10/02/2022
Este Conto Clínico fala-nos de um pedido que surge regularmente no consultório: Como lidar com o ciúme?
Dos casos observados, o ciúme raramente surge como algo absoluto que exista só por si. Também é raro encaixar-se facilmente em frases feitas “a culpa é d@ outr@”. Muitas vezes é a expressão de um mal-estar interno intenso que não encontra expressão na relação com os outros.
Os comos e porquês de cada situação são únicos, mas o ciúme tem surgido como uma tentativa de deslocar o mal-estar para fora d@ própri@ e condensá-lo n@ outr@.
“A culpa não é minha é dela!” é mais fácil de gerir do que uma ansiedade que não se compreende. “Não fui eu que provoquei isto, foi ele!” faz mais sentido do que os momentos de descanso serem invadidos por medos sem motivo.
Este Conto dá um exemplo, de como o ciúme pode surgir numa vida como sintoma de um sofrimento mais complexo e confuso.
A ideia destes 𝑪𝒐𝒏𝒕𝒐𝒔 é dar a conhecer um pouco daquilo que acontece no mundo da 𝐏𝐬𝐢𝐜𝐨𝐥𝐨𝐠𝐢𝐚 𝐂𝐥í𝐧𝐢𝐜𝐚 através de histórias contadas pelos olhos de pessoas que precisaram de ajuda. Todas as histórias são inventadas, nunca são partilhadas informações sobre casos reais nem testemunhos.
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*Na sombra do ódio*
Uma história sobre as consequências de ter um pai ciumento
Quando eu era miúdo, os meus amigos achavam que eu f**ava insuportável quando namorava. Era um “cortes”, f**ava um chato, com a mania que sabia tudo. Nada disso me fazia sentido, achava normal que passasse mais tempo com a minha namorada. Achava que estavam com inveja.
Nos meus vintes tive duas namoradas de quem gostei mais, namorei um par de anos com cada. Isolei-me um bocado dos amigos de cada vez. Depois uma delas traiu-me e mais tarde a outra também.
Ambas me disseram que fui eu que as empurrei para isso, que os meus ciúmes eram sufocantes, não as deixava respirar. Eu chutei para canto, achei que era só conversa para se justif**arem.
Com 30 e poucos anos conheci uma miúda que eu achei que seria “a tal”, mas durou poucos meses e ela acabou comigo. Disse-me que nada justif**ava os meus comportamentos, os meus ciúmes, a minha obsessão. Ela disse-me aquilo com toda a calma do mundo, várias vezes, em pessoa e por escrito. Tentei convencer-me que ela tava a inventar para se justif**ar. Mas a pulga ficou a passear atrás da orelha, fazendo cada vez mais barulho.
Decidi entrar em contacto com as minhas ex-namoradas e pedi-lhes que me escrevessem tudo o que correu mal nas relações. Tive que insistir e prometer vezes sem conta que não iria contra-argumentar, que iria apenas aceitar a informação para tentar aprender. Ambas aceitaram. Ambas me disseram que eu precisava de ajuda e que se aquilo me ia pôr no caminho de procurar ajuda, então valia a pena.
Quando recebi os textos fiz das tripas coração para não lhes responder torto e agradeci apenas, consegui ser fiel às minhas promessas.
Falei com amigos meus, confirmaram-me tudo o que elas disseram. O pior era que eu não conseguia ver o que toda a gente parecia estar a ver.
Todos concordavam que eu era um tipo fixe, porreiro, amigo dos meus amigos, mas que assim que entrava uma mulher na minha vida, eu virava besta. Ficava a controlar o tempo todo, tinha montes de ciúmes, queria saber tudo o que elas estavam a fazer, quando, como, com quem…tudo o que não se deve fazer. Mas eu achava que fazia só o “normal”. Hoje sei que muito ou pouco, doente é doente!
Com estas informações comecei a estar atento:
Quando saía à noite e via alguma mulher que me interessasse, dava por mim a prestar mais atenção aos homens à volta dela, a querer controlar quem é que se aproximava. Percebi que isso não era novo em mim, mas nunca tinha percebido. Nas redes sociais o meu foco f**ava igualmente na “competição”. Tentei mudar-me e comecei a ter picos de ansiedade que não conseguia controlar, comecei a sentir a minha vida a sair dos eixos, comecei a sentir-me perdido e… assustado.
Acabei por procurar ajuda.
Comecei a ter consultas de psicologia clínica. Os primeiros tempos das consultas foram estranhos: foi um alívio, foi uma irritação, fez sentido, deixou-me furioso, enfim, um turbilhão.
Lá pelo meio das conversas comecei a perceber que algumas coisas que eu dava como certas, não eram certas, coisa nenhuma. Foi a minha experiência e moldou-me, mas o “certo” e o “errado” que eu tinha comigo era aleatório, fruto das aprendizagens com os meus pais.
O meu pai era o meu herói, não podia ser de outra forma, toda a família girava em torno dele. Hoje reconheço o narcisismo que na altura eu embelezava. Os meus pais divorciaram-se quando eu tinha 13 anos e a minha mãe saiu, foi-se embora. Eu quis f**ar com o meu pai. Fui vendo a minha mãe, mas fomo-nos afastando. Intoxiquei-me com as críticas que o meu pai lhe fazia. Que ela o tinha traído, que ela era isto, que ela era aquilo… enfim. Criei um molde de relacionamento para homens e mulheres com base no rancor de um homem que não soube amar e deixar-se ser amado. Herdei dele o medo da solidão apesar de nunca ter sentido grande solidão. Desliguei-me da compaixão da minha mãe, confundi-a com fraqueza.
Ora isto dito assim é tudo muito bonito, mas desmontei-me todo quando percebi estas coisas. Depois comecei a reconstruir-me, voltei a reatar ligações com a minha mãe, e com o meu padrasto, felizmente fui a tempo. Afastei-me das certezas rancorosas do meu pai que continua sozinho, escolha sua.
Hoje continuo a descobrir-me, tenho mais amigos e amigas. Gosto mais das pessoas. Tenho uma namorada e gosto imenso de dormir em paz mesmo nas noites em que ela sai. Dou mais valor à escolha que ela faz agora de continuar comigo, do que ao medo de que ela possa um dia não me escolher. Vivo agora, com o que é real, não com fantasias herdadas.