Medicina do Trabalho

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27/08/2026

SAÚDE (DO) PÚBLICA(O) (81) — QUARTA DE ONZE PARTES:

A pergunta que faltava: Ramazzini e o nascimento de uma Ciência

🎯 Tema do artigo: chegámos ao homem a quem se chama, com justiça, o pai da Medicina do Trabalho. No ano de 1700, um médico italiano de Módena fez aquilo que ninguém antes tinha ousado: reuniu num único Tratado as doenças de dezenas de ofícios e acrescentou ao exame clínico uma pergunta simples e revolucionária. Hoje conto aos leitores quem foi Bernardino Ramazzini — e mostro como, quase ao mesmo tempo, um médico português pensava a saúde dos povos com o mesmo espírito.

📖 Um Tratado que tardava

Bernardino Ramazzini (1633-1714), professor em Módena e depois em Pádua, publicou em 1700 o “De Morbis Artificum Diatriba” — o «Tratado das Doenças dos Trabalhadores» —, ampliado em 1713 numa segunda edição.

É, por consenso, a obra fundadora da disciplina, da qual faço profissão há 3 décadas (ainda que, chegado a esta fase da minha vida e carreira constate que alguns - que são demais – acham que 2 leituras na internet, e uma autoridade em nome do Estado, os fazem tão especialistas quanto os que estudaram e trabalharam para o ser – quando na verdade acabam por ser não mais que um mau exemplo de gestores públicos, que infelizmente parecem proliferar na administração pública, e também na açoriana).

Antes dele, a observação das doenças do trabalho existia em fragmentos: Hipócrates vira o cólico do chumbo, Agricola descrevera os mineiros, Paracelso os fundidores.

Ramazzini fez algo de diferente e decisivo: sistematizou.

Percorreu mais de 50 ofícios — mineiros e douradores, oleiros e vidreiros, pintores e ferreiros, padeiros e moleiros, escrivães e coveiros, parteiras e lavadeiras — e descreveu, um a um, os males próprios de cada um.

Pela primeira vez, as doenças dos ofícios deixaram de ser curiosidades dispersas para se tornarem um corpo de saber organizado.

🔎 A pergunta que ainda hoje fazemos

O maior legado de Ramazzini, porém, não é uma lista de doenças — é um método.

Ensinou que o médico não devia esperar pelo doente no conforto do seu consultório: devia ir à oficina, ver o artesão no seu posto, no meio do pó, do fumo e do ruído.

E, sobretudo, acrescentou ao célebre interrogatório de Hipócrates uma pergunta que estava em falta, há dois mil anos:

«Qual é a sua profissão?»

Hipócrates mandara perguntar tudo sobre o doente; Ramazzini juntou o essencial que faltava — o ofício.

Esta pergunta continua, hoje, no coração de todos os exames de Medicina do Trabalho.

Quando um médico do trabalho pergunta a um trabalhador o que faz, a que está exposto, há quanto tempo, está a repetir, sem dar por isso, o gesto de um professor de Módena de há mais de 3 séculos.

🪦 O olhar que não desprezava ninguém

Há uma passagem do seu Tratado que o retrata por inteiro. Ramazzini conta que observou um homem a esvaziar uma fossa com pressa, aflito, e ao perguntar-lhe a razão de tanta agitação, ouviu que quem ali demorasse demasiado tempo acabava cego — os gases venenosos das cloacas.

Foi este e outros encontros com os ofícios mais humildes e desprezados que o moveram.

Nisto residiu a sua grandeza moral: interessou-se pelas doenças de quem ninguém queria saber.

E o seu olhar era, além do mais, o de um verdadeiro epidemiologista antes do tempo — foi dos primeiros a notar que as freiras adoeciam mais de certos cancros, associando doença e modo de vida com uma agudeza que só séculos depois se explicaria.

Ver, comparar, relacionar: é disto que a ciência é feita.

💡 Portugal: Ribeiro Sanches e a saúde dos povos

E entre nós, neste tempo?

Portugal deu à mesma época uma das suas figuras maiores das Luzes: António Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783), médico de ascendência judaica, exilado, tão respeitado na Europa que Diderot lhe pediu textos para a “Encyclopédie”.

No seu “Tratado da Conservação da Saúde dos Povos” (Paris, 1756), publicado no rescaldo do Terramoto de 1755, defendeu uma verdadeira «medicina política»:

a prevenção como primeiro degrau da terapêutica e o Estado como responsável pela higiene do corpo colectivo — dos hospitais aos quartéis, das prisões às escolas.

É um pensamento irmão do de Ramazzini, e antecipa em quase dois séculos a ideia de que proteger a saúde é dever público.

Há, porém, uma lição amarga: o Tratado teve escassa repercussão na sociedade portuguesa do seu tempo.

Como tantas vezes na História, o saber chegou antes da vontade de o aplicar.

🏁 Um saber pronto — à espera do seu maior teste

Que balanço podemos fazer?

No dealbar do século XVIII, a Medicina do Trabalho já tinha, em rigor, tudo o que precisava para existir: um método, uma pergunta fundadora, um Tratado sistemático e a convicção de que a prevenção é um dever.

Ramazzini dera-lhe corpo; Ribeiro Sanches dera-lhe uma dimensão de Estado.

Faltava, no entanto, o mais difícil — que a sociedade agisse em consonância.

E o teste que aí vinha seria brutal: poucas décadas depois, a Revolução Industrial multiplicaria os riscos numa escala que nem Ramazzini poderia imaginar, atirando para as fábricas e para as minas multidões de homens, mulheres e crianças.

O saber estava pronto.

A questão era se o mundo estaria à altura dele. É essa a história da minha próxima crónica.

Mario Freitas é médico consultor e Coordenador Regional de Saúde Pública da Região Autónoma dos Açores.
É Presidente do Júri Nacional da especialidade de Medicina do Trabalho da Ordem dos Médicos e Presidente da Direcção da ANaMeT.
Escreve neste espaço, a título pessoal, sobre temas de Saúde Pública.

© Diário dos Açores · Rubrica «Saúde (do) Pública(o)» · Agosto de 2026

19/08/2026

SAÚDE (DO) PÚBLICA(O) (80) — TERCEIRA DE ONZE PARTES:

O Renascimento desce às minas

🎯 Tema do artigo: depois de a Idade Média ter dignificado o trabalho, faltava dar à Medicina a coragem de o observar. Foi o que fez o Renascimento.

Neste artigo conto como dois homens — um médico-alquimista e um médico-mineralogista — desceram ao fundo das minas para descrever as doenças de quem lá trabalhava. E como, ao mesmo tempo, os portugueses levaram o olhar médico para o outro lado do mundo.

👁️. Voltar a ver com os próprios olhos

O Renascimento é, antes de mais, uma revolução do olhar.

Cansados de repetir os antigos, os sábios voltam a observar directamente a Natureza e o corpo humano — Vesálio publica, em 1543, a sua monumental Anatomia, feita de dissecação e não de autoridade, e a imprensa de Gutenberg espalha o saber a uma velocidade nunca antes vista.

No mundo do trabalho, a técnica também acelera: as minas da Europa Central descem a profundidades inéditas em busca de prata e cobre, a metalurgia sofistica-se, e com elas multiplicam-se os perigos.

Era só uma questão de tempo até que alguém aplicasse o novo espírito de observação àquilo que acontecia ao corpo dos mineiros.

⛏️ Agricola e o primeiro retrato das doenças das minas

O primeiro foi Georgius Agricola (1494-1555), médico alemão, chamado o pai da mineralogia.

Na sua obra “De re metallica” (1556, publicada após a sua morte), descreveu com rigor as máquinas, as técnicas e a organização das minas — mas também, os acidentes e as doenças de quem nelas trabalhava.

Falou da «asma dos mineiros» que hoje reconhecemos como silicose, das quedas, dos afogamentos, dos gases mortíferos.

E foi mais longe: propôs soluções — ventilação das galerias, escoamento das águas, protecção dos trabalhadores. Pela primeira vez, alguém não se limitava a lamentar o risco: descrevia-o, para o combater.

⚗️ Paracelso e a intuição que funda a toxicologia

O segundo é uma das figuras mais fascinantes da História da Medicina: Paracelso (1493-1541), suíço, alquimista.

Tendo ele próprio trabalhado em minas e fundições no Tirol, escreveu o primeiro tratado inteiramente dedicado às doenças dos mineiros e fundidores — “Sobre a tísica dos mineiros e outras doenças das montanhas”.

Mas o seu maior legado é uma frase que ainda hoje sustenta toda a toxicologia e toda a Medicina do Trabalho: «só a dose faz o veneno».

Nada é, em si, inócuo ou fatal — tudo depende de quanto, quão intensamente e durante quanto tempo se está exposto.

É a semente da ideia moderna de limite de exposição, o princípio que orienta, 5 séculos depois, a vigilância que fazemos todos os dias.

🧭 Portugal: Garcia de Orta e as doenças do mar

E os portugueses…? Estavam, literalmente, a aumentar o mundo — e com ele, o olhar médico.

Em Goa, o médico português Garcia de Orta publicou (em 1563) os “Colóquios dos Simples e Dr**as da Índia”, obra fundadora da farmacologia e da medicina tropical, escrita a partir da observação directa e não dos livros antigos — um dos primeiros textos científicos impressos no Oriente.

Ao mesmo tempo, os Descobrimentos criavam uma nova e terrível patologia do trabalho: o escorbuto, que dizimava as tripulações das naus da Carreira da Índia ao longo de meses de mar, e as condições brutais a bordo, verdadeiro laboratório de uma medicina naval nascente. Portugal levava a ciência da observação aos confins do planeta.

🏁 Mas, faltava ainda juntar tudo isto num sistema…

Que balanço podemos fazer do Renascimento?

Foi imenso o avanço: a observação directa substituiu a repetição dos antigos, as doenças das minas ganharam um retrato e a toxicologia ganhou o seu princípio fundador.

Mas, faltava ainda um passo decisivo.

Agricola olhara sobretudo para os mineiros;
Paracelso, para os mineiros e fundidores.

Ninguém tinha ainda tido a ambição de olhar para “todos” os ofícios — o oleiro e o pintor, o padeiro e o coveiro, o escrivão e a parteira — e de os reunir num único Tratado sistemático.

Este gesto genial, que transformaria observações dispersas numa verdadeira disciplina, seria dado no ano de 1700 por um médico italiano, de Modena. Chamava-se Bernardino Ramazzini, e é dele — do homem a quem chamamos o pai da Medicina do Trabalho — que falarei na próxima crónica.

****Mario Freitastas é médico consultor e Coordenador Regional de Saúde Pública da Região Autónoma dos Açores. É Presidente do Júri Nacional da especialidade de Medicina do Trabalho da Ordem dos Médicos e Presidente da Direcção da ANaMeT. Escreve neste espaço, a título pessoal, sobre temas de Saúde Pública.
© Diário dos Açores · Rubrica «Saúde (do) Pública(o)» · Agosto de 20Medicina do Trabalholho

Para que os líderes cuidem das suas equipas.
18/08/2026

Para que os líderes cuidem das suas equipas.

Pedimos aos líderes que cuidem das suas equipas, mas quase nunca lhes ensinámos como. Espera-se que reconheçam o esgotamento antes da baixa, que criem ambientes saudáveis, que equilibrem resultados e pessoas — tudo isto sem nunca terem tido uma única formação sobre o assunto. E depois chama...

12/08/2026

SAÚDE (DO) PÚBLICA(O) (79) — SEGUNDA DE ONZE PARTES:

Mosteiros, corporações e a invenção da dignidade do trabalho

🎯 Tema do artigo: na crónica anterior, a Antiguidade deixou-nos com um paradoxo — sabia ver a doença do trabalho, mas não sentia o dever de proteger quem trabalhava. Hoje mostro como a Idade Média começou a resolver este paradoxo, não através da Ciência, mas através da Consciência: foi preciso, primeiro, que o trabalho manual deixasse de ser desprezado e passasse a ser digno. Esta revolução silenciosa nasceu nos claustros e cresceu nas corporações de ofícios.

⛪ A grande viragem: quando trabalhar passou a santificar

A mudança mais importante deste período não é técnica — é moral, e devemo-la ao Cristianismo.

Onde a Grécia e Roma viam no trabalho das mãos uma tarefa servil, a nova Fé viu algo radicalmente diferente.

A Regra de São Bento (séc. VI), que moldou o monaquismo ocidental, condensou-se numa fórmula que se tornou célebre — “ora et labora”, «reza e trabalha» — e prescreveu o trabalho manual como caminho de disciplina e de santificação, a par da oração.

Pela primeira vez, uma grande cosmovisão colocou o trabalho, não abaixo da vida virtuosa, mas dentro dela.

Os mosteiros tornaram-se centros de agricultura, de ofícios e de cópia do saber, e o monge que lavrava a terra fazia-o com a mesma dignidade com que rezava. É uma inversão de valores cujo alcance civilizacional é difícil de medir: sem trabalhador digno nunca haveria trabalhador protegido.

🛠️ As corporações e a primeira solidariedade organizada

A partir dos séculos XI e XII, a vida urbana renasce e com ela nascem as corporações de ofícios — associações de mestres, oficiais e aprendizes que regulavam a formação, a qualidade e o preço do trabalho. Mas, para a nossa história, o essencial está noutro lado.

Muitas destas corporações, e as confrarias religiosas a elas ligadas, criaram caixas de auxílio mútuo: fundos que socorriam o membro doente, o inválido, a viúva e o órfão, e pagavam o funeral do companheiro.

É o embrião longínquo da mutualidade e da segurança social — a primeira vez que uma comunidade de trabalho assumiu, de forma organizada, que proteger os seus era um dever colectivo. Cada ofício tinha o seu santo padroeiro, e a fronteira entre o profissional, o social e o religioso era, então, inexistente.

⛏️ A dureza que continuou

Seria falso, porém, pintar um quadro idílico.

A dignidade proclamada convivia com uma realidade dura. A servidão manteve-se durante séculos, e o trabalho nas minas de prata, ferro e cobre da Europa Central era brutal: desabamentos, inundações, ar irrespirável e o «mal da montanha» que hoje reconheceríamos como silicose e intoxicações — tudo sem qualquer prevenção digna desse nome.

A moldura moral já existia; os meios técnicos para agir sobre o risco, esses, ainda não.

Houve, ainda assim, um estranho progresso social vindo da tragédia: quando a Peste Negra (1347-1351) dizimou um terço da Europa, a súbita escassez de braços deu aos sobreviventes um poder negocial inédito — sinal de que o valor do trabalho humano, também economicamente, se tornara impossível de ignorar.

📜 A medicina medieval: guardar o saber antes de o fazer crescer

E a medicina? Neste domínio, a Idade Média foi mais uma guardiã do que inovadora.

Nas universidades que surgem — Salerno, Bolonha, Montpellier, Paris — preserva-se e comenta-se o legado greco-romano, enriquecido pela extraordinária ciência do mundo árabe. O “Cânone” de Avicena (Ibn Sina) tornou-se referência durante séculos e continha já observações sobre os efeitos de certas exposições.

Mas, a sistematização das doenças dos ofícios — o olhar de Hipócrates transformado em método — ficaria à espera. Esta era ainda uma semente adormecida, que só germinaria no Renascimento, quando homens como Paracelso e Agricola descessem, enfim, ao fundo das minas para ver com os seus próprios olhos.

🤲 Portugal: dos mesteres às Misericórdias

Também entre nós esta história tem raízes profundas.

As cidades medievais portuguesas organizavam-se em mesteres — os ofícios —, com as suas confrarias, bandeiras e santos padroeiros; no Porto, a “Casa dos Vinte e Quatro” chegou a dar-lhes voz no governo do município.

Mas, o contributo português mais luminoso vem no limiar da Idade Moderna, quando a tradição caritativa cristã dá frutos institucionais duradouros: o Hospital Real de Todos-os-Santos, mandado erguer por D. João II (1492), que reuniu numa só casa a assistência antes dispersa; e, sobretudo, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, fundada pela Rainha D. Leonor, em 1498 — mãe de todas as Misericórdias que se espalhariam pelo reino e pelo império.

Mais de cinco séculos volvidos, esta rede de solidariedade continua a cuidar de portugueses — uma das mais antigas e resistentes do mundo, e nossa de raiz.

🏁 A herança da Idade Média: a consciência antes da ciência

Que balanço podemos então fazer?

A Idade Média não nos deu tratados sobre doenças profissionais, nem leis de protecção.

Deu-nos algo mais profundo: a convicção de que o trabalho é digno e de que a comunidade tem deveres para com quem o realiza.

Deu-nos a solidariedade das corporações, os hospitais e a assistência caritativa que a Igreja multiplicou. Faltava-lhe a ciência; mas, sobrava-lhe consciência. E foi esta consciência, herdada e depois secularizada, que tornou possível tudo o que se seguiu.

Na próxima crónica, contarei como o Renascimento devolveu à medicina o gosto de observar — e as doenças dos mineiros deixaram, finalmente, de ser invisíveis.

Mário Freitas é médico consultor e Coordenador Regional de Saúde Pública da Região Autónoma dos Açores. É Presidente do Júri Nacional da especialidade de Medicina do Trabalho da Ordem dos Médicos e Presidente da Direcção da ANaMeT. Escreve neste espaço, a título pessoal, sobre temas de Saúde Pública.
© Diário dos Açores · Rubrica «Saúde (do) Pública(o)» · Agosto de 2026

09/08/2026

Quando o trabalho já adoecia (1)

🎯 Tema do artigo: começo hoje uma série de artigos sobre a História da Medicina do Trabalho, das origens mais remotas aos dias de hoje, nestas semanas que antecedem o 1º Congresso Nacional da Associação Nacional de Médicos do Trabalho, que decorrerá no Funchal, nos dias 15 e 16 de Outubro.

E começo pela Antiguidade, onde encontramos uma verdade desconcertante: muito antes de existir a palavra «prevenção», já havia quem reparasse que certos ofícios, trabalhos, matavam.

Faltava aquilo que só milénios depois chegaria: a ideia de que a saúde de quem trabalha é um dever da comunidade.

🏺 Um mundo que trabalhava sem olhar para quem trabalhava

Sejamos claros, porque explica tudo o resto: nas grandes civilizações da Antiguidade o trabalho manual não era um direito — era uma condição.

Quem cavava a mina, fundia o metal ou erguia o templo era, na maioria dos casos, escravo, prisioneiro ou servo.

A filosofia acompanhava a sociedade: os gregos chamavam “banausos”, com desdém, ao trabalho de mãos, e Aristóteles considerava-o incompatível com uma plena cidadania.

Este é o pano de fundo: não havia Medicina do Trabalho porque não havia, ainda, a convicção de que valia a pena proteger o trabalhador.

Porém, o corpo daquela gente falava — e houve quem soubesse escutá-lo.

⚖️ As primeiras regras e os primeiros corpos

Já no Código de Hammurabi (Babilónia, séc. XVIII a.C.) encontramos a origem longínqua de uma ideia que hoje é central: a da responsabilidade por um dano.

O Código fixava honorários e penalizações aos médicos e determinava que o construtor cuja obra desabasse, e matasse, respondia com a própria vida.

Não se trata de reparação de doença profissional, mas é o primeiro reconhecimento de que de um trabalho pode resultar um dano, pelo qual alguém responde.

No Egipto, os papiros médicos, como o de Edwin Smith (séc. XVII a.C.), descrevem com notável rigor fracturas e traumatismos — muitos deles, com toda a probabilidade, acidentes das grandes obras, que ainda hoje admiramos.

🩺 Hipócrates e a primeira doença que vem do trabalho

O salto decisivo é grego. Atribui-se a Hipócrates (séc. V-IV a.C.) a primeira descrição do cólico saturnino — a intoxicação por chumbo — num homem que trabalhava o metal.

Mais importante ainda foi o método que nos legou: o de interrogar o modo de vida do doente, o ambiente, os hábitos.

Faltava-lhe apenas uma pergunta — «qual é a sua profissão?» — que só 2000 anos depois seria formalmente acrescentada.

Mas a intuição já lá estava: a doença tem um contexto, e o trabalho faz parte dele.

🏛️ Roma: o aviso, a máscara e a mina

É em Roma que a observação se acumula.

O arquitecto Vitrúvio (séc. I a.C.), no seu tratado de arquitectura, repara na palidez doentia dos que manuseavam o chumbo e recomenda, por precaução, que a água seja levada em canos de barro e não de chumbo — um dos mais antigos conselhos de saúde pública e ambiental que se conhecem.

Plínio-o-Velho (séc. I d.C.), na sua *História Natural*, descreve trabalhadores das minas que cobrem o rosto com membranas de bexiga de animal, para não respirarem as poeiras — a primeira protecção respiratória documentada da história.

E Galeno deixou testemunho dos vapores sufocantes que assolavam os mineiros. Repare-se: o problema estava identificado, e até havia rudimentos de prevenção. Faltava a vontade colectiva de os generalizar.

⚒️ E em solo português: Vipasca, a mina que teve uma lei própria

Não poderia contar esta história sem Portugal — e a Antiguidade dá-nos um capítulo notável. No Alentejo, junto à actual Aljustrel, existiu Vipasca, importante distrito mineiro romano de cobre e pirite.

Foi ali que se descobriram, em 1876 e em 1906, duas Tábuas de Bronze com a *Lex Metalli Vipascensis* — um dos mais completos regulamentos de administração mineira que a Roma antiga nos legou.

Gravado em latim, regulava a exploração, os impostos, os balneários e a própria vida quotidiana do distrito.

É, à sua maneira, um dos mais antigos «regulamentos» de uma actividade laboral perigosa que se conhece — e foi escrito em actual solo português.

Faltava-lhe, é certo, qualquer preocupação com a saúde de quem descia ao poço; mas a ideia de que um trabalho perigoso deve ser regulado por escrito já ali despontava, há 18 séculos, entre nós.

⛓️ A mina como uma sentença

Mas, é preciso não idealizar.

A face escura desta história tem um nome: “damnati ad metalla” — «condenados às minas».

Ser enviado para as minas de ouro ou de mercúrio do Império era, na prática, uma pena de morte adiada.

A técnica existia; a compaixão organizada, não.

O saturnismo, de resto, terá sido um mal da própria elite romana — o chumbo das canalizações e o acetato de chumbo usado para adoçar o vinho —, e há quem especule (é tese debatida) que terá contribuído para males da classe dirigente.

Se assim foi, houve uma singular ironia histórica: o veneno dos que trabalhavam o metal acabou por chegar à mesa dos que os mandavam trabalhar.

🏁 A herança da Antiguidade: uma intuição à espera de uma consciência

Que balanço podemos fazer?

A Antiguidade deixou-nos o olhar, mas não o dever.

Deixou-nos Hipócrates a ver a doença do ofício, Vitrúvio a aconselhar, Plínio a descrever a máscara — fragmentos brilhantes de observação, dispersos, sem sistema e, sobretudo, sem uma moldura moral que transformasse o “reparar” em “proteger”.

Faltava a convicção de que a vida de quem trabalha tem um valor que obriga toda a comunidade. Essa convicção nasceria noutro lugar e noutro tempo — nos claustros da Idade Média, onde uma nova religião ousou dizer que o trabalho das mãos era digno, e até santo. É por aí que seguirei na próxima crónica.

F**a, para já, a lição mais antiga desta história: muito antes de sabermos proteger, já sabíamos ver. E ver sem agir é, também, uma forma de escolher.

Mario Freitas é médico consultor e Coordenador Regional de Saúde Pública da Região Autónoma dos Açores. É Presidente do Júri Nacional da especialidade de Medicina do Trabalho da Ordem dos Médicos e Presidente da Direcção da ANaMeT. Escreve neste espaço, a título pessoal, sobre temas de Saúde Pública.

© Diário dos Açores · Rubrica «Saúde (do) Pública(o)» · Agosto de 2026

Medicina do Trabalho
Mario Freitas

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14/06/2026

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o I Congresso Nacional da ANaMeT e as I Jornadas de Medicina do Trabalho da RAM acontecem no coração do Atlântico, no Funchal. 🇵🇹

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Mário Freitas: "Uma lei de saúde sem clínica produz papel, não produz proteção"Em entrevista exclusiva ao HealthNews, Ma...
13/06/2026

Mário Freitas: "Uma lei de saúde sem clínica produz papel, não produz proteção"

Em entrevista exclusiva ao HealthNews, Mario Freitas, Presidente da Direção da ANaMeT Associação Nacional dos Médicos de Medicina do Trabalho, alerta para a exclusão dos médicos do trabalho do grupo que redige a primeira Lei Geral da Segurança e Saúde no Trabalho.

Critica a omissão, pede colaboração gratuita e avisa: sem clínica, a lei será “impraticável no terreno”

A entrevista aqui https://healthnews.pt/2026/06/13/mario-freitas-uma-lei-de-saude-sem-clinica-produz-papel-nao-produz-protecao/

Médicos do trabalho exigem participar em discussão sobre lei de saúde no trabalho.«Uma lei de saúde escrita sem médicos ...
10/06/2026

Médicos do trabalho exigem participar em discussão sobre lei de saúde no trabalho.

«Uma lei de saúde escrita sem médicos é uma contradição nos termos.»

«Ninguém aceitaria que se redigisse um regulamento de segurança aérea sem ouvir os
pilotos. Não pedimos este lugar por vaidade: pedimo-lo para os médicos do trabalho, e com
ele oferecemos competência, sem qualquer contrapartida. Pedimos para dar.»

Disse o Dr. Mário Freitas, Presidente da Direção da ANaMeT

https://observador.pt/2026/06/10/medicos-do-trabalho-exigem-participar-em-discussao-sobre-lei-de-saude-no-trabalho/

Médicos do trabalho exigem participar em discussão sobre lei de saúde no trabalho.

«Uma lei de saúde escrita sem médicos é uma contradição nos termos.»

«Ninguém aceitaria que se redigisse um regulamento de segurança aérea sem ouvir os pilotos.

Não pedimos este lugar por vaidade: pedimo-lo para os médicos do trabalho, e com ele oferecemos competência, sem qualquer contrapartida.

Pedimos para dar.»

Disse o Dr. Mário Freitas, Presidente da Direção da ANaMeT

https://observador.pt/2026/06/10/medicos-do-trabalho-exigem-participar-em-discussao-sobre-lei-de-saude-no-trabalho/

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