08/08/2026
Partilhamos o artigo de opinião da Dra. Patrícia António, Directora Associada e colaboradora do Espaço N - Neurociências, Saúde e Desenvolvimento de Lisboa, publicado na edição de 06 de Agosto de 2026 do Jornal de Leiria, intitulado - "O que nos sustenta quando envelhecemos?"
Texto integral aqui:
"Sabemos que ninguém se constrói sozinho. No início, precisamos de alguém que nos ajude a existir. Os primeiros encontros relacionais, inscritos no tempo, na qualidade da presença humana e no tom das primeiras relações, são decisivos para a nossa construção futura. E tal como ninguém nasce sozinho, também ninguém envelhece sozinho. O envelhecimento trata-se de um processo complexo e universal, que engloba importantes alterações biológicas, cognitivas, psicológicas e também sociais, que envolvem tanto aspectos positivos, como os inevitáveis declínios e perdas reais. Algumas desta alterações são modifícáveis ou reversíveis. Outras, requerem uma honesta aceitação do próprio processo de envelhecimento e da responsabilidade individual no seu desenvolvimento, quando os diferentes espelhos de reconhecimento se alteram: as nossas funções, o nosso estatuto, as nossas rotinas, os parceiros ou parceiras que partem. E quando os espelhos de reconhecimento se alteram, quem sou eu afinal? Foi assim com o António (nome fictício): "Vim cá porque não estou a saber envelhecer. Também não sei se me pode ajudar. Não estou a deixar que a minha filha me apoie e depois fico a pensar que fui bruto. Quero continuar a aprender, não quero parar. No outro dia percebi que já não tinha a mesma força e isso custou-me. Tive vergonha de lhe telefonar. Pensei que me iria dizer: 'O paizinho já não tem idade para estas coisas’.” Para algumas pessoas, a consciência do corpo que muda e da própria finitude desperta a necessidade de revisitar a própria vida. É tempo de integrar perdas e lutos, reconciliar-se com culpas antigas, reconhecer o caminho percorrido, acolher tanto o que foi vivido como aquilo que ficou por viver e reconstruir um sentido de continuidade perante um Eu que inevitavelmente se transforma. Trata-se de um trabalho de enorme elaboração psíquica que não se faz em isolamento. Requer a presença de um Outro receptivo que nos olhe, nos escute e nos ajude a pensar e a metabolizar a angústia da perda e da finitude. Para outras pessoas, porém, essa retrospectiva é vivida com desespero, vazio e profunda estagnação. Faltam palavras para nomear o sofrimento e espaço interno para o transformar. E, à medida que o corpo se modif**a, os amigos partem e os papéis sociais se esbatem, voltamos a precisar — tal como no início da vida — de um ambiente familiar, institucional ou social suficientemente bom que funcione como um lugar de amparo e contenção. Um lugar onde não nos deixemos cair em estados de desamparo, abandono ou rejeição primitivos. Tal como o António, muitos vivem esta necessidade com culpa ou vergonha. Como se precisar dos outros signif**asse falhar. Mas, na verdade o que acontece é tornar-se mais evidente que continuamos a precisar de previsibilidade, reconhecimento e presença humana. Precisamos que nos testemunhem, nos confirmem e nos devolvam uma imagem de quem continuamos a ser. E isso conta. Vivemos numa época que celebra o envelhecimento activo. Queremos viver mais, manter a autonomia, preservar o corpo e a mente. É o chamado “successful aging”, uma espécie de imperativo de auto-suficiência, de plastif**ação do tempo e optimização biológica, onde se investem milhares de milhões na longevidade. Verdade que vivemos mais anos e a medicina, a tecnologia e a investigação abriram possibilidades extraordinárias. Mas, quando deixamos de olhar a pessoa idosa na sua subjectividade, há um risco que espreita: transformarmos o envelhecimento numa tarefa meramente individual de gestão hiper-eficiente do declínio biológico, apagando a dimensão relacional que caracteriza a nossa humanidade. Lentamente, a dependência passa a ser vista como um fracasso e o oposto da solidão f**a assente na proliferação de actividades, distracções ou ocupação de tempo. Mas o oposto da solidão é o reconhecimento, é saber que a nossa existência conta e ainda faz eco na vida psicológica e relacional de alguém. Assim, o que nos sustenta quando envelhecemos não é apenas o número de anos que conseguimos acrescentar ao corpo, mas a capacidade de preservar aquilo que nos faz humanos: a possibilidade de continuarmos a ser reconhecidos, escutados, tocados e lembrados por alguém — a face visível da nossa condição relacional."