22/06/2026
A discussão sobre a integração da inteligência artificial na prestação de cuidados deve ser feita com rigor e sem preconceitos. A tecnologia tem potencial para melhorar a monitorização, a adesão terapêutica, a continuidade dos cuidados e o acesso à Fisioterapia. A questão nunca foi essa.
O que merece reflexão é a utilização do termo 'Fisioterapia' para designar modelos em que o Ato do Fisioterapeuta é reduzido a um programa de exercício, a um algoritmo ou a uma plataforma digital.
O Regulamento do Ato do Fisioterapeuta reconhece a Fisioterapia como uma disciplina científica autónoma e atribui ao fisioterapeuta a responsabilidade pelo início, condução e conclusão do processo de intervenção. Esse processo integra avaliação, diagnóstico em Fisioterapia, prognóstico, planeamento, intervenção, monitorização e reavaliação, sempre contextualizados na funcionalidade, participação, objetivos e contexto de vida da pessoa.
Também importa discutir o modelo de cuidados que se pretende para o SNS. O aumento do acesso é desejável, mas acesso não é sinónimo de qualidade. Sessões ilimitadas, acompanhamento massificado ou soluções altamente escaláveis não dispensam individualização, supervisão clínica, responsabilidade profissional e a garantia de segurança que apenas um Fisioterapeuta pode assegurar.
A própria evidência científica disponível deve ser analisada criticamente. Quando a totalidade dos estudos que suportam algo é produzida com envolvimento direto da empresa responsável por uma tecnologia, é legítimo (no mínimo...) questionar o impacto do financiamento, dos conflitos de interesse, do viés metodológico e do 'spin' na comunicação dos resultados.
Defender estes princípios não significa rejeitar a inovação. Significa exigir que a inovação respeite a definição da profissão, a autonomia do Fisioterapeuta, a abordagem biopsicossocial da funcionalidade e a proteção dos utentes.
A inteligência artificial pode ser uma excelente ferramenta para a Fisioterapia. Mas continua a ser isso: uma ferramenta.