14/08/2026
Há uma doença que ainda não consta dos manuais de Medicina nem de Psicologia. Não aparece nas análises, não se vê numa ressonância magnética, não obriga a baixas médicas imediatas e, por isso mesmo, passa quase sempre despercebida. Curiosamente, quem sofre dela costuma ser elogiada. É competente, disponível, resiliente, organizada, generosa, uma “pessoa boazinha”.
Eu prefiro outro nome: a doença do depois. No consultório, ela chega quase sempre vestida de controlo. Mas senta-se em cansaço. Começa com uma frase que se repete com uma precisão inquietante: “Eu estou só cansada… mas não sei bem de quê.”
Não é um cansaço simples. É um cansaço com história longa. E reza sempre assim: “Depois descanso.” “Depois trato de mim.” “Depois mudo.” “Depois penso nisso.” “Depois volto a ser eu.” “Depois faço aquilo”. “Depois começo, finalmente, a viver.”
Não é dramático. É quase clínico. Diz coisas como: “Eu funciono… mas não sinto prazer.” “Eu faço tudo… mas já não sei o que gosto.” “Eu estou bem… mas não estou bem.” E depois surge outra frase que se repete, de novo, com uma inquietante precisão: “Eu nem sei quando foi que deixei de ser eu.” Não é um colapso. É uma erosão. Aos poucos, deixam de se ouvir. Deixam de se escolher. Deixam de se perguntar o que querem. E começam a viver num modo altamente eficiente de sobrevivência emocional.
Mas há uma forma mais simples de dizer isto: Quando deixamos de nos escolher durante demasiado tempo, o psiquismo começa a apagar-se por dentro. E o corpo acompanha.
Há mulheres que entram e dizem que funcionam bem, que dão conta de tudo, que não têm motivos objectivos para estar mal. E, no entanto, o corpo contradiz a narrativa. Insónia. Irritabilidade. Falhas de memória. Ansiedade difusa. Uma sensação constante de estar sempre em atraso — não com tarefas, mas consigo próprias.
Há um momento muito particular em consulta que conheço bem: o instante em que a mulher percebe que não está apenas cansada. Está desligada de si própria.
E talvez o mais difícil: a culpa de se escolher. Porque, para muitas mulheres, começar a existir para si próprias não é vivido como liberdade. É vivido como transgressão.
A vida não costuma dar licenças. A vida acontece. E continua. Mesmo quando não estamos presentes. E talvez um dia percebamos que não foi a vida que nos faltou. Foi presença nela. E o “depois”… foi apenas o nome elegante que demos a uma forma lenta de desaparecimento.
— A minha crónica deste mês – "A Doença do Depois" – está publicada na edição de Agosto da Revista LuxWoman , nas bancas.
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