26/04/2022
IDEALIZAÇÃO E REALIDADE
No Dia da Mãe podem persistir sentimentos de amargura, ressentimento e tristeza: é demasiado fácil sentir que todas as outras pessoas estão a ter uma experiência melhor, mais “normal”, que todas as outras pessoas estão a ter o tipo de dia que deveríamos estar a ter.
Lucy Blake PhD, no seu blog "Famílias Reais: as relações familiares tal como são, não como poderiam ou deveriam ser", escreveu em Março deste ano sobre a cultura do Dia da Mãe, interrogando-se sobre se esta está, verdadeiramente, a mudar.
Segundo a autora, de muitas maneiras, e apesar de algumas novidades, há ainda muito que permanece inalterado.
Pontos-chave:
》Muitas mães e filhos/as não têm as relações ativas e comprometidas que frequentemente são apresentadas nos media.
》É comum que as relações mãe-filho/a se caracterizem por emoções positivas e negativas.
》Esconder a realidade das relações mãe-filho/a atrás de pressupostos idealizados continua a silenciar aqueles que experienciam relações deste tipo mais desafiantes.
No Dia da Mãe podem persistir sentimentos de amargura, ressentimento e tristeza: é demasiado fácil sentir que todas as outras pessoas estão a ter uma experiência melhor, mais “normal”, que todas as outras pessoas estão a ter o tipo de dia que deveríamos estar a ter.
Apesar de começarem a aparecer, de vez em quando, nos media, alguns tipos de relações mãe-filho/a diferentes das habituais imagens idealizadas, há imagens e mensagens que continuamos a não ver. Por exemplo, é raro vermos representados aqueles cujas mães têm problemas de saúde mental ou física, aqueles cujas mães requerem cuidados; aqueles cujas mães foram abusivas.
Outra experiência que vemos raramente é a do distanciamento físico e emocional. Apesar de a evidência sugerir que esta experiência é comum, afectando 9 por cento das relações, as pessoas que experienciam distanciamento em relação a uma mãe ou filho/a tipicamente sentem-se isoladas nesta sua experiência. Os filhos adultos contam a poucas pessoas as suas experiências e, quando o fazem, são frequentemente alvo de estigmatização, silêncio, e crítica.
Num estudo realizado na América do Norte, sobre as relações de filhos adultos com os seus pais, os autores descobriram que um terço das relações era inativa: os níveis de contacto eram baixos, e havia muito pouca troca de apoio mútuo.
Os restantes 70 por cento de relações eram ativas mas diferiam na sua qualidade. No tipo mais comum de relação ativa, correspondendo a 29 por cento da amostra, existiam níveis elevados de emoções positivas juntamente com níveis elevados de emoções negativas.
O segundo tipo de relação ativa mais comum era aquele em que alguns poderiam pensar como correspondendo ao ideal, no qual a positividade era elevada e a negatividade baixa; estas relações perfaziam 28 por cento da amostra.
Se é verdade que há pais e filhos que gozam de relações uns com os outros que se caracterizam por emoções positivas elevadas e emoções negativas baixas, esta não é a "norma"; é comum as relações entre pais e filhos serem caracterizadas por níveis elevados de emoções positivas juntamente com níveis elevados de emoções negativas.
O Dia da Mãe ainda é um dia em que os pressupostos idealizados predominam: não há amor tão forte como o amor de uma mãe pelo seu filho; a maternidade é um papel e uma identidade sem comparação com nenhum outro, e intocável.
Apesar de reconhecermos, talvez, que este não é um dia bom para todos, ainda assumimos que ele é bom para a maioria.
Enquanto continuarmos a fazê-lo, as experiências mais desafiantes de relações familiares continuarão a ser silenciadas, e a mãe perfeita, abnegada e dedicada, continuará a dominar as nossas imaginações.
ADAPTADO DE:
Blake, L. (2022). Is the Culture of Mother's Day Changing?
https://www.psychologytoday.com/intl/blog/real-families/202203/is-the-culture-mothers-day-changing
PARA SABER MAIS:
1. Arranz Becker, O., & Hank, K. (2022). Adult children's estrangement from parents in Germany. Journal of Marriage and Family, 84(1), 347-360.
2. Agllias, K. (2013). The gendered experience of family estrangement in later life. Affilia, 28(3), 309-321.
3. Scharp, K. M. (2016). Parent–child estrangement: Conditions for disclosure and perceived social network member reactions. Family Relations, 65(5), 688-700.
4. Kim, K., Birditt, K. S., Zarit, S. H., & Fingerman, K. L. (2020). Typology of parent–child ties within families: Associations with psychological well-being. J Fam Psychol. 2020 Jun;34(4):448-458.
5. Blake, L. (2022). No Family Is Perfect: A Guide to Embracing the Messy Reality. Welbeck Publishing Group.
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Maria de Fátima Conceição
Psicoterapia | Psicologia da Saúde
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Although Mother's Day might be changing, in many ways it remains the same.