22/07/2026
Quando procura a perfeição... mas ela não existe.
O perfeccionismo raramente se apresenta pelo seu verdadeiro nome.
Muitas vezes disfarça-se de responsabilidade, de rigor, de elevado sentido de dever ou de vontade de fazer sempre o melhor. Outras vezes esconde-se atrás do medo de falhar, da necessidade de controlar tudo, da dificuldade em delegar ou da sensação persistente de que nunca se é suficientemente bom.
À primeira vista, pode até parecer uma qualidade.
Mas, quando a perfeição deixa de ser uma preferência e passa a ser uma exigência, transforma-se numa prisão.
Quem vive preso a este padrão raramente desfruta das suas conquistas. Assim que termina uma tarefa, já está a pensar no que podia ter feito melhor. Um elogio perde força perante uma única crítica. Um sucesso é rapidamente esquecido porque a atenção permanece focada na pequena falha que ficou por corrigir.
E a frustração instala-se.
No trabalho, sente que nunca faz o suficiente.
Em casa, acredita que podia ter sido mais paciente, mais disponível ou mais organizado.
Nas relações, exige de si uma versão irrepreensível e culpa-se sempre que não corresponde às expectativas que criou.
Mas há um outro lado, muitas vezes menos evidente.
Quem exige perfeição de si tende, frequentemente, a exigir também dos outros.
Torna-se difícil aceitar o erro, a distração, a demora, a incompetência ou uma forma diferente de fazer as coisas. Pequenos lapsos podem ser vividos como grandes problemas. A sensação de que "se eu consigo fazer, os outros também deviam conseguir" alimenta irritação, impaciência e conflitos.
Sem intenção, as relações tornam-se mais pesadas.
As pessoas podem sentir que nunca correspondem, que estão constantemente a ser avaliadas ou que qualquer erro será motivo de crítica.
E, ironicamente, aquilo que começou por ser uma tentativa de garantir que tudo corre bem acaba por criar distância, desgaste e incompreensão.
Vale a pena perguntar:
A exigência que coloca sobre si e sobre os outros ajuda a construir... ou apenas aumenta o sofrimento?
Nem tudo o que não é perfeito está errado.
Nem tudo o que é diferente é incompetência.
E nem todos os erros têm o significado que lhes atribuímos no primeiro momento.
Aprender a flexibilizar estas interpretações é uma forma de diminuir a ansiedade e aumentar a qualidade de vida.
Algumas estratégias podem ajudar:
• Quando surgir o pensamento "isto não está bom o suficiente", pergunte-se: Que provas tenho de que não está suficientemente bom? O que diria a outra pessoa se tivesse feito exatamente este trabalho?
• Sempre que um erro acontecer, substitua a pergunta "Quem falhou?" por "O que podemos aprender com isto?"
• Observe se está a transformar um pequeno erro numa conclusão global sobre si ou sobre o outro.
• Experimente terminar tarefas quando estão competentes e funcionais, em vez de continuar a procurar uma perfeição que talvez nunca chegue.
• Recorde-se de que pessoas diferentes têm ritmos, capacidades e formas de agir diferentes. Esperar que todos respondam exatamente como responderia é criar expectativas que dificilmente serão cumpridas.
• No final de cada dia, identifique três aspetos que correram suficientemente bem. O cérebro habitua-se a procurar aquilo em que é treinado para reparar.
Procurar fazer bem é saudável.
Precisar que tudo seja perfeito é exaustivo.
A vida torna-se mais leve quando percebemos que o valor de uma pessoa não se mede pela ausência de erros, mas pela capacidade de aprender, adaptar-se e continuar a caminhar.
Porque a perfeição não aproxima ninguém.
A aceitação, a flexibilidade e a humanidade têm esse poder.
By
Elisabete Santos Pereira
Psicóloga Clínica