo nasceu verdadeiramente em mim e quanto foi construído pelo medo de deixar de ser desejável?

Liberdade também implica conseguir interrogar os próprios desejos.

Porque uma sociedade não precisa de obrigar explicitamente uma mulher a ocupar menos espaço quando consegue ensiná-la a fazê-lo sozinha, diante do espelho, todos os dias. E talvez uma das formas mais silenciosas de emancipação seja recuperar o corpo como lugar onde se vive, sente, deseja, cria e envelhece, em vez de o experimentar permanentemente como objeto que precisa de aprovação.

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Há pessoas que vivem como se cada erro fosse uma ameaça à própria identidade. Não pensam simplesmente “fiz mal”, sentem ...
07/08/2026

Há pessoas que vivem como se cada erro fosse uma ameaça à própria identidade. Não pensam simplesmente “fiz mal”, sentem “há qualquer coisa de errado comigo”. E quando o erro deixa de pertencer ao campo do comportamento e invade o campo do valor pessoal, falhar torna-se insuportável.

É aqui que nasce muito do perfeccionismo. Por baixo da exigência excessiva existe, frequentemente, uma relação frágil com a falha, com a culpa e com a possibilidade de desiludir o outro. A pessoa tenta antecipar tudo, controlar tudo, fazer tudo certo, porque acredita, mesmo sem o formular conscientemente, que o vínculo depende disso.

Mas crescer psicologicamente implica descobrir uma coisa muito mais difícil: podemos falhar e continuar inteiros. Podemos magoar alguém e responsabilizarmo-nos. Podemos desiludir e continuar a ser amados. Podemos reconhecer a nossa agressividade sem concluir que somos maus. Podemos estragar alguma coisa e tentar reconstruí-la.

É precisamente essa experiência que permite uma relação mais madura connosco e com os outros.

Uma criança não precisa de crescer num mundo sem falhas. Precisa de viver relações suficientemente seguras para descobrir que as falhas podem ser reconhecidas e reparadas. Que depois da zanga pode existir reencontro. Que depois da ausência pode haver regresso. Que um pedido de desculpa não apaga aquilo que aconteceu, mas pode restaurar confiança quando é acompanhado por mudança.

Na vida adulta acontece o mesmo.

A saúde psíquica exige tolerância à imperfeição porque qualquer relação verdadeira contém desencontros. Amar alguém implica, inevitavelmente, frustrá-lo em determinados momentos. E ser amado implica sobreviver à descoberta de que o outro também falha.

A maturidade começa precisamente aqui: quando deixamos de gastar tanta energia a tentar nunca partir nada e desenvolvemos confiança suficiente para saber que, quando alguma coisa se parte, podemos aproximar-nos, reconhecer o dano, suportar a culpa e participar na reparação.

Porque uma vida sem falhas é impossível. Uma vida onde existe reparação, essa sim, pode tornar-se profundamente segura.

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