Contos Clínicos

Contos Clínicos Psicologia Clínica online/presencial. Histórias baseadas no trabalho clínico Leia os nossos Cont

Aquilo que me motiva enquanto psicólogo é promover a mudança, a descoberta de um percurso na vida de bem-estar consigo, com o outro e com o meio que o rodeia, indo ao encontro da liberdade emocional pessoal.

Este Conto Clínico fala-nos de um pedido que surge regularmente no consultório: Como lidar com o ciúme? Dos casos observ...
10/02/2022

Este Conto Clínico fala-nos de um pedido que surge regularmente no consultório: Como lidar com o ciúme?
Dos casos observados, o ciúme raramente surge como algo absoluto que exista só por si. Também é raro encaixar-se facilmente em frases feitas “a culpa é d@ outr@”. Muitas vezes é a expressão de um mal-estar interno intenso que não encontra expressão na relação com os outros.
Os comos e porquês de cada situação são únicos, mas o ciúme tem surgido como uma tentativa de deslocar o mal-estar para fora d@ própri@ e condensá-lo n@ outr@.
“A culpa não é minha é dela!” é mais fácil de gerir do que uma ansiedade que não se compreende. “Não fui eu que provoquei isto, foi ele!” faz mais sentido do que os momentos de descanso serem invadidos por medos sem motivo.

Este Conto dá um exemplo, de como o ciúme pode surgir numa vida como sintoma de um sofrimento mais complexo e confuso.

A ideia destes 𝑪𝒐𝒏𝒕𝒐𝒔 é dar a conhecer um pouco daquilo que acontece no mundo da 𝐏𝐬𝐢𝐜𝐨𝐥𝐨𝐠𝐢𝐚 𝐂𝐥í𝐧𝐢𝐜𝐚 através de histórias contadas pelos olhos de pessoas que precisaram de ajuda. Todas as histórias são inventadas, nunca são partilhadas informações sobre casos reais nem testemunhos.

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*Na sombra do ódio*

Uma história sobre as consequências de ter um pai ciumento

Quando eu era miúdo, os meus amigos achavam que eu f**ava insuportável quando namorava. Era um “cortes”, f**ava um chato, com a mania que sabia tudo. Nada disso me fazia sentido, achava normal que passasse mais tempo com a minha namorada. Achava que estavam com inveja.
Nos meus vintes tive duas namoradas de quem gostei mais, namorei um par de anos com cada. Isolei-me um bocado dos amigos de cada vez. Depois uma delas traiu-me e mais tarde a outra também.
Ambas me disseram que fui eu que as empurrei para isso, que os meus ciúmes eram sufocantes, não as deixava respirar. Eu chutei para canto, achei que era só conversa para se justif**arem.
Com 30 e poucos anos conheci uma miúda que eu achei que seria “a tal”, mas durou poucos meses e ela acabou comigo. Disse-me que nada justif**ava os meus comportamentos, os meus ciúmes, a minha obsessão. Ela disse-me aquilo com toda a calma do mundo, várias vezes, em pessoa e por escrito. Tentei convencer-me que ela tava a inventar para se justif**ar. Mas a pulga ficou a passear atrás da orelha, fazendo cada vez mais barulho.
Decidi entrar em contacto com as minhas ex-namoradas e pedi-lhes que me escrevessem tudo o que correu mal nas relações. Tive que insistir e prometer vezes sem conta que não iria contra-argumentar, que iria apenas aceitar a informação para tentar aprender. Ambas aceitaram. Ambas me disseram que eu precisava de ajuda e que se aquilo me ia pôr no caminho de procurar ajuda, então valia a pena.
Quando recebi os textos fiz das tripas coração para não lhes responder torto e agradeci apenas, consegui ser fiel às minhas promessas.
Falei com amigos meus, confirmaram-me tudo o que elas disseram. O pior era que eu não conseguia ver o que toda a gente parecia estar a ver.
Todos concordavam que eu era um tipo fixe, porreiro, amigo dos meus amigos, mas que assim que entrava uma mulher na minha vida, eu virava besta. Ficava a controlar o tempo todo, tinha montes de ciúmes, queria saber tudo o que elas estavam a fazer, quando, como, com quem…tudo o que não se deve fazer. Mas eu achava que fazia só o “normal”. Hoje sei que muito ou pouco, doente é doente!
Com estas informações comecei a estar atento:
Quando saía à noite e via alguma mulher que me interessasse, dava por mim a prestar mais atenção aos homens à volta dela, a querer controlar quem é que se aproximava. Percebi que isso não era novo em mim, mas nunca tinha percebido. Nas redes sociais o meu foco f**ava igualmente na “competição”. Tentei mudar-me e comecei a ter picos de ansiedade que não conseguia controlar, comecei a sentir a minha vida a sair dos eixos, comecei a sentir-me perdido e… assustado.
Acabei por procurar ajuda.
Comecei a ter consultas de psicologia clínica. Os primeiros tempos das consultas foram estranhos: foi um alívio, foi uma irritação, fez sentido, deixou-me furioso, enfim, um turbilhão.
Lá pelo meio das conversas comecei a perceber que algumas coisas que eu dava como certas, não eram certas, coisa nenhuma. Foi a minha experiência e moldou-me, mas o “certo” e o “errado” que eu tinha comigo era aleatório, fruto das aprendizagens com os meus pais.
O meu pai era o meu herói, não podia ser de outra forma, toda a família girava em torno dele. Hoje reconheço o narcisismo que na altura eu embelezava. Os meus pais divorciaram-se quando eu tinha 13 anos e a minha mãe saiu, foi-se embora. Eu quis f**ar com o meu pai. Fui vendo a minha mãe, mas fomo-nos afastando. Intoxiquei-me com as críticas que o meu pai lhe fazia. Que ela o tinha traído, que ela era isto, que ela era aquilo… enfim. Criei um molde de relacionamento para homens e mulheres com base no rancor de um homem que não soube amar e deixar-se ser amado. Herdei dele o medo da solidão apesar de nunca ter sentido grande solidão. Desliguei-me da compaixão da minha mãe, confundi-a com fraqueza.
Ora isto dito assim é tudo muito bonito, mas desmontei-me todo quando percebi estas coisas. Depois comecei a reconstruir-me, voltei a reatar ligações com a minha mãe, e com o meu padrasto, felizmente fui a tempo. Afastei-me das certezas rancorosas do meu pai que continua sozinho, escolha sua.
Hoje continuo a descobrir-me, tenho mais amigos e amigas. Gosto mais das pessoas. Tenho uma namorada e gosto imenso de dormir em paz mesmo nas noites em que ela sai. Dou mais valor à escolha que ela faz agora de continuar comigo, do que ao medo de que ela possa um dia não me escolher. Vivo agora, com o que é real, não com fantasias herdadas.

Quase desde o final de 2020 que não publicava um Conto Clínico novo. Parece que foi à uma eternidade que os escrevia sem...
08/02/2022

Quase desde o final de 2020 que não publicava um Conto Clínico novo. Parece que foi à uma eternidade que os escrevia semanalmente para partilhar.
2021 pôs-me em contacto com tantas pessoas, pedidos de ajuda e projectos, que foi necessário deixar para depois a escrita e a partilha de conteúdos. Abracei todos estes pedidos novos e foi extremamente recompensador a tantos níveis. Agora, com o ritmo mais pausado, apesar de todo o trabalho que continua a decorrer, a vontade de escrever voltou e então pela primeira vez em muito tempo, sai um Conto Novo. É uma história aparentemente simples, mas profundamente complexa para alguém que a viva.

Para quem não conhece (ou se esqueceu), a ideia destes Contos é dar a conhecer um pouco daquilo que acontece no mundo da Psicologia Clínica através de histórias contadas pelos olhos de pessoas que precisaram de ajuda. Todas as histórias são inventadas, nunca são partilhadas informações sobre casos reais nem testemunhos.

Foi com muito gosto que dei esta entrevista sobre como é trabalhar como Psicólogo Clínica para o podcast Time4Coffee da ...
27/04/2021

Foi com muito gosto que dei esta entrevista sobre como é trabalhar como Psicólogo Clínica para o podcast Time4Coffee da Link disponível na Bio

𝗔𝘀 𝗮𝗻𝗱𝗼𝗿𝗶𝗻𝗵𝗮𝘀 𝘃𝗼𝗹𝘁𝗮𝗿𝗮𝗺Todos os anos, desde há muito tempo, poucas coisas simbolizaram para mim a iminente chegada da pr...
25/02/2021

𝗔𝘀 𝗮𝗻𝗱𝗼𝗿𝗶𝗻𝗵𝗮𝘀 𝘃𝗼𝗹𝘁𝗮𝗿𝗮𝗺

Todos os anos, desde há muito tempo, poucas coisas simbolizaram para mim a iminente chegada da primavera como o aparecimento das andorinhas.

Ontem vi andorinhas pela primeira vez este ano. Trazem um toque de vida a estes estranhos tempos, também lembram que estamos nisto há mesmo muito tempo. Reencontrar a esperança depois de perdê-la pode ser difícil, mas quem sabe se algum optimismo cauteloso poderá ser sentido agora?

Tenho acompanhado histórias de pessoas que se viram emocionalmente “cruas”, já sem nada mais para dar a si mesmas, às suas famílias, companheiros e companheiras, mas que ainda assim continuaram a viver e reencontraram formas de serem elas próprias perante este normal impossível.

𝗝𝗮𝗺𝗮𝗶𝘀 𝗱𝗶𝗿𝗲𝗶 “ainda bem que isto aconteceu”, mas sinto-me grato por ter podido acompanhar estas histórias de resiliência reencontrada.

Não sei o que vem já aí, 𝘮𝘢𝘴 𝘢𝘴 𝘢𝘯𝘥𝘰𝘳𝘪𝘯𝘩𝘢𝘴 𝘷𝘰𝘭𝘵𝘢𝘳𝘢𝘮.

A hora mais negra da madrugada  precede os primeiros raios de sol.Esta é uma expressão que tenho lido a circular nas red...
25/01/2021

A hora mais negra da madrugada precede os primeiros raios de sol.

Esta é uma expressão que tenho lido a circular nas redes por estes dias. Preferia não saber de imediato do que se trata, preferia que o que está a acontecer não fosse verdade, que não viessem os mesmos relatos de tantos sítios diferentes. Mas é o momento em que estamos. Aos da linha da frente, resta desejar coragem e perseverança.
Aos outros, aos que nos vemos novamente fechados, no início por duas semanas, resta-nos fazer as pazes com as impossibilidades que se amontoam, as preocupações com os que adoeceram.
O que é que isto traz de novo aos temas abordados no consultório de psicologia clínica? Todos os temas que já existiam ganharam muito mais força, voltam a não competir por espaço com as mil distracções de uma vida activa.
A necessidade de ajuda psicológica tornou-se, a par e passo com estes eventos, comum.
Há muitos profissionais de psicologia no mercado, há abordagens que melhor se adaptam a cada pessoa, há a linha de apoio psicológico da Saúde 24.
É uma boa altura para procurar ajuda, se for caso para tal.

Há muito para dizer sobre o vazio, sobre o espaço entre as emoções, sobre o sítio onde nasce esse nada, as consequências...
28/09/2020

Há muito para dizer sobre o vazio, sobre o espaço entre as emoções, sobre o sítio onde nasce esse nada, as consequências desse não-espaço na história de uma pessoa, a ausência de algo que devia ter acontecido numa história e os signif**ados que, inconscientemente, são colados por cima desse buraco.

A história de hoje fala-nos de uma situação, no contexto da actual pandemia, em que esse nada voltou a entrar na vida de uma pessoa, numa altura em que já tinha sido esquecido.

Quantas pessoas não terão tido uma experiência parecida com esta em 2020?

Ecos no vazio
Uma história sobre o momento de viragem

Isto da pandemia está a ser um massacre. No final do ano passado eu achava que estava tudo bem na minha vida, estava casada com o meu marido há 4 anos, já nos conhecemos há 7. Vivíamos tranquilos, achava eu, sem stresses. Cada um trabalhava, tínhamos horários um bocado desencontrados, ao fim-de-semana fazíamos umas coisas engraçadas e quando íamos de férias corria bem. Que mais é que se quer na vida?
Depois começou o Covid. Passámos a trabalhar em casa, as compras vinham por encomenda, saíamos o mínimo possível e… demos em loucos.
Ao final de 3 semanas já não nos conseguíamos aturar um ao outro, saturámos completamente, já não havia conversa, não queríamos nem ver uma série juntos, nada. Mas vivemos num T2, não há muito por onde fugir.
O pior é que nem sequer havia assim uma grande preocupação nas nossas vidas, as empresas onde trabalhamos cresceram bastante com a pandemia, ninguém perto de nós ficou doente. Aparentemente a única coisa insuportável foi estarmos juntos, não conseguia entender.
Assim que acabou o confinamento, ele saiu de casa e não voltou, separámo-nos. Eu pensava que ia f**ar aliviada, mas final de 3 dias sozinha comecei a ter ataques de pânico. Fui duas vezes às urgências, fui medicada e levei receita para mais medicação. Acabava por não tomar a medicação nos dias seguintes porque não conseguia trabalhar sob o efeito delas e tinha medo que se não trabalhasse podia f**ar pior outra vez.
Falei com amigos e família, sentia-me um pouco melhor, mas depois à noite sentia-me impossivelmente mal. Não sabia o que se estava a passar. Nem queria estar com ele, não tinha saudades, mas não aguentava estar sozinha à noite. Liguei-lhe algumas vezes, mas ele disse-me que só não tinha saído mais cedo para isto não acontecer, agora que já estava a acontecer o mal já estava feito e ele não ia voltar. Senti-me mil vezes pior. Não fiquei chateada com ele, nada disso, fiquei só desesperada por estar sozinha.
Procurei ajuda, foi muito mais difícil do que eu pensava, dar esse primeiro passo, mas não tinha alternativa. Comecei a ter consultas de psicologia.
No início consegui ter 3 consultas por semanas. O psicólogo aceitou negociarmos um preço para eu poder ir tantas vezes, ele percebeu que eu estava mesmo a precisar.
No primeiro mês acho que não falei de mais nada, falava só como me sentia mal, como estava desesperada por estar sozinha, como não queria o meu ex-marido de volta a casa, mas queria alguém, qualquer pessoa servia.
O psicólogo conseguiu ajudar-me muito aí. Ajudou-me a começar a medicação, ajudou-me a ter coragem para procurar um psiquiatra com quem me sentisse à vontade, que me passasse uma medicação que não me deixasse “a babar-me”. Ajudou-me a não ligar a toda a gente que conhecia quando me sentia mal à noite. Ajudou-me a não ir atrás da ideia de meter qualquer pessoa em casa só para não estar sozinha. Enfim, ajudou-me a aguentar a pior pancada.
Depois comecei a acalmar e conseguimos começar a falar sobre mais coisas. Consegui começar a falar sobre a minha história, sobre a minha infância, sobre os sonhos que eu tinha para a vida, sobre todos os meus porquês. Acho que há tanto tempo que não pensava nestas coisas que quase me tinha esquecido quem é que eu era.
Sabem como quando eram crianças e gostavam de fazer desenhos, mas depois nunca mais desenharam nada? Depois um dia pegam num lápis e num papel e lembram-se dos desenhos que faziam na primária? Foi tipo isso que eu senti.
Redescobri uma coisa: em criança eu nunca sabia se estava segura. O meu pai era segurança, trabalhava de noite e a minha mãe era muito imprevisível. Eu nunca sabia se ela ia estar em casa quando eu saía da escola, não sabia se ela depois do jantar se ia lembrar de f**ar 2 horas ao telefone com a minha tia, ou se ia sair para beber café com a amiga dela que morava dois prédios ao lado, não sabia se ela ia estar cansada do trabalho e de mau humor ou se ia brincar comigo. Ela nunca me maltratou, mas eu sentia-me muito nervosa sempre que o sol se punha porque não sabia com o que é que contava. Eu sabia orientar-me sozinha e ela nunca estava longe, mas não sabia se podia contar com ela.
Depois fiz o que as crianças fazem: aprendi a tratar as minhas preocupações da mesma forma que ela, passei a fingir que não estavam lá. Empurrei para baixo e aprendi a ir empurrando tudo para baixo. Passei a concentrar-me nas coisas do dia-a-dia. Já na vida adulta foi fácil continuar a fazer isso: trabalhei sempre muito, às vezes 2 empregos, ia ao ginásio e juntava dinheiro para ir viajar sempre que possível. Quando conheci o meu ex-marido ele também era assim.
Demo-nos bem na companhia um do outro e na cama as coisas corriam bem, parecia-me que era o suficiente. Nunca me passou pela cabeça que isso não fosse paixão, nem sei o que é a tal paixão de que as pessoas falam.
Na quarentena esgotámos em 3 tempos todos os assuntos superficiais, todas as rotinas da treta e ficámos só com tudo aquilo que empurrámos para baixo. Afinal não somos compatíveis um com o outro. Eu nem sei se sou compatível comigo mesma, nem me conheço.
Mas foi quando ele saiu de casa que algum gatilho em mim disparou, voltei inconscientemente àquele momento da minha vida em que era uma criança assutada à espera da sua mãe. Parece que depois disso já não consegui empurrar mais nada para baixo.

E agora? Pois, não sei. Acho que só agora é que estou a começar a terapia, já não vou tantas vezes por semana, não estou em desespero, ando mais calma. Agora preciso de tempo para pensar em tudo o que estou a descobrir. Sinto-me 100 anos mais jovem porque estou constantemente a descobrir mais sobre mim mesma. Estou muito longe de ter tudo percebido, ainda tenho que lidar com muita coisa, mas consigo respirar quando estou sozinha e isso vale tudo!

Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.

14/09/2020

Como pedir ajuda em Psicologia:

No decorrer destes meses da pandemia, têm passado por aqui muitos pedidos de ajuda, seja de amigos que procuram apoio psicológico e me pedem para referenciar algum(a) profissional da área, seja de pessoas que querem contratar os meus serviços, seja de pessoas que sabem que estão de algum modo a precisar de ajuda mas não sabem que ajuda precisam. Muitos destes pedidos f**am sem resposta, não pela indisponibilidade dos profissionais, mas pela forma como os pedidos são feitos. É frequente os pedidos surgirem em momentos de crise, em momentos em que a pessoa está num estado de ansiedade/stress/desespero considerável e precisa que esse estado passe. Quando esse estado f**a menos intenso, pode surgir a ideia que afinal não é preciso ajuda. A verdade é que é nessa altura que faz mais sentido pedir ajuda, quando há espaço para pensar, abertura para criar pensamento crítico sobre o que se está a viver e se consegue pensar mais objectivamente sobre iniciar ou não um processo terapêutico.

Isto quer dizer que não faz sentido pedir ajuda em momentos de crise? Antes pelo contrário, existe agora, na linha Saúde 24, em Portugal, apoio psicológico por telefone, que poderá ser uma mais valia nessas situações.

No fio da navalhaUma história sobre amar e odiar a vidaAos 32 anos de idade já contava com 4 tentativas de suicídio.Se e...
13/09/2020

No fio da navalha
Uma história sobre amar e odiar a vida

Aos 32 anos de idade já contava com 4 tentativas de suicídio.
Se eu não gostava da vida? Antes pelo contrário, eu amava demais a vida, amava com uma intensidade tão forte que volta e meia queimava-me e não aguentava mais.
Não faz muito sentido, pois não? A mim também não fazia.
Havia uma coisa que eu fazia, eu queria imenso ter experiências intensas, sentir adrenalina, ir às festas mais loucas, etc., mas muitas vezes os meus amigos não alinhavam, eu f**ava frustrada, fazia-lhes a cabeça até alguém alinhar. Depois ia e eu exagerava sempre. Se íamos f**ar até às 5 da manhã, então eu queria esticar até às 09:00, se eu conhecesse algum rapaz interessante, queria conhecer mais, se havia alguma coisa para consumir, eu consumia demais. Parecia que eu só conseguia f**ar satisfeita depois de esgotar todas as possibilidades. Os amigos que alinhassem comigo costumavam arrepender-se porque alguém acabava a ter de tomar conta de mim. Eu não queria, dizia que não tinham nada que fazer isso, mas na verdade se não fosse essa companhia eu provavelmente nem ia à festa.
Depois f**avam chateados comigo, eu dizia que era porque eram fracos, cortes, sem espírito de aventura. Acreditava nas minhas palavras. Queria sempre mais, havia qualquer coisa ao virar da esquina, qualquer coisa incrível que eu ia descobrir, bastava tentar um pouco mais, ir um pouco mais além.
Quando tinha namorado também queimava as relações, queria tirar o máximo de proveito possível. Tinha experiências ousadas e provocantes com eles em sítios perigosos, exigia-lhes total dedicação, f**ava furiosa se pusessem o trabalho à minha frente, consumia-me de ciúmes, dava com eles em doidos basicamente. Quando me largavam eu f**ava furiosa, não lhes perdoava, mas depois arranjava forma de voltarem a mim e depois ignorava-os, tratava-os abaixo de lixo.
No meio destas coisas que eu fazia, os meus amigos e a minhas amigas gostavam muito de mim e eu delas, já os namorados… eu desfazia-os em bocados sem saber o que estava a fazer.
Quando as festas acabavam, quando desistia de algum rapaz, quando voltava de alguma viagem muito boa, eu sentia-me cansada, acabada, vazia. Completamente vazia, sentia que nada desta vida fazia sentido, nada valia a pena, nada cumpria qualquer propósito.
Aí era o inferno, afundava-me completamente, não fazia ideia como sair desse buraco, entrava em desespero. Nas boas alturas, era só uns dias, nas más durava umas semanas. Nas mesmo más…, mas mesmo más… eu acabava nas urgências do hospital. Comprimidos numa das vezes, pulsos na outra vez, enfim, formas de lá chegar não faltam.
Depois punham-me com medicação psiquiátrica. Eu odiava aquilo, não me sentia eu, f**ava tudo igual, tudo uma seca, os sintomas eram péssimos. Diziam-me que tinha de me adaptar e ajustar a medicação. Eu não conseguia. Eu não me explicava, não dizia o que estava a sentir, f**ava tão contrariada que não colaborava. Ao fim de um tempo desistia, andava ok uns tempos e depois recomeçava.
Quando fiz 30 anos foi o pior, estava oficialmente terminada a minha década dos 20. Meti na cabeça que aquele era o último ano, o ano do vale tudo, sem rédeas. E foi, se foi… tenho tantas histórias desse ano que até tenho vergonha. O ano acabou comigo no hospital, claro. Desta vez foi mesmo grave, convenceram-me a f**ar lá internada um tempo grande.
Quando saí senti, pela primeira vez, que talvez gostasse de continuar a viver, mas na verdade não sabia como fazê-lo.
Já tinha falado com muitos psiquiatras e psicólogos em hospitais, mas nunca tinha procurado ajuda a longo prazo. Recomendaram-me uma psicóloga, comecei a fazer terapia. Quando chegou a altura de eu querer desistir da medicação, ela ajudou-me a perceber o que estava a fazer e desta vez consegui mudar a estratégia, em vez de desistir mudei de psiquiatra e, com a ajuda das sessões de terapia, consegui ir explicando melhor os meus sintomas, a medicação foi sendo ajustada às minhas necessidades, à minha tolerância. Foi horrível, sim claro que foi, eu não gostava nada dos períodos de adaptação, mas com a ajuda fui-me sempre lembrando que eu queria melhorar, que já tinha tentado das outras formas e persisti, consegui seguir em frente.
Quando, ao final de muito, mas muito tempo, comecei a estabilizar, a terapia começou a f**ar diferente, consegui começar a falar de coisas mais profundas. Lembro-me de coisas que a minha mãe fez quando eu tinha 4 anos, coisas que o meu pai me disse aos 7. Eu pensava que estava tudo esquecido.
Tenho muitos traumas, sei que sim, se calhar reagi mal à vida. Mas estou finalmente no caminho de volta à vida, para longe da destruição. Descobri muito sobre mim na terapia, mas a maior mudança da minha vida foi quando decidi procurar ajuda pelo meu próprio pé, ninguém me podia ajudar antes disso.

Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.

Esquecida de mim, esquecida pelo tempoUma história sobre o peso de mil pequenos gestosSempre imaginei a velhice como uma...
06/09/2020

Esquecida de mim, esquecida pelo tempo
Uma história sobre o peso de mil pequenos gestos

Sempre imaginei a velhice como uma coisa que viria um dia depois, mais tarde, não hoje. Nunca imaginei que chegasse tão cedo, que me sentisse sozinha tão nova.
54 anos de idade não me parece uma boa idade para se ser velha, mas foi isso mesmo que eu senti. Sou mãe de 3 rapazes, o mais novo saiu agora de casa com 24 anos, o mais velho, 34, já tem duas filhas, adoro as minhas netas. Já não tenho nenhum deles cá em casa.
Eu e o meu marido damo-nos bem, ainda falta muito para a reforma. Mas não ter nenhum dos meus filhos ou netos cá em casa é uma coisa que me custa muito.
Quando o mais novo saiu, andei sem saber o que fazer. A casa parecia gigante, vazia, morta. Nós os dois não enchíamos os espaços todos. O que é que podia fazer agora? Esperar para morrer? Já, tão cedo?
O meu mais velho disse-me muitas vezes que eu não me podia meter demais na vida dele e das filhas, que me proibia. Aquilo custava-me muito ouvir, mas tá no direito dele, são as filhas dele, mesmo que eu não perceba.
Comecei a dar por mim, depois do jantar, sentada às escuras na sala, sem olhar para lado nenhum, até o meu marido ir encontrar-me, sem saber o que me dizer.
Comecei a fazer isso sempre que não tinha tarefas, f**ava sentada, imóvel, a olhar para todos os meus dias de ontem. Não sei dizer o que é que estava a sentir, acho que nada, mas não podia ser nada.
O meu marido, as minhas colegas e os meus filhos começaram a andar preocupados comigo, mandaram-me para um psiquiatra que disse que eu devia tomar antidepressivos. Não tomei, não me sentia triste. Tinha mais que fazer do que andar a tomar remédios se não estava doente.
Chatearam-me tanto a cabeça…, mas sou teimosa e não tomei. Umas das minhas noras arranjou o contacta de uma psicóloga que ajudou a mãe dela. Disseram-me que eu tinha de ir, eu disse que não ia, já por teimosia. Mas passadas umas semanas achei que seria bom ter um pouco de companhia e marquei uma consulta.
Não gostei muito da primeira vez, ela não dizia muito, parecia que era só eu que estava a fazer conversa. Ela perguntou-me se era isso que eu queria, se queria “fazer conversa” ou se gostava de poder dizer as coisas que me pesavam no coração.
Não respondi, mas acho que deixei cair uma lágrima, levantei-me e fui-me embora.
Depois voltei e continuei a voltar. Fiz uma coisa que nunca fiz, falei sobre mim, sobre o que estava mesmo a sentir, sobre o que tinha mesmo sentido na minha vida.
Parecia que estava a tirar anos de vida de cima…
Eu sabia que o meu filho mais velho não queria que me metesse na vida da família dele, das filhas dele, mas tinha desistido de perguntar porquê. Falei disso na terapia, durante muitas e muitas horas…. Respondi a inúmeras perguntas sobre o assunto. Comecei a perceber uma coisa que estava à vista de todos, menos de mim. De cada vez que eu comprei fraldas para lhes levar, comprava a marca que me parecia melhor, depois eles diziam-me que aquela marca dava alergia às miúdas. Da próxima vez que eu ia comprar, esquecia-me e comprava a mesma marca outra vez. Acho que fiz isto dezenas de vezes sem me aperceber. Às tantas o meu filho já só encolhia os ombros quando eu lhe levava outra embalagem. Não sei porque é que fazia isto.
Depois percebi que queria tanto ajudar a minha nora com as miúdas que me tornei chata. Insistia que ela devia fazer como eu fiz, dar as mesmas comidas, fazer a mesma rotina. Eu achava que estava a ajudar, não percebia porque é que ela se irritava tanto comigo. Agora vejo que eu não ouvia o que ela tinha para dizer, eu não ouvia que ela não queria as miúdas a comer certas marcas com excesso de açúcar, queria dar certas comidas só em certas idades e eu, a ser teimosa sem saber que era, contrariava em tudo o que ela dizia. Eu já tinha sido mãe há tanto tampo, era assim que se fazia. Agora percebo que, por eles, até se podia abrir excepções aqui e ali, mas eu queria fazer diferente em toda a ajuda que eu dava. Até que começaram a dizer-me para não ir lá ajudar, para não fazer, para não comprar as coisas, que não era preciso, etc.
Pensei muito tempo nisto, com ajuda, não é fácil, sentir-me rejeitada assim. Mas porque é que eu insistia em ser tão do contra? Porque é que queria as coisas à minha maneira? Sou avó, não sou mãe delas.
Acabei por isso percebendo que quando fui mãe, as coisas foram muito difíceis, não tive tempo de aproveitar cada um dos meus bebés com calma, havia sempre tanto para fazer, ninguém me ajudava, o meu marido trabalhava imenso, não havia cá dinheiro para amas ou empregadas, não havia internet para eu ir ver se as coisas faziam bem ou mal aos filhos. Comiam o que havia e pronto, eu tinha que me desenrascar sozinha, tive que aguentar aquilo tudo com um sorriso na cara para as vizinhas não dizerem que eu era preguiçosa.
Sem saber, eu pensava que com as netas eu ia ter tudo o que não tive com os meus filhos, mas não é assim. Elas têm a mãe delas, hoje sabem-se outras coisas que não se sabiam no meu tempo, há mais ajudas, há menos falta.
Para ser mãe, tive que deixar de ser outras coisas, senão não tinha dado. Mas nunca me prepararei para o dia em que não iam mais precisar de mim, em que a minha presença passasse a ser um peso na vida deles.
Foram aprendizagem dolorosas que fiz, naquelas conversas, mas aos poucos as coisas foram-me fazendo mais sentido. Fui visitar as minhas netas algumas vezes, tive atenção para não exagerar. Tem corrido bem, agora visito-as imenso, se me pedem para ajudar com alguma coisa, eu faço questão de escrever num papel que guardo para mim, para não me deixar enganar por mim mesma e ir ser do contra. Ouvir mais e opinar menos é um preço pequeno a pagar para estar mais tempo com a família. Na minha casa voltei a ler. Há anos que não lia. Vou sair mais. Até vamos jantar fora algumas vezes, já nem pensava voltar a fazer isso.
Os meus outros filhos ligam-me mais, vêm visitar mais vezes. Sinto-me tranquila com isso.
Assim que os deixei ir, passaram a estar mais presentes. Aprendi a não tentar segurar com tanta força, aprendi a confiar mais neles, afinal já não são crianças.
Já não me sinto velha, sinto-me bem.

Nenhum Conto Clínico é uma reprodução total ou aproximada de uma história real. Esta personagem é fictícia, foi vagamente construída a partir de situações clínicas, mas não representa de forma alguma uma pessoa real nem reproduz uma história real. Em contexto clínico todos os casos são tratados com confidencialidade total.

02/09/2020

Claustrofobia Emocional

Gostava que este tema não fosse relevante de momento, que esta expressão não ressoasse como familiar. A incerteza prevalece sobre quando haverá uma solução a longo prazo para o palavrão do momento e não sabemos se em breve haverá mais liberdade ou mais confinamento. O que sabemos é que estes meses em isolamento, seguidos da incerteza presente, têm tido um grande peso emocional nas famílias, nos indivíduos, nas relações. Como ter sempre paciência para crianças e adolescentes que precisam de uma vida mais livre? Como dizer que é melhor esperar, depois acreditar que talvez já tenha passado o pior e depois ver que pode ser preciso andar recuar nas medidas? Como criar romance num quotidiano em que tão pouca novidade pode entrar?
Não conheço uma fórmula universal. Na minha experiência destes meses vi que para alguns passou por uma total entrega ao trabalho, alternado com desporto, outros aceitaram a tristeza e deixaram-se chorar até se sentirem melhor, outros aprenderam novas formas de diálogo com maridos/mulheres, outros aprenderam a perdoar-se pelos seus estados emocionais e aceitar o perdão dos outros. A pequena certeza com que fui f**ando é que é impraticável pôr as emoções em pausa até isto passar porque não há data marcada.

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