20/03/2026
Há momentos em que o debate deixa de ser apenas político e passa a ser clínico, ético e humano. Os 3 Projetos de Lei apresentados e aprovados por Chega, CDS-PP e PSD sobre identidade de género, intersexualidade, bloqueadores pubertários, terapêuticas hormonais afirmativas de género e processos de mudança de s**o no Registo Civil são profundamente ideológicos. O que está em causa é se estamos dispostos a legislar contra a evidência científica e contra princípios jurídicos fundamentais. A Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica - por iniciativa própria! - foi muito clara ao afirmar que estas propostas assentam em pressupostos que contradizem o consenso clínico internacional e que, mais do que um recuo administrativo, representam um risco direto para a saúde mental e até para a sobrevivência de uma população vulnerável. Isto obriga-nos a recentrar a discussão: identidade de género não é uma opinião nem uma ideologia, é uma realidade reconhecida pela medicina, pela psicologia e pela própria classificação internacional de doenças atualmente de uma forma não patologizante, e ignorar isso é negar conhecimento científico e experiência clínica consolidados. Quando se invoca o risco de sofrimento psicológico e o risco de arrependimentos como argumentos contra cuidados afirmativos, está-se a inverter a relação causal, porque a evidência é consistente ao mostrar que esse sofrimento resulta sobretudo do estigma, da discriminação e das barreiras impostas, e não da identidade em si. Mais ainda, sabemos que o acesso a cuidados afirmativos está associado a reduções muito significativas de depressão, ansiedade, comportamentos auto-lesivos e ideação suicida, pelo que restringir esses cuidados não é neutro, é agravar um problema de saúde pública. No caso concreto dos jovens, proibir bloqueadores pubertários para todos significa obrigar a pequena proporção que atualmente teria acesso a atravessar uma puberdade que vive como profundamente dissonante e muitas vezes traumática, com alterações irreversíveis que aumentam o sofrimento e que mais tarde exigem intervenções mais invasivas.