03/06/2026
Caras e caros amig@s,
Escrevo-vos para fazer um ponto de situação sobre o caso da Nasira H. e da sua família, e para vos agradecer, uma vez mais, a confiança, o apoio e a generosidade que demonstraram ao longo destes últimos meses.
Antes de mais, quero tranquilizar todos os que contribuíram para esta causa: os fundos angariados através da campanha permanecem salvaguardados pela JRS Portugal, que se comprometeu desde o início a guardar e gerir estes recursos para que fossem utilizados exclusivamente em benefício da Nasira e da sua família. Esse compromisso mantém-se integralmente.
Embora tudo indique que o destino final da família possa já não ser Portugal, o dinheiro continua disponível para apoiar a sua transferência para um país seguro ou, se necessário, para apoiar a família enquanto permanece no Irão. As vossas doações não foram em vão. Continuam a representar uma possibilidade concreta de esperança para esta família.
Importa também explicar uma questão que muitos de vós me colocaram ao longo deste processo.
O objetivo inicial da campanha era atingir os 100.000 euros, valor que nos foi indicado pela JRS Portugal como necessário para assegurar a receção, instalação e acompanhamento da família durante um período aproximado de 12 meses, até à sua progressiva autonomização em Portugal.
Embora não tenhamos alcançado esse objetivo, a campanha conseguiu angariar um total de 21.610 euros. Após as taxas da plataforma, no valor de 794,06 euros, foram transferidos para a JRS Portugal 20.495 euros, montante que permanece reservado para apoiar a Nasira e a sua família.
Mais importante ainda, entretanto surgiu uma oportunidade extraordinária. Conseguimos o interesse e disponibilidade de uma associação norte-americana que se mostrou disposta a mobilizar os seus próprios doadores internacionais para cobrir o valor remanescente necessário à instalação da família.
Na prática, isto significava que a totalidade dos recursos financeiros necessários poderia ser assegurada através da sociedade civil e de entidades parceiras, sem qualquer encargo para o Estado português.
Foi talvez um dos aspetos mais extraordinários de todo este processo: cidadãos comuns, associações, empresas e doadores de vários países conseguiram reunir condições para oferecer uma solução concreta, sustentável e humanamente digna para esta família.
Durante muitos meses trabalhámos num processo que considero um verdadeiro milagre humanitário. Conseguimos reunir tudo aquilo que nos foi solicitado pelas autoridades portuguesas (AIMA). Obtivemos apoios privados, garantias financeiras, disponibilidade para acolhimento e integração, documentação completa e uma rede de apoio preparada para receber a família. Fizemos exatamente aquilo que nos foi pedido.
Depois de um trabalho enorme, desenvolvido ao longo de muitos meses, recebemos no início de dezembro uma resposta que, na prática, inviabilizou a possibilidade de a Nasira e a sua família serem acolhidas em Portugal.
Desde então, tenho tentado, por todos os meios ao meu alcance, reverter essa decisão.
Enviei sucessivas cartas e mensagens ao Presidente da República, ao Primeiro-Ministro, a ministros, à Presidência do Conselho de Ministros, à AIMA, ao respetivo presidente e vogais, bem como a candidatos à Presidência da República e outras entidades com responsabilidade institucional.
Nenhuma destas iniciativas produziu qualquer resultado concreto.
Não recebi respostas que permitissem encontrar uma solução. Não vi abertura para reconsiderar um caso que, do meu ponto de vista, reunia condições excecionais para uma resposta humanitária positiva.
Confesso-vos que esta realidade me deixou profundamente desiludida.
Não apenas pelo caso da Nasira, mas porque senti que tínhamos conseguido construir uma solução rara: uma operação humanitária sem encargos para o Estado, sustentada por uma mobilização da sociedade civil, por empresas disponíveis para ajudar e por cidadãos que acreditaram que era possível fazer a diferença.
Apesar disso, recuso-me a desistir.
Nos últimos meses tenho procurado alternativas noutros países europeus, particularmente em Espanha, onde existem historicamente mais mecanismos de acolhimento e proteção para pessoas refugiadas.
Foram enviados diversos contactos e pedidos ao Ministério do Interior espanhol, bem como à Embaixada de Espanha em Teerão. Infelizmente, a guerra e a instabilidade regional levaram ao encerramento temporário da embaixada, que continua a funcionar apenas com serviços muito limitados, atrasando ou inviabilizando muitos processos.
Continuo a insistir.
Continuo a escrever.
Continuo a procurar portas que possam abrir-se.
Mais recentemente, comecei também a explorar outras possibilidades, incluindo a Austrália, embora reconheça que os processos possam ser mais difíceis e demorados.
Entretanto, a situação da Nasira e da sua família continua extremamente difícil.
Os anos de exílio, a insegurança constante, a ameaça de deportação, a guerra, a pobreza e, mais recentemente, a destruição das expectativas que tinham depositado neste processo tiveram um impacto profundo na saúde mental de todos.
Desde que fugiram dos Talibãs, vivem numa espécie de limbo. Não podem regressar ao Afeganistão. Não conseguem construir uma vida estável no Irão. Não conseguem avançar para um país seguro. Vivem suspensos entre o medo e a esperança.
Tenho mantido contacto regular com a Nasira. Escrevo-lhe todas as semanas. Muitas vezes duas ou três vezes por semana, quando o desespero do outro lado se torna demasiado pesado.
Faço-o porque sei que, por vezes, uma mensagem é a única coisa que impede alguém de perder completamente a esperança.
Continuo a acreditar que existe uma pequena possibilidade de sucesso.
Pequena, mas real.
O meu objetivo continua a ser exatamente o mesmo que tinha no primeiro dia: ajudar esta família a encontrar um lugar onde possa viver sem medo, com dignidade e com futuro.
Quero também informar-vos que não será necessário realizar novas doações para esta causa.
Os fundos atualmente existentes, guardados pela JRS Portugal são suficientes para apoiar a Nasira e a sua família numa eventual transferência para um país seguro ou para responder às necessidades mais urgentes que possam surgir enquanto permanecem no Irão.
Por essa razão, a página de crowdfunding será encerrada.
Caso existam desenvolvimentos relevantes sobre o processo da família, procurarei manter-vos informados através dos canais habituais.
Se algum de vós tiver contactos relevantes em Portugal, Espanha, Austrália ou noutro país que possam contribuir para desbloquear esta situação, peço-vos que entrem em contacto comigo.
Toda a ajuda pode fazer a diferença.
E se alguém desejar escrever uma mensagem de apoio à Nasira, também a poderei encaminhar. Tenho a certeza de que ela apreciará profundamente saber que existem pessoas que continuam a pensar nela e na sua família.
Se alguém desejar contactar-me diretamente, partilhar contactos úteis, sugerir possíveis soluções ou simplesmente saber mais sobre a situação da Nasira e da sua família, poderá fazê-lo através do meu email [email protected] ou das minhas redes sociais.
Obrigada por não terem ficado indiferentes.
Obrigada por terem acreditado que a vida de uma família afegã também importa.
E obrigada por continuarem desse lado.
Com gratidão,
Marta Crawford
Um apelo à solidariedade portuguesa ❤️ Vivemos tempos dif… Marta Crawford needs your support for Urgente! Ajudem a salvar Nasira e a Sua Família dos Talibãs