27/10/2024
“Estamos a viver um tempo sem tempo, um tempo que exige respostas imediatas e em que os momentos de reflexão rareiam. As consequências aparecem na forma de intolerância à frustração e na falta de reconhecimento do outro, males de nossa época. Quem chega até nós está imerso nessa cultura, e o nosso papel, como psicanalistas, é construir com eles a possibilidade de manter a condição humana com uma qualidade de vida que satisfaça. Parece essencial, portanto, compreender o mais profundamente possível os recursos utilizados para expressar afectos. Com menos tempo para a leitura e os museus (templos da arte), ir ao cinema - uma forma de entretenimento atraente e rápida - faz parte do nosso quotidiano e, talvez, esteja moldado para essa função. O cinema, com todo o seu potencial de expressão artística, toca o espectador com imagens e sons de impacto estético. Atualmente, as telas conseguem proporcionar uma gama de recursos que, com os avanços tecnológicos, nos colocam cara a cara com imagens em três dimensões e outros efeitos especiais que às vezes nos confundem, como se fossem imagens reais que podem ser tocadas e sentidas. Nesse sentido, os filmes de Quentin Tarantino merecem atenção especial e, ao aparentemente expressarem o mal-estar contemporâneo, convidam à discussão. Temas como a banalização da violência e das relações pessoais são expostos, mobilizando-nos através do bizarro, extremo e grotesco, gerando um impacto que frequentemente toca o insuportável, fazendo as nossas mentes confundir-se na fronteira entre a realidade e a ficção.”
Ana Cristina Pandolfo, “Reality and fiction - Tarantino´s filmography on the couch”, The International Journal of Psychoanalysis, 2018.
Imagem: Quentin Tarantino, “Pulp Fiction”, 1994, A Band Apart, Miramax, todos os direitos reservados.