24/09/2026
A culpa pode ser dolorosa.
Mas, muitas vezes, é também uma forma de nos protegermos de algo ainda mais difícil de suportar: a impotência.
Se fui eu que fiz?
Se tivesse escolhido diferente?
Se tivesse percebido antes?
Se tivesse dito outra coisa?
Se tivesse feito mais?
A culpa cria, assim, uma espécie de ilusão de controlo: se fui responsável pelo que aconteceu, talvez pudesse ter feito diferente. Mantém viva a fantasia de que temos sempre o poder de mudar o rumo das coisas.
E, enquanto permanecemos presos à pergunta “o que é que eu fiz de errado?”, podemos evitar outra, muito mais difícil: “E se, apesar de tudo o que fiz ou deixei de fazer, isto simplesmente não estivesse nas minhas mãos?”. Essa pergunta obriga-nos a encarar aquilo que custa aceitar: os limites do nosso poder, a imprevisibilidade do outro, a perda, o acaso, a separação.
Não é que toda a culpa seja ilusão. Há culpa que aponta para algo real: um erro, um dano, uma falha que merece ser reconhecida e, se possível, reparada.
Há uma diferença entre assumir responsabilidade e acreditar que somos responsáveis por tudo.
Deixar de precisar de nos culpar não é deixar de reconhecer a nossa parte. Significa aceitar que nem tudo dependeu de nós.
Não é simples. E talvez seja uma das formas mais difíceis, e mais humanas, de fazer o luto da fantasia de controlo.