21/07/2026
𝐀𝐥𝐠𝐮𝐞́𝐦 𝐜𝐨𝐧𝐬𝐞𝐠𝐮𝐞 𝐢𝐦𝐚𝐠𝐢𝐧𝐚𝐫 𝐨 𝐬𝐨𝐟𝐫𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐥𝐞𝐯𝐚 𝐮𝐦𝐚 𝐜𝐫𝐢𝐚𝐧𝐜̧𝐚 𝐚 𝐜𝐡𝐞𝐠𝐚𝐫 𝐚 𝐞𝐬𝐭𝐞 𝐩𝐨𝐧𝐭𝐨?
Uma criança de 11 anos pegar numa faca e esfaquear o próprio pai para defender a mãe não é um gesto “impulsivo”, é o último recurso de quem já viu e sentiu demasiado, demasiado cedo. É o corpo pequeno a tentar fazer o que tantos adultos e instituições não conseguiram: parar a violência, impedir que mais uma vez alguém que ama seja magoado diante dos seus olhos. Nesta idade, a pergunta nunca deveria ser “como é possível uma criança fazer isto?”, mas “como é possível ter sido empurrada até aqui sem que o sistema a tivesse protegido?”.
O que se está a passar em Portugal este ano?
Em 2025, foram registados 25 homicídios consumados em contexto de violência doméstica; em 2026, a 20 de julho, a informação indica que já chegámos aos 22 – 18 mulheres e 4 crianças –, como se estivéssemos a assistir, quase em direto, ao desmoronar da promessa básica de segurança que um país faz às pessoas que vivem dentro das suas fronteiras. Não estamos a falar de números abstratos, estamos a falar de vidas: de crianças que não voltam à escola, de mulheres cujo nome passa a integrar uma lista que cresce ano após ano, de famílias que se estilhaçam em segundos depois de anos de sinais ignorados. As estatísticas oficiais mostram quase 30 mil participações por violência doméstica em 2025, dezenas de milhares de vítimas, uma subida preocupante de casos envolvendo menores e um sistema que, apesar de muitos profissionais comprometidos, continua a deixar escapar pessoas entre as brechas.
Que variáveis estão a influenciar estes acontecimentos? Sabemos algumas: desigualdades de género que persistem, dependências económicas que encurralam, consumo de álcool e outras substâncias que amplif**am riscos, falhas na avaliação e gestão do risco, medidas de proteção que chegam tarde, respostas fragmentadas entre justiça, saúde, educação e proteção de crianças. Sabemos que os pedidos de ajuda aumentam, que as casas de abrigo acolhem cada vez mais mulheres e crianças, que as polícias recebem dezenas de denúncias por dia. Sabemos também que, nos primeiros três meses de 2026, morreram oito pessoas em contexto de violência doméstica, entre as quais duas crianças, e que, pela primeira vez, há mais crianças do que mulheres acolhidas em casas de abrigo. Tudo isto aponta na mesma direção: a violência doméstica não está a abrandar, está a atravessar gerações e a inscrever‑se nos corpos e nas histórias das crianças que hoje assistem, que hoje intervêm, que hoje carregam um peso que nunca deveria ser delas.
Mas existem variáveis que desconhecemos – ou que preferimos não ver. Quantos casos de controlo, humilhação, ameaças e terror quotidiano nunca chegam a ser registados? Quantas vezes é que a violência é tratada como “conflito conjugal”, quantas palavras f**am por dizer em consultórios, escolas, esquadras, serviços de saúde? Quantas decisões judiciais minimizam a perigosidade de quem, meses depois, comete um homicídio “inesperado”? E, sobretudo, quantas crianças vivem hoje em casas onde aprendem que amor e medo caminham lado a lado, que a porta de casa não é saída, mas prisão? Estas são variáveis invisíveis nas estatísticas, mas muito presentes na vida de quem sobrevive, todos os dias, num campo de batalha doméstico silencioso.
Sabemos, ainda, do silêncio do governo. Há comunicados, há planos, há relatórios, mas falta aquilo que, numa emergência, distingue a retórica da ação: uma voz clara, constante e comprometida ao mais alto nível político a dizer que isto é intolerável, que a violência doméstica e o homicídio em contexto de intimidade são prioridades nacionais, que haverá recursos, responsabilização e mudança estrutural. Em vez disso, vamos assistindo a um país onde os números sobem, as histórias se sucedem, as crianças continuam a morrer ou a matar para sobreviver, e o espaço público se habitua lentamente a estas notícias como se fossem inevitáveis. Não são inevitáveis. São o resultado da soma de escolhas, omissões e prioridades políticas. A pergunta que f**a, então, é esta: se uma criança de 11 anos foi capaz de fazer o impensável para tentar proteger a mãe, o que estamos nós – enquanto Estado, enquanto profissionais, enquanto sociedade – dispostos a fazer para garantir que nenhuma criança volta a ser empurrada para este abismo?
Alguém imagina o sofrimento desta criança?Infelizmente sei que muitas das pessoas que me seguem, passam ou passaram por isto.
Renascença