21/09/2026
Como brincar é importante!
A brincar APRENDE-SE, INVENTA-SE, VIAJA-SE NO ESPAÇO E NO TEMPO, AMA-SE, ODEIA-SE, MATA-SE e MORRE-SE.
Existirá algo mais sério?
A nossa sobrevivência, como seres humanos, está directamente ligada à capacidade de imaginar e de “fazer de conta”. É o que nos permite conceber coisas que não conhecemos, imaginar o passado em que não participamos e projectar-mo-nos no futuro.
Mas, então, quando e como começamos a brincar?
Brincar corresponde a uma actividade que pode ser mais ou menos elaborada e que, aparentemente, não tem outra utilidade e/ou objectivos imediatos que não sejam o prazer e divertimento de quem brinca. É, portanto, vivida sempre de uma forma agradável e nunca como obrigação!
A capacidade e vontade de brincar inicia-se muito cedo no bebé, adquirindo, ao longo do desenvolvimento, uma cada vez maior complexidade.
Na relação apaixonada com a mãe e com o pai encontramos o seu motor.
O adulto imita os sons, balbucios do filho, “fala à bebé”, modificando o seu tom de voz. E o bebé, pouco depois de nascer, responde em sincronia, maravilhado.
Nesta simples brincadeira, em que o prazer é mútuo, ocorrem profundas trocas afectivas que permitem ao bebé (re)conhecer-se no olhar da Mãe.
Uma maior autonomia progressiva, correspondendo a aquisições psicomotoras, permite ao bebé realizar brincadeiras cada vez mais complexas. Na relação com os pais, descobre que pode brincar com o corpo, partes do corpo e objectos.
Por exemplo, os bebés adoram “esconder-se”, escondendo os olhos, enquanto a Mãe diz “o bebé não está cá”, rindo depois a bandeiras despregadas.
E de brincar com sons, o bebé começa a brincar com as palavras…aprendeu a falar brincando.
Por volta dos 2 anos, a criança é capaz de representar cenas complexas com os seus brinquedos. Quem nunca viu um bebé a dar papa ou ralhar com um brinquedo?
Ao brincar realizam-se aprendizagem importantes sobre os objectos, os outros e o próprio, sendo esta actividade fonte de capacidades criativas.
E que mais acontece quando as crianças brincam?
Quando brincam, as crianças podem representar livremente os seus Sonhos Mais Secretos e os Desejos Impossíveis…aparecem Super-Heróis, Dragões, Princesas e, atrevidamente, tornam-se mães, pais, namorados…
Ao representar, podem desempenhar vários papéis identificando-se com os personagens, o que lhes permite conhecê-los, compreendê-los na sua função (brincar aos Pais, aos Professores). Podem encenar os conflitos familiares, colocando-se, num só tempo, de cada lado da contenda e, assim elaborar a angústia que lhe está associada.
Brincam as Preocupações de que Não Conseguem Falar, os Medos Inomináveis e os Sentimentos Mais Terríveis.
Um pequeno de 4 anos pode transformar-se num “Importante Pai”, ralhando com o seu “Insignificante Filho”. Assim, pode exprimir todo o amor e admiração e, sim, também toda a raiva, elaborando e modulando estes sentimentos.
Criando a distância que os brinquedos e a imaginação permitem, a criança representa e manipula sentimentos e fantasias que, de outro modo, seriam intoleráveis, dá sentido e organiza o seu próprio mundo interior.
Por isso, por vezes…muitas vezes, são representadas cenas de crueldade, ou em que há uma manifesta agressividade. Ao colocar “Toda a Zanga e Fúria” num “Guerreiro Implacável”, a criança já não precisa de fugir dela (ou de a negar) nem de a agir na realidade.
João dos Santos dizia “Há as crianças que brincam às guerras e há as crianças e os adultos que as fazem. Brincar às guerras vacina, provavelmente, contra a guerra. Viver a guerra dentro de si, sem a brincar, origina, provavelmente, as pessoas da guerra.”
E quando a criança não brinca?
Uma criança que não brinca está profundamente doente, assaltada por desconfianças e medos poderosos.
Sendo a capacidade de brincar reflexo e motor de todo o desenvolvimento emocional e cognitivo, podemos considerar que o sofrimento psíquico na criança é sempre correspondido por perturbações na forma como brinca (ou não brinca).
Enquanto brincam, as crianças, (re)organizam constantemente suas experiências, aprendendo sobre Si Próprias e sobre “Tudo o que Existe no Mundo”. Preservam a saúde mental através de um diálogo entre o mundo interno em desenvolvimento e as progressivas exigências da realidade.
Mas, para isso, é condição necessária que, ao longo do desenvolvimento tenha havido a constância de uma Presença Benevolente Envolvida nas brincadeiras com a criança, ensinando-lhe a alegria e ajudando-a a lidar com as decepções e as frustrações.
Só a partir da reciprocidade das Relações Primordiais é possível o “Brincar Sozinho” e com Outras Crianças, tornar-se cada vez mais autónomo e criativo.
Quando a vida, mal começa, se enche de ausências e experiências traumáticas, originadoras de angústias não representáveis, temos a aprendizagem de brincar comprometida e, concomitantemente, toda a vida psíquica. Então, a criança não brinca a tristeza nem a agressividade, isto é, não as representa fora de si própria. É ela própria Tristeza, Agressividade, Doença.
Assim acontece com a Joana, de 6 anos que, tendo sido agredida, destrói os brinquedos, em vez de brincar com eles.
O pedro, 7 anos, na sua hiperactividade, foge do brincar, por não poder elaborar ansiedades muito profundas.
A Tersa, 10 anos, menina bem-comportada, com excelentes resultados escolares, estuda mas não brinca. Sente-se triste…
O tratamento psicológico destas crianças é Sempre uma “Terapia do Brincar”.
Por vezes, é necessário começar do Princípio, com jogos muito simples, outras vezes é preciso ajudar na elaboração de uma problemática que se repete incessantemente na brincadeira.
Se “Brincar é, em si próprio, uma terapia” (Winnicott, 1971), quando há uma criança em sofrimento é fundamental alguém que, brincando com ela, lhe forneça meios para elaborar as suas angústias e encontrar soluções para os seus conflitos. Nessa relação, a criança percebe que os seus sentimentos são aceites, que pode representar a sua dor e dar-lhe significado.
Na psicoterapia, o terapeuta, através das brincadeiras que a criança dirige e dos brinquedos que escolhe, torna-se o “espaço mental”, em que “experiências difíceis” são interpretadas e ligadas em Histórias com Significados.
HSL