27/08/2026
SAÚDE (DO) PÚBLICA(O) (81) — QUARTA DE ONZE PARTES:
A pergunta que faltava: Ramazzini e o nascimento de uma Ciência
🎯 Tema do artigo: chegámos ao homem a quem se chama, com justiça, o pai da Medicina do Trabalho. No ano de 1700, um médico italiano de Módena fez aquilo que ninguém antes tinha ousado: reuniu num único Tratado as doenças de dezenas de ofícios e acrescentou ao exame clínico uma pergunta simples e revolucionária. Hoje conto aos leitores quem foi Bernardino Ramazzini — e mostro como, quase ao mesmo tempo, um médico português pensava a saúde dos povos com o mesmo espírito.
📖 Um Tratado que tardava
Bernardino Ramazzini (1633-1714), professor em Módena e depois em Pádua, publicou em 1700 o “De Morbis Artificum Diatriba” — o «Tratado das Doenças dos Trabalhadores» —, ampliado em 1713 numa segunda edição.
É, por consenso, a obra fundadora da disciplina, da qual faço profissão há 3 décadas (ainda que, chegado a esta fase da minha vida e carreira constate que alguns - que são demais – acham que 2 leituras na internet, e uma autoridade em nome do Estado, os fazem tão especialistas quanto os que estudaram e trabalharam para o ser – quando na verdade acabam por ser não mais que um mau exemplo de gestores públicos, que infelizmente parecem proliferar na administração pública, e também na açoriana).
Antes dele, a observação das doenças do trabalho existia em fragmentos: Hipócrates vira o cólico do chumbo, Agricola descrevera os mineiros, Paracelso os fundidores.
Ramazzini fez algo de diferente e decisivo: sistematizou.
Percorreu mais de 50 ofícios — mineiros e douradores, oleiros e vidreiros, pintores e ferreiros, padeiros e moleiros, escrivães e coveiros, parteiras e lavadeiras — e descreveu, um a um, os males próprios de cada um.
Pela primeira vez, as doenças dos ofícios deixaram de ser curiosidades dispersas para se tornarem um corpo de saber organizado.
🔎 A pergunta que ainda hoje fazemos
O maior legado de Ramazzini, porém, não é uma lista de doenças — é um método.
Ensinou que o médico não devia esperar pelo doente no conforto do seu consultório: devia ir à oficina, ver o artesão no seu posto, no meio do pó, do fumo e do ruído.
E, sobretudo, acrescentou ao célebre interrogatório de Hipócrates uma pergunta que estava em falta, há dois mil anos:
«Qual é a sua profissão?»
Hipócrates mandara perguntar tudo sobre o doente; Ramazzini juntou o essencial que faltava — o ofício.
Esta pergunta continua, hoje, no coração de todos os exames de Medicina do Trabalho.
Quando um médico do trabalho pergunta a um trabalhador o que faz, a que está exposto, há quanto tempo, está a repetir, sem dar por isso, o gesto de um professor de Módena de há mais de 3 séculos.
🪦 O olhar que não desprezava ninguém
Há uma passagem do seu Tratado que o retrata por inteiro. Ramazzini conta que observou um homem a esvaziar uma fossa com pressa, aflito, e ao perguntar-lhe a razão de tanta agitação, ouviu que quem ali demorasse demasiado tempo acabava cego — os gases venenosos das cloacas.
Foi este e outros encontros com os ofícios mais humildes e desprezados que o moveram.
Nisto residiu a sua grandeza moral: interessou-se pelas doenças de quem ninguém queria saber.
E o seu olhar era, além do mais, o de um verdadeiro epidemiologista antes do tempo — foi dos primeiros a notar que as freiras adoeciam mais de certos cancros, associando doença e modo de vida com uma agudeza que só séculos depois se explicaria.
Ver, comparar, relacionar: é disto que a ciência é feita.
💡 Portugal: Ribeiro Sanches e a saúde dos povos
E entre nós, neste tempo?
Portugal deu à mesma época uma das suas figuras maiores das Luzes: António Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783), médico de ascendência judaica, exilado, tão respeitado na Europa que Diderot lhe pediu textos para a “Encyclopédie”.
No seu “Tratado da Conservação da Saúde dos Povos” (Paris, 1756), publicado no rescaldo do Terramoto de 1755, defendeu uma verdadeira «medicina política»:
a prevenção como primeiro degrau da terapêutica e o Estado como responsável pela higiene do corpo colectivo — dos hospitais aos quartéis, das prisões às escolas.
É um pensamento irmão do de Ramazzini, e antecipa em quase dois séculos a ideia de que proteger a saúde é dever público.
Há, porém, uma lição amarga: o Tratado teve escassa repercussão na sociedade portuguesa do seu tempo.
Como tantas vezes na História, o saber chegou antes da vontade de o aplicar.
🏁 Um saber pronto — à espera do seu maior teste
Que balanço podemos fazer?
No dealbar do século XVIII, a Medicina do Trabalho já tinha, em rigor, tudo o que precisava para existir: um método, uma pergunta fundadora, um Tratado sistemático e a convicção de que a prevenção é um dever.
Ramazzini dera-lhe corpo; Ribeiro Sanches dera-lhe uma dimensão de Estado.
Faltava, no entanto, o mais difícil — que a sociedade agisse em consonância.
E o teste que aí vinha seria brutal: poucas décadas depois, a Revolução Industrial multiplicaria os riscos numa escala que nem Ramazzini poderia imaginar, atirando para as fábricas e para as minas multidões de homens, mulheres e crianças.
O saber estava pronto.
A questão era se o mundo estaria à altura dele. É essa a história da minha próxima crónica.
Mario Freitas é médico consultor e Coordenador Regional de Saúde Pública da Região Autónoma dos Açores.
É Presidente do Júri Nacional da especialidade de Medicina do Trabalho da Ordem dos Médicos e Presidente da Direcção da ANaMeT.
Escreve neste espaço, a título pessoal, sobre temas de Saúde Pública.
© Diário dos Açores · Rubrica «Saúde (do) Pública(o)» · Agosto de 2026