Espaço N - Neurociências, Saúde e Desenvolvimento de Lisboa

Espaço N - Neurociências, Saúde e Desenvolvimento de Lisboa Psicologia - Neurociências - Psiquiatria - Neurologia
Av. da Igreja, 68, 1º Dto. 1700-240 Lisboa Dificuldades relacionais - Conjugais, trabalho, sociais, etc.

Direcção Clínica:
Dr.ª Elsa Trigo

Directoras Associadas:
Dr.ª Alexandra Fonseca
Dr.ª Patrícia António
Dr.ª Tânia Muñoz

Psicologia:
Dr.ª Alexandra Fonseca
Dr.ª Ana Sofia Santos
Dr.ª Eneia Araújo Bexiga
Dr.ª Isabel Carrilho
Dr.ª Maria João Mendes
Dr. Nuno Pimentel
Dr.ª Patrícia António
Dr.ª Sofia Francisco
Dr.ª Tânia Muñoz
Dr.ª Vera Reynaud da Silva

Neuropsicologia:
Professor Doutor Jos

é Leonel Góis Horácio
Dr.ª Gabriela Álvares Pereira

Psicopedagogia:
Dr.ª Tânia Pereira

Psiquiatria:
Dr. Alfredo Frade
Dr.ª Ana Neto
Dr. André Ribeirinho Marques
Dr.ª Carolina Almeida
Dr.ª Elsa Trigo
Dr.ª Margarida Bernardo
Dr. Sérgio Carmenates
Dr.ª Teresa Guterres
Professor Dr. Marco Paulino

Medicina Interna:
Dr.ª Lucita Álvarez

Nutrição:
Dr.ª Joana Ávila

Terapia Familiar e Conjugal:
Dr. Nuno Pimentel

Programa de Orientação Vocacional e Profissional:
Dr.ª Eneia Araújo Bexiga



ÁREAS DE INTERVENÇÃO

Intervenções terapêuticas para a prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação de:

Dificuldades do foro psicológico e mental - Ansiedade, fobia, pânico, stress, transtorno obsessivo-compulsivo, depressão, transtorno bipolar, perturbações psicóticas, anorexia nervosa, bulimia, crises de voracidade alimentar - binge eating, insónia, hiperactividade, hipocondria, agressividade, etc.) Psiquiatria

Neuropsicologia

Nutrição

Psicoterapia:
A psicoterapia possibilita uma melhor compreensão da natureza humana de cada pessoa, tendo em vista alterações do comportamento e a forma como o próprio se compreende e se sente em relação a si e/ou às pessoas mais signif**ativas. No ESPAÇO NEUROCIÊNCIAS, SAÚDE E DESENVOLVIMENTO DE LISBOA os elementos da equipa dispõem de formação especializada em diversas áreas de Psicoterapia, nomeadamente Psicoterapia de Orientação Analítica, Breve Dinâmica, Cognitivo-Comportamental, Rogeriana e Familiar. As sessões psicoterapêuticas, de natureza confidencial, têm uma regularidade e frequência estipulada no início do acompanhamento, aquando do estabelecimento do contrato terapêutico, permitindo um trabalho de continuidade e de suporte. Psicologia Clínica:
A maioria das nós experimenta estados de ansiedade ou depressão, ou ainda outras emoções difíceis de explicar, em alguma altura das nossas vidas. Com frequência esses estados emocionais são naturalmente ultrapassados, sem necessidade de recorrer a auxílio externo. Porém, a sua persistência e as limitações que impõem ao acontecer de uma vida normal, exigem a consulta de um técnico especializado. A decisão de consultar um psicólogo pode decorrer de múltiplas necessidades. Avaliação Psicológica:
É uma das valências de intervenção da Psicologia Clínica. Trata-se de um processo científico de observação num espaço de tempo limitado, com o objectivo de responder a um pedido de avaliação. Pretende-se caracterizar o funcionamento global do indivíduo e o problema em particular, avaliar os recursos que este possui para a resolução de problemas, conhecer as características do meio em que se insere e as relações que estabelece. Existem diversos tipos de avaliação psicológica, ajustados às situações e finalidades que motivam o pedido: avaliação para processos de reforma ou pensão, verif**ação de incapacidades, psicodiagnóstico e esclarecimento do diagnóstico, avaliação cognitiva ou das funções intelectuais, avaliação da personalidade, avaliação para processos de tribunal (e.g. parecer clínico com fins judiciais, regulação do poder paternal), orientação vocacional e profissional, entre outros. Consultoria Social:
Identif**ação e avaliação dos problemas e necessidades de apoio social dos utentes, elaboração do respectivo plano de intervenção e acompanhamento do processo. - Prestação de informação no âmbito dos direitos e benefícios, facilitando a acessibilidade aos mesmos (preenchimento de formulários, acompanhamento a serviços, etc.) - Encaminhamento e articulação com serviços e recursos sociais (Fórum sócio Ocupacional, Centros de Dia/Convívio, Serviço de Apoio Domiciliário, Lares, Programas Ocupacionais, Escolas de Ensino Especial, etc.) Acções de Formação:
Organizamos Acções de Formação em áreas clínicas e do desenvolvimento. Os nossos formadores possuem uma vasta experiência clínica, integrados em serviços especializados do Serviço Nacional de Saúde, o que constitui uma mais-valia ao nível da qualidade da formação. Nas formações que propomos privilegiamos a articulação teórico-prática, com recurso a metodologias activas e exposição, discussão e análise de casos práticos.

Partilhamos o artigo de opinião da Dra. Patrícia António, Directora Associada e colaboradora do Espaço N - Neurociências...
08/08/2026

Partilhamos o artigo de opinião da Dra. Patrícia António, Directora Associada e colaboradora do Espaço N - Neurociências, Saúde e Desenvolvimento de Lisboa, publicado na edição de 06 de Agosto de 2026 do Jornal de Leiria, intitulado - "O que nos sustenta quando envelhecemos?"

Texto integral aqui:

"Sabemos que ninguém se constrói sozinho. No início, precisamos de alguém que nos ajude a existir. Os primeiros encontros relacionais, inscritos no tempo, na qualidade da presença humana e no tom das primeiras relações, são decisivos para a nossa construção futura. E tal como ninguém nasce sozinho, também ninguém envelhece sozinho. O envelhecimento trata-se de um processo complexo e universal, que engloba importantes alterações biológicas, cognitivas, psicológicas e também sociais, que envolvem tanto aspectos positivos, como os inevitáveis declínios e perdas reais. Algumas desta alterações são modifícáveis ou reversíveis. Outras, requerem uma honesta aceitação do próprio processo de envelhecimento e da responsabilidade individual no seu desenvolvimento, quando os diferentes espelhos de reconhecimento se alteram: as nossas funções, o nosso estatuto, as nossas rotinas, os parceiros ou parceiras que partem. E quando os espelhos de reconhecimento se alteram, quem sou eu afinal? Foi assim com o António (nome fictício): "Vim cá porque não estou a saber envelhecer. Também não sei se me pode ajudar. Não estou a deixar que a minha filha me apoie e depois fico a pensar que fui bruto. Quero continuar a aprender, não quero parar. No outro dia percebi que já não tinha a mesma força e isso custou-me. Tive vergonha de lhe telefonar. Pensei que me iria dizer: 'O paizinho já não tem idade para estas coisas’.” Para algumas pessoas, a consciência do corpo que muda e da própria finitude desperta a necessidade de revisitar a própria vida. É tempo de integrar perdas e lutos, reconciliar-se com culpas antigas, reconhecer o caminho percorrido, acolher tanto o que foi vivido como aquilo que ficou por viver e reconstruir um sentido de continuidade perante um Eu que inevitavelmente se transforma. Trata-se de um trabalho de enorme elaboração psíquica que não se faz em isolamento. Requer a presença de um Outro receptivo que nos olhe, nos escute e nos ajude a pensar e a metabolizar a angústia da perda e da finitude. Para outras pessoas, porém, essa retrospectiva é vivida com desespero, vazio e profunda estagnação. Faltam palavras para nomear o sofrimento e espaço interno para o transformar. E, à medida que o corpo se modif**a, os amigos partem e os papéis sociais se esbatem, voltamos a precisar — tal como no início da vida — de um ambiente familiar, institucional ou social suficientemente bom que funcione como um lugar de amparo e contenção. Um lugar onde não nos deixemos cair em estados de desamparo, abandono ou rejeição primitivos. Tal como o António, muitos vivem esta necessidade com culpa ou vergonha. Como se precisar dos outros signif**asse falhar. Mas, na verdade o que acontece é tornar-se mais evidente que continuamos a precisar de previsibilidade, reconhecimento e presença humana. Precisamos que nos testemunhem, nos confirmem e nos devolvam uma imagem de quem continuamos a ser. E isso conta. Vivemos numa época que celebra o envelhecimento activo. Queremos viver mais, manter a autonomia, preservar o corpo e a mente. É o chamado “successful aging”, uma espécie de imperativo de auto-suficiência, de plastif**ação do tempo e optimização biológica, onde se investem milhares de milhões na longevidade. Verdade que vivemos mais anos e a medicina, a tecnologia e a investigação abriram possibilidades extraordinárias. Mas, quando deixamos de olhar a pessoa idosa na sua subjectividade, há um risco que espreita: transformarmos o envelhecimento numa tarefa meramente individual de gestão hiper-eficiente do declínio biológico, apagando a dimensão relacional que caracteriza a nossa humanidade. Lentamente, a dependência passa a ser vista como um fracasso e o oposto da solidão f**a assente na proliferação de actividades, distracções ou ocupação de tempo. Mas o oposto da solidão é o reconhecimento, é saber que a nossa existência conta e ainda faz eco na vida psicológica e relacional de alguém. Assim, o que nos sustenta quando envelhecemos não é apenas o número de anos que conseguimos acrescentar ao corpo, mas a capacidade de preservar aquilo que nos faz humanos: a possibilidade de continuarmos a ser reconhecidos, escutados, tocados e lembrados por alguém — a face visível da nossa condição relacional."









Partilhamos o artigo de opinião da Dra. Patrícia António, Directora Associada e colaboradora do Espaço N - Neurociências...
18/06/2026

Partilhamos o artigo de opinião da Dra. Patrícia António, Directora Associada e colaboradora do Espaço N - Neurociências, Saúde e Desenvolvimento de Lisboa, publicado hoje na edição de 18 de Junho de 2026 do Jornal de Leiria, intitulado - "A Janela Intersubjectiva".

Texto integral aqui:

"No texto “O que é uma janela?”, José Tolentino Mendonça (2017) interroga-nos: “O que é um janela? Podemos responder imediatamente, sem pensar muito, e dizer que é uma coisa simples: uma abertura rasgada numa parede para fazer entrar luz e ar num determinado espaço. O que a revela marcante e inesquecível é ela ser uma espécie de passagem para o olhar. (...) É uma ponte entre mundos, um convite à circulação do real, um laço entre interior e exterior, uma soleira para o infinito (...). Uma janela debruça-nos sobre o espanto” (p.55). Uma janela nunca é apenas uma transparência. Também limita, enquadra, selecciona, aproxima e protege o nosso olhar. Ao ler este seu texto, a “janela” de Tolentino Mendonça fez-me pensar no lugar da psicoterapia psicodinâmica na era actual enquanto um espaço relacional de coexistência e espanto, uma oportunidade de ser visto e de existir, de sentir que somos verdadeiramente importantes para alguém e que a nossa vida conta. Na psicoterapia psicodinâmica, a relação psicoterapêutica pode ser vivenciada como uma janela intersubjectiva entre duas pessoas que se relacionam no aqui e agora, onde o mundo interno de quem procura ajuda pode ser observado, pensado e sentido na presença de um Outro. Simultaneamente, é também a janela que se abre para a qualidade do mundo afectivo e relacional da pessoa, para aquilo que nela se repete, transfere, projecta, introjecta, resiste ou nega. A janela que estabelece pontes entre o mundo interno e o mundo externo, tanto da pessoa como do próprio psicoterapeuta, convocando-o também à observação da sua contratransferência. A janela que é um convite à escuta do inconsciente, à elaboração dos sonhos, ao acesso às fantasias, à observação das relações de objecto interiorizadas, ao acolhimento das experiências ainda não simbolizadas do self, ao passado que se observa no presente, muitas vezes agido e projectado na vida relacional e na própria relação psicoterapêutica. Trata-se duma relação humana e dela resulta um novo encontro vivido a dois, onde aquilo que, muitas vezes, chega sob a forma de intensidade emocional, repetição ou silêncio, pode ser observado no espaço entre duas subjectividades e começar a ganhar um contorno psíquico e, consequentemente, ligação à experiência vivida. Neste “laço entre interior e exterior”, passado e presente, inconsciente e consciente, emerge a possibilidade de transformar sofrimento em palavra, caos em sentido, silêncio em gesto ético de escuta e hospitalidade. Vivemos numa época de aceleração, em que tudo circula rapidamente – emoções, imagens, opiniões, indignações. É a cultura da hiperestimulação, da fluidez relacional descrita por Bauman e da evacuação emocional imediata, muitas vezes, à distância de um clique, onde a nossa própria capacidade de simbolização parece estar fragilizada. Hoje, a percepção imediata tende a ocupar o lugar da mentalização e isso cega-nos. A acção tende a estar sobreposta ao sentimento, ao afecto e à palavra. É a era da performance, onde assistimos à proliferação de sinais de sofrimento psíquico e de fragilidades cada vez mais precoces, expressos nas mais diversas interrogações existenciais. A verdade é que, quando não encontramos internamente uma razão para a nossa existência, um farol que nos ilumine em noites de tempestade e em dias de nevoeiro, espreita a via da descarga, da acção irreflectida, da passagem ao acto, da aceleração, da intolerância à espera ou à frustração, da perda da capacidade de estar só, do comportamento de risco que procura encobrir sentimentos de falta e vazio afectivo. Na prática clínica, chegam-nos pessoas profundamente afastadas da sua vida interior, como casas com janelas fechadas há muito tempo. Não porque “não sintam”, mas porque sentem sem conseguir pensar o que sentem. A experiência subjectiva é rapidamente exteriorizada ou actuada, denunciando a dialética do excesso e do défice – muito afecto sem continente, muita exposição sem intimidade, muita reacção sem elaboração psíquica. E quando a pressa tende a substituir a escuta e a capacidade de espanto, cabe-nos a nós, psicoterapeutas, compreender antes de interpretar. Acolher a história relacional e a singularidade da pessoa diante de nós antes de apontar as defesas, os padrões repetidos, os obstáculos e as próprias “armadilhas” que esta cria para si própria. E esse acesso ao inconsciente — um saber não sabido — exige presença, silêncio e acolhimento genuíno. Uma janela aberta para que aquilo que ainda não encontrou pensamento, relação ou linguagem possa, finalmente, começar a existir."









O Dr. André Ribeirinho Marques, psiquiatra e sexólogo, colaborador do Espaço N, no programa desta semana do podcast "O p...
10/06/2026

O Dr. André Ribeirinho Marques, psiquiatra e sexólogo, colaborador do Espaço N, no programa desta semana do podcast "O prazer é todo meu".

Nos dias de hoje, falamos mais sobre diversidade sexual, mas será que a compreendemos? No episódio desta semana de “O Prazer é Todo Meu”, Mafalda Cruz conversa com André Ribeirinho Marques, psiquiatra, sexólogo e consultor da Direção-Geral da Saúde na área da Saúde LGBT

Partilhamos o artigo de opinião da Dra. Patrícia António, Directora Associada e colaboradora do Espaço N - Neurociências...
08/05/2026

Partilhamos o artigo de opinião da Dra. Patrícia António, Directora Associada e colaboradora do Espaço N - Neurociências, Saúde e Desenvolvimento de Lisboa, publicado na edição de 07 de Maio de 2026 do Jornal de Leiria, intitulado - "A gramática da ternura: escutar o indizível em Uma Pastelaria em Tóquio".

Texto integral aqui:
"Há filmes que crescem e continuam a acontecer dentro de nós dias depois, sem palavras ou reflexões imediatas. Foi assim com o filme Uma Pastelaria em Tóquio (título original An, 2015), da cineasta japonesa Naomi Kawase, baseado na obra literária homónima de Durian Sukegawa, que vi recentemente. O filme retrata o encontro entre três personagens numa pequena pastelaria no quotidiano urbano de Tóquio, que, de formas distintas, transportam marcas de um tempo psíquico não elaborado. É algo que não se revela de imediato, mas que se presentif**a no rosto de cada uma, na intensidade dos seus silêncios, num tempo que parece não passar. Sentaro, um homem solitário, gere uma pequena pastelaria especializada em dorayakis: panquecas japonesas recheadas com an, doce de feijão azuki. Tokue, uma mulher idosa, candidata-se a trabalhar na pastelaria e revela um talento singular para preparar este recheio. A relação entre ambos, inicialmente profissional, transforma-se num vínculo de amizade e reconhecimento mútuo, à medida que Tokue ensina Sentaro a preparar o doce de feijão, num processo que exige tempo, respeito e atenção — “É preciso ouvir a história que eles têm para contar... É preciso acolher os feijões que vieram de tão longe, do sol e da chuva”, refere. À primeira vista, este encontro desenrola-se em torno de gestos simples: preparar a pasta de feijão, fazer os dorayakis, servir os clientes, observar o passar das estações do ano, as cerejeiras em flor. No entanto, sob essa superfície quotidiana, emerge um retrato profundo da nossa humanidade: o passado, na história do trauma físico e social inscrito no corpo e na memória de Tokue; o presente, suspenso na solidão e na culpa silenciosa de Sentaro; e o futuro, na curiosidade relacional de Wakana, uma jovem estudante e cliente assídua, que se aproxima deste encontro com disponibilidade e abertura ao outro. No seu desenrolar, o filme confronta-nos também com o peso do estigma e do “não dito”, onde o silêncio e a preservação das aparências são marcas profundas da cultura japonesa, mas também reconhecíveis na forma como, na nossa sociedade, a dor psíquica continua muitas vezes a ser mantida em silêncio, isolada e invisibilizada. O diálogo e os gestos de Tokue, que carrega nas suas mãos as marcas do estigma face à lepra, funcionam como âncoras do indizível, transformando o estigma em compreensão, a dor em signif**ado e o silêncio em escuta. Na prática clínica quotidiana, este “não dito” manifesta-se em sintomas, ausências, culpabilidades, repetições — vidas em suspenso, muitas vezes confinadas em redomas de silêncio que falam por dentro. A pessoa que temos diante de nós também “vem de longe”, trazendo consigo o “sol e a chuva” da sua história relacional. O nosso trabalho clínico exige uma presença humanamente informada, capaz de acolher o que não pôde ser reconhecido. Sándor Ferenczi, psicanalista húngaro contemporâneo de Sigmund Freud, foi dos primeiros a sublinhar a importância da empatia e da presença real do terapeuta, defendendo uma “infatigável receptividade” às ligações entre ideias, sentimentos e processos inconscientes. Na sua perspectiva, o trauma não reside apenas no acontecimento em si, mas na ausência de um Outro que o reconheça e sustente, deixando uma fractura psíquica. Aquilo que não é escutado não se transforma em memória, mas permanece como experiência bruta, indizível, inscrita na mente e no corpo e repetida sem elaboração e isto conta! Assim, a compreensão do trauma obriga-nos a outro modo de pensar e de estar no aqui e agora da relação: outras linguagens, outras formas de acolher e escutar o que ainda não pôde ser simbolizado. Convoca-nos a existir num lugar relacional, através do nosso espaço intrapsíquico, do nosso afecto, da nossa empatia e da nossa responsabilidade ética de hospitalidade. Somos chamados a ser, muitas vezes, o primeiro Outro que escuta verdadeiramente. Aquele em cuja presença algo pode, finalmente, começar a ganhar forma e onde movimentos sanígenos e transformadores se tornam possíveis, restaurando aquilo que o ambiente relacional um dia falhou. Esta é uma relação que se quer autêntica, real e emocionalmente vivida, onde o indizível pode, pouco a pouco, transformar-se em pensamento e possibilidade. Porque cuidar das vulnerabilidades invisíveis é testemunhar o que, em cada um de nós, resiste, espera e silenciosamente pede para viver. É sustentar a verdade subjectiva do Outro. É permitir que a dor e a vitalidade coexistam, acolher sem esmagar e testemunhar sem pressa de nomear. Tal como nos recorda Tokue, o nosso papel é o de “observar e escutar o mundo... mesmo que não nos tornemos em nada, cada um de nós tem o seu sentido”, i.e., oferecer a nossa hospitalidade psíquica a uma experiência emocional que, em algum momento, ficou sem existência. Isto implica tempo, presença, continuidade, vínculos e afectos – uma disponibilidade interna para nos deixarmos afectar, como também nos ensinou Sándor Ferenczi. Escutar o Outro e escutar o que em nós permanece sem nome. E aqui emerge a importância da gramática da ternura."











Partilhamos o artigo de opinião da Dra. Patrícia António, Directora Associada e colaboradora do Espaço N - Neurociências...
07/04/2026

Partilhamos o artigo de opinião da Dra. Patrícia António, Directora Associada e colaboradora do Espaço N - Neurociências, Saúde e Desenvolvimento de Lisboa, publicado na edição de 26 de Março de 2026 do Jornal de Leiria, intitulado - "O desafio do paracetamol: escutar nas entrelinhas".

Texto integral aqui:
“Mamã, já ouviste falar daquele desafio dos adolescentes nas redes sociais com medicamentos?” A pergunta da minha filha surgiu de forma aparentemente casual, num final de tarde, há cerca de duas semanas. Tinha sido tema de conversa na escola entre colegas e, depois, em sala de aula com uma das professoras. O tom era de curiosidade. Mas o assunto está longe de ser inocente. É fundamental que nós adultos (e.g. pais, educadores, profissionais de saúde, jornalistas) estejamos atentos e disponíveis para conversar, esclarecer e, sobretudo, ouvir. Perguntar sem julgar. Informar sem dramatizar. Ir ao encontro do signif**ado deste agir, assegurando a sua protecção. E dar atenção à característica fundamental do risco – a comunicação de desejos intensos e apressados, que precisam de uma resposta diferida e ponderada que promova a capacidade para pensar e crescer.
Nas últimas semanas, o chamado “desafio do paracetamol” ganhou visibilidade mediática. Foi chamada de capa no Jornal Expresso e motivou alertas formais por parte da Ordem dos Médicos e da Direção-Geral da Saúde. Em causa está a ingestão de doses elevadas de paracetamol, um medicamento amplamente utilizado nas nossas casas, frequentemente percepcionado como inócuo, mas que comporta riscos severos quando utilizado de forma abusiva. O problema agrava-se quando esta percepção de “segurança” é amplif**ada por dinâmicas próprias das redes sociais, onde os desafios se disseminam rapidamente, muitas vezes sem qualquer noção das consequências para os jovens envolvidos. Como sabemos, as redes sociais funcionam como um palco onde o olhar do outro é constante e potencialmente massivo. Intensif**am a recompensa, através de likes e visualizações, mas também a pressão implícita à participação. O grupo deixa de ser apenas o grupo real e passa a ser um coletivo difuso, mas emocionalmente muito presente e isto conta. A adolescência é, por definição, um tempo de transformação e reorganização interna, onde fantasiar e experimentar são fundamentais. O risco e a transgressão fazem parte desta dinâmica de crescimento. É neste período que emerge uma necessidade imperiosa de testar limites, tantos os que nascem do mundo interno, como os que fazem parte do mundo externo, da lei, do exterior. O corpo transforma-se, a identidade procura-se e o grupo de pares ganha centralidade. O jovem percebe que está perante uma personalidade que é muito diferente da infância e emergem desafios importantes. Por um lado, a exigência do luto da infância e as suas necessárias desidentif**ações. Por outro, encontrar novas identif**ações e como é que a sua vida amorosa se vai desenrolar. Neste processo, emergem frequentemente fantasias de omnipotência — a crença, mais ou menos consciente, de que “comigo não acontece” — que coexistem com vivências de fragilidade, dúvida e, por vezes, desamparo. No fundo, a perspectiva do adolescente é a de pôr à prova, i.e., expor-se, verif**ar a solidez e a firmeza dos limites e a de experimentar, i.e., tomar as suas próprias decisões, fazer escolhas, sentir e reconhecer a sua própria realidade. De facto, quando o desejo de crescimento e conquista de autonomia é maior que o medo, muitos meios podem ser úteis e nestes “desafios” nas redes sociais cruzam-se várias dimensões psíquicas importantes para o jovem. A saber: a procura de reconhecimento e validação externa, o desejo de inscrição num grupo, a experimentação de limites, e, em alguns casos, formas de acting-out — i.e., a expressão através da acção de conteúdos emocionais que não encontram ainda representação simbólica suficiente. Isto implica adultos disponíveis para uma escuta não intrusiva, mas consistente. Capazes de sustentar a ansiedade sem recorrer imediatamente ao controlo ou à dramatização. Capazes, também, de reconhecer que o risco faz parte do processo adolescente — mas que precisa de ser simbolizado, nomeado e enquadrado. O desafio não deve ser apenas o “paracetamol”, mas a nossa capacidade de escutar o que está por trás dele. E escutar implica tempo, presença e transformação, sem medo de pensar e cuidar. Porque, como nos lembra Xavier Pommereau, quando o adolescente se sente mal, é preciso saber ouvi-lo, compreendê-lo e amá-lo."








O Espaço N - Neurociências, Saúde e Desenvolvimento de Lisboa deseja a todis os seus colaboradores, pacientes e amigos v...
03/04/2026

O Espaço N - Neurociências, Saúde e Desenvolvimento de Lisboa deseja a todis os seus colaboradores, pacientes e amigos votos de uma Páscoa Feliz!

Partilhamos o artigo de opinião da Dra. Patrícia António, Directora Associada e colaboradora do Espaço N - Neurociências...
06/03/2026

Partilhamos o artigo de opinião da Dra. Patrícia António, Directora Associada e colaboradora do Espaço N - Neurociências, Saúde e Desenvolvimento de Lisboa, publicado na edição de 05 de Março 2026 do Jornal de Leiria, intitulado - "A transparência da dor emocional".

Texto integral aqui:
"“Passaram já tantos dias e todas as noites tenho pesadelos relacionados com aquela madrugada. Pesadelos onde aquele barulho ensurdecedor se faz presente. Acordo e não consigo dormir. Tive tanto medo de morrer, da casa implodir... E depois seguiram-se dias infinitos às escuras, sem conseguir comunicar com ninguém, sozinha, isolada... não passou ninguém durante mais de 10 dias. Há um estado de alerta permanente, não se esquece, uma dor imensa que não pára de nos acompanhar!”
Neste último mês, entre pacientes, familiares e amigos, o relato de Maria (nome fictício) tornou-se porta-voz do que foi f**ar só e doer muito. Partilhas que trazem o medo, a tristeza, o desamparo, as perdas e lutos ainda difíceis de fazer, e a certeza inquietante de que, de um dia para o outro, tudo pode ruir. Há pessoas que continuam isoladas, sem luz e sem água. Casas destelhadas, húmidas, frias. Empresas no chão. Mas não só. Há vidas que f**aram interrompidas, suspensas, sem rumo. A imprevisibilidade da tempestade colocou a nu sentimentos intensos de fragilidade, insegurança e impotência — consequências psíquicas profundas que, quando o reconhecimento e amparo simbólico tarda, podem cristalizar-se em trauma colectivo. Comunidades inteiras partilham hoje um cenário devastador onde o lugar que sempre foi “casa” se transformou num espaço a descoberto. Quando o que delimita o “dentro” e o “fora” desaparece, das nossas casas, dos nossos jardins, das nossas ruas, das nossas florestas, instala-se a desorientação e um profundo abalo da identidade individual e colectiva. São tempos dolorosos de grande angústia que revelam a transparência de uma dor emocional difícil de nomear. A Psicologia e a Psicanálise ensinam-nos que o trauma não se define apenas pelo acontecimento em si, mas pelo que acontece dentro de nós como resultado do que nos aconteceu. Quando a tempestade imprevisível e incalculável irrompeu, o “real” invadiu o nosso psiquismo. A força da natureza ultrapassou as defesas habituais e reactivou memórias primitivas de vulnerabilidade absoluta. É uma experiência esmagadora, indizível. O corpo responde: imobiliza-se, o coração abranda, a respiração torna-se superficial, o contacto connosco próprios e com o mundo que nos rodeia fragiliza-se. É preciso uma energia tremenda para continuar a funcionar enquanto se carrega a memória do terror recentemente vivido. Os desdobramentos e encadeamentos entre o presente, passado e futuro f**am comprometidos. Não espanta, por isso, que, apesar da resiliência e da solidariedade demonstradas, surjam estados de hipervigilância, pesadelos, ansiedade, irritabilidade ou cansaço extremo. O trauma insiste e retorna. E, se não for acolhido e elaborado, pode transformar-se em sofrimento psíquico persistente. No terreno, surgiram rapidamente intervenções na linha dos Primeiros Socorros Psicológicos, com o objectivo de reduzir o sofrimento imediato e prevenir a evolução de perturbações mais graves. Foram intervenções de presença, escuta e validação, lembrando que o medo, a tristeza ou as dificuldades em dormir são respostas humanas e expectáveis após perdas tão signif**ativas. A fase de emergência foi formalmente concluída. No entanto, o trabalho de acompanhamento e continuidade permanece — hoje, amanhã e depois de amanhã. É aqui que a relação terapêutica, ao funcionar como base segura e continente, pode criar as condições para restaurar a mentalização — voltar a pensar o que se sente e a sentir o que se pensa. O acontecimento traumático não se explica, constata-se. É um saber que não encontra palavras e que precisa de ser suportado: nós a suportar a pessoa e aquilo que ela ainda não consegue suportar sozinha. É nesse processo que a repetição do trauma pode transformar-se em experiência relacional com signif**ado e possibilidade de resiliência. Será este também agora o nosso caminho — o meu e o da Maria — hoje, amanhã e depois de amanhã."












Porque é imperativo o tratamento consistente e ef**az da depressão, partilhamos o contributo da Dra. Carolina Rocha Alme...
04/03/2026

Porque é imperativo o tratamento consistente e ef**az da depressão, partilhamos o contributo da Dra. Carolina Rocha Almeida, médica especialista em Psiquiatria, com formação específ**a em depressão resistente e colaboradora no Espaço N, publicado no Observador.

https://observador.pt/opiniao/depressao-resistente-ao-tratamento-como-pedir-ajuda/?fbclid=IwY2xjawQVH_pleHRuA2FlbQIxMABicmlkETE2NHczejZFZWFodWtzQnZyc3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHgvIYnf-DYn6cvmaTGBOxT2LDpXWhhl__02q3MlBGMBYIyaVPIOfsX5dZofX_aem_omROqcuf7F_MLbqbs8kiWw

Não seria aceitável tratar um cancro pela metade. Então porquê aceitar na depressão? Quando um tratamento não funciona, há outros que se podem e devem seguir.

Partilhamos o artigo de opinião da Dra. Patrícia António, Directora Associada e colaboradora do Espaço N - Neurociências...
06/02/2026

Partilhamos o artigo de opinião da Dra. Patrícia António, Directora Associada e colaboradora do Espaço N - Neurociências, Saúde e Desenvolvimento de Lisboa, publicado na edição 29 de Janeiro do Jornal de Leiria, intitulado - "Seja responsável. Beba com moderação?"

Texto integral aqui:

"Portugal é conhecido por ser um país de “brandos costumes”. É também o país do “Seja responsável. Beba com moderação.” — um slogan com décadas de circulação, amplamente disseminado nos rótulos das bebidas alcoólicas, em campanhas publicitárias e em campanhas de consciencialização, muitas delas promovidas pela própria indústria. Num contexto em que os indicadores internacionais colocam Portugal entre os países com maior consumo de álcool per capita da Europa, em contraste com a tendência de descida observada na maioria dos países da União Europeia (e.g. OCDE, Eurostat, OMS) — e em que os dados nacionais indicam que mais de metade da população adulta consome álcool de forma regular e que cerca de 3,5% apresenta padrões de consumo abusivo ou dependente, número que tem vindo a aumentar nos últimos anos, importa parar para pensar sobre o que este slogan revela e, sobretudo, sobre o que nele se esconde. O apelo à “moderação” convoca uma fantasia colectiva de controlo racional sobre uma substância que actua precisamente sobre os mecanismos de controlo. Ao mesmo tempo, legitima um consumo socialmente aceite, transversal a gerações e contextos, protegido por uma linguagem que o banaliza e o desresponsabiliza — uma espécie de pacto colectivo de silêncio. Por não ser clinicamente definida nem mensurável, a palavra “moderação” torna-se politicamente correcta: parece cuidar e prevenir quando, na verdade, evita pensar e silencia-nos a todos. Ao reduzir o consumo a uma escolha individual, desliga-o dos contextos emocionais, relacionais e sociais em que ocorre, torna invisível a vulnerabilidade e sossega consciências. Sobretudo, legitima a ausência de políticas públicas estruturadas de redução de riscos e minimização de danos no que respeita ao álcool. F**a, assim, ausente o pensamento sobre a função psíquica do consumo, sobre os contextos de maior vulnerabilidade e sobre a necessidade de intervenções humanistas e pragmáticas que, sem impor a abstinência como ponto de partida, coloquem a relação no centro do cuidado. Intervenções que não moralizam, que acolhem a pessoa onde ela está, respeitando os seus limites e possibilidades. Intervenções que dão espaço e voz a dores antigas, frequentemente silenciadas, que durante anos só puderam ser anestesiadas. Na clínica, ouvimos frequentemente partilhas como: “Sempre bebi como os outros e agora estou aqui…”. Pessoas que nunca se pensaram em risco, porque sempre beberam “dentro do aceitável”, mas que adoeceram em silêncio. A “moderação”, apresentada como solução universal, protege a norma e deixa sem resposta clínica adequada quem não consegue habitá-la. Este silenciamento oculta também o excesso no seu sentido clínico e social: o impacto visível na elevada prevalência de acidentes rodoviários associados ao álcool, o aumento de problemas de saúde e de internamentos relacionados com o consumo, bem como o crescimento dos pedidos de ajuda na área do alcoolismo. Torna-se, assim, evidente a profunda divergência entre as políticas de saúde pública e os interesses da indústria, que continuam a marcar este campo no nosso país. E, quando não existe uma abordagem estruturada de Redução de Danos (RD), o vazio não permanece neutro. É rapidamente ocupado pela indústria que, sob a aparência de campanhas responsáveis, se apropria da linguagem do cuidado para, na realidade, proteger o consumo. Uma verdadeira abordagem de RD exige outra ética: não se trata de defender o consumo, mas de cuidar das pessoas que consomem através da informação clara sobre efeitos e riscos reais, do reconhecimento da diversidade de padrões de consumo, de intervenções humanistas e pragmáticas capazes de auxiliar cada pessoa na gestão dos prazeres e dos riscos associados, de espaços de escuta clínica disponíveis onde o álcool possa ser pensado como função psíquica e não apenas como produto. Mas tudo isto inquieta, porque desafia um território amplamente ocupado por mensagens que tranquilizam o mercado, mas que deixa sem resposta clínica adequada quem não consegue beber ser se magoar. Pensar o álcool a partir desta perspectiva, implica aceitar que nem todos partem do mesmo lugar, nem todos dispõem das mesmas condições internas e externas para “moderar”. Implica reconhecer que o consumo fala, cumpre funções e, muitas vezes, protege de um sofrimento que não se sabe ainda suportar de outro modo. Enquanto sociedade, urge abandonar slogans confortáveis e assumir uma responsabilidade colectiva mais exigente — responsabilidade esta que não cabe a um único ministério. Pensar melhor, inovar mais, cuidar melhor, escutar mais. É nesta dialéctica - compreender as raízes do sofrimento e oferecer estratégias possíveis para o presente - que o trabalho conjunto se deve sustentar. Trazer a Redução de Danos para o centro da agenda pública é, em última instância, colocá-la ao serviço das pessoas. E isso — apesar de não ser simples — salva vidas. Por isso, estamos todos convocados."






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