A Psicóloga Sara

A Psicóloga Sara https://www.apsicologasara.com/ Ajudo-a(o) a despertar o poder de cura que há em si. Vamos junta(o)s? Olá a todos! Sejam bem-vindos!

No Dia do Psicólogo, resolvi criar esta página com o intuito de poder partilhar com todos a minha caminhada nestas tão nobres “artes” que são a Psicologia e a Psicoterapia. Aqui, poderão descobrir um pouco mais acerca dos grandes temas da psicologia, compreender melhor o que acontece em psicoterapia e conhecer mais do meu trabalho. Irei partilhar algumas coisas do que sei e faço para que outras pe

ssoas também se possam beneficiar com estas partilhas ao longo dos seus caminhos. Através desta página irei também publicar actividades e eventos nos quais participo ou que recomendo. Poderão também encontrar aqui muita informação, credível e validada, que ajude a um maior conhecimento sobre vós mesmos e ao processo de desenvolvimento pessoal. Estão todos convidados a participar e a deixar os vossos comentários e mensagens privadas, que eu terei todo o gosto em responder. Feliz Dia do Psicólogo, queridos!

Há uma doença que ainda não consta dos manuais de Medicina nem de Psicologia. Não aparece nas análises, não se vê numa r...
14/08/2026

Há uma doença que ainda não consta dos manuais de Medicina nem de Psicologia. Não aparece nas análises, não se vê numa ressonância magnética, não obriga a baixas médicas imediatas e, por isso mesmo, passa quase sempre despercebida. Curiosamente, quem sofre dela costuma ser elogiada. É competente, disponível, resiliente, organizada, generosa, uma “pessoa boazinha”.

Eu prefiro outro nome: a doença do depois. No consultório, ela chega quase sempre vestida de controlo. Mas senta-se em cansaço. Começa com uma frase que se repete com uma precisão inquietante: “Eu estou só cansada… mas não sei bem de quê.”
Não é um cansaço simples. É um cansaço com história longa. E reza sempre assim: “Depois descanso.” “Depois trato de mim.” “Depois mudo.” “Depois penso nisso.” “Depois volto a ser eu.” “Depois faço aquilo”. “Depois começo, finalmente, a viver.”

Não é dramático. É quase clínico. Diz coisas como: “Eu funciono… mas não sinto prazer.” “Eu faço tudo… mas já não sei o que gosto.” “Eu estou bem… mas não estou bem.” E depois surge outra frase que se repete, de novo, com uma inquietante precisão: “Eu nem sei quando foi que deixei de ser eu.” Não é um colapso. É uma erosão. Aos poucos, deixam de se ouvir. Deixam de se escolher. Deixam de se perguntar o que querem. E começam a viver num modo altamente eficiente de sobrevivência emocional.

Mas há uma forma mais simples de dizer isto: Quando deixamos de nos escolher durante demasiado tempo, o psiquismo começa a apagar-se por dentro. E o corpo acompanha.

Há mulheres que entram e dizem que funcionam bem, que dão conta de tudo, que não têm motivos objectivos para estar mal. E, no entanto, o corpo contradiz a narrativa. Insónia. Irritabilidade. Falhas de memória. Ansiedade difusa. Uma sensação constante de estar sempre em atraso — não com tarefas, mas consigo próprias.

Há um momento muito particular em consulta que conheço bem: o instante em que a mulher percebe que não está apenas cansada. Está desligada de si própria.

E talvez o mais difícil: a culpa de se escolher. Porque, para muitas mulheres, começar a existir para si próprias não é vivido como liberdade. É vivido como transgressão.

A vida não costuma dar licenças. A vida acontece. E continua. Mesmo quando não estamos presentes. E talvez um dia percebamos que não foi a vida que nos faltou. Foi presença nela. E o “depois”… foi apenas o nome elegante que demos a uma forma lenta de desaparecimento.

— A minha crónica deste mês – "A Doença do Depois" – está publicada na edição de Agosto da Revista LuxWoman , nas bancas.

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Há lutos de que ninguém fala. Não exigem flores, nem velórios, nem mensagens de condolências. São os lutos das vidas que...
31/07/2026

Há lutos de que ninguém fala. Não exigem flores, nem velórios, nem mensagens de condolências. São os lutos das vidas que não vivemos. Da profissão que não seguimos. Da casa onde nunca morámos. Da pessoa que poderíamos ter amado. Da coragem que não encontrámos. Da mulher — ou do homem — que poderíamos ter sido. Crescer é escolher. Mas escolher implica sempre deixar morrer alguma coisa.

Quando dizemos "sim" a uma vida, dizemos inevitavelmente "não" a muitas outras.

A mudança que nunca fizemos parece a solução para todos os problemas. Mas esquecemo-nos de que toda a vida contém dor. Toda. Porque ninguém consegue construir uma vida inteira enquanto permanece dividido entre a realidade e a fantasia. E talvez seja precisamente aqui que reside um dos grandes paradoxos da maturidade: para abraçar plenamente uma vida, precisamos primeiro de fazer o luto das outras.

Precisamos aceitar que nunca seremos todas as pessoas que poderíamos ter sido. Precisamos abandonar a ideia de uma escolha perfeita. Precisamos reconhecer que toda a vida é, inevitavelmente, uma colecção de presenças e de ausências.

A maioria das pessoas acredita que sofre pelo que perdeu. Mas e se sofresse, sobretudo, pelo que nunca chegou a ter?
Nesta crónica que escrevi para a Revista LuxWoman reflecti sobre as vidas paralelas que imaginamos, as escolhas que nos definem e o difícil — mas libertador — exercício de fazer o luto das possibilidades que ficaram para trás.

– A minha crónica de Julho para a está disponível online aqui 👉 https://www.luxwoman.pt/a-vida-que-nao-aconteceu/

Há lutos de que ninguém fala. Não exigem flores, nem velórios, nem mensagens de condolências. São os lutos das vidas que...
16/07/2026

Há lutos de que ninguém fala. Não exigem flores, nem velórios, nem mensagens de condolências. São os lutos das vidas que não vivemos. Da profissão que não seguimos. Da casa onde nunca morámos. Da pessoa que poderíamos ter amado. Da coragem que não encontrámos. Da mulher — ou do homem — que poderíamos ter sido. Crescer é escolher. Mas escolher implica sempre deixar morrer alguma coisa.

Quando dizemos "sim" a uma vida, dizemos inevitavelmente "não" a muitas outras.

A mudança que nunca fizemos parece a solução para todos os problemas. Mas esquecemo-nos de que toda a vida contém dor. Toda. Porque ninguém consegue construir uma vida inteira enquanto permanece dividido entre a realidade e a fantasia. E talvez seja precisamente aqui que reside um dos grandes paradoxos da maturidade: para abraçar plenamente uma vida, precisamos primeiro de fazer o luto das outras.

Precisamos aceitar que nunca seremos todas as pessoas que poderíamos ter sido. Precisamos abandonar a ideia de uma escolha perfeita. Precisamos reconhecer que toda a vida é, inevitavelmente, uma colecção de presenças e de ausências.

A maioria das pessoas acredita que sofre pelo que perdeu. Mas e se sofresse, sobretudo, pelo que nunca chegou a ter?

Nesta crónica que escrevi para a Revista LuxWoman reflecti sobre as vidas paralelas que imaginamos, as escolhas que nos definem e o difícil — mas libertador — exercício de fazer o luto das possibilidades que ficaram para trás.

— A minha crónica deste mês – "A Vida Que Não Aconteceu" – está publicada na edição de Julho da , nas bancas.

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Talvez uma das verdades mais desconfortáveis — e ao mesmo tempo mais libertadoras — seja esta: seremos sempre julgadas. ...
27/06/2026

Talvez uma das verdades mais desconfortáveis — e ao mesmo tempo mais libertadoras — seja esta: seremos sempre julgadas. Sempre. Independentemente do que façamos, da forma como amamos, trabalhamos, cuidamos, falhamos, tentamos outra vez. Há sempre uma leitura. Uma interpretação. Um rótulo prontíssimo a colar. Se estamos sozinhas, somos exigentes demais. Se ficamos numa relação, somos permissivas. Se choramos, somos frágeis. Se não choramos, somos frias. Se falamos, exageramos. Se nos calamos, consentimos. A régua nunca falha — apenas muda de mãos.

E no meio disto, há uma armadilha psicológica particularmente perversa: a ideia de que, se formos ajustando o suficiente — se formos limando arestas, moderando intensidades, escolhendo melhor as palavras, os tempos, os gestos — um dia vamos escapar ao julgamento. Um dia vamos acertar. Um dia vamos ser validadas de forma limpa, inequívoca, sem ressalvas.

Sabe que mais? Esse dia não chega. Porque o julgamento não está apenas “lá fora”. Ele instala-se. Interioriza-se. Pior: internaliza-se. Ganha voz própria. Transforma-se naquele comentário silencioso que nos acompanha: “não devias ter dito isto assim”, “estás a ser demais”, “cuidado, podem achar que…”, atenção, deves achar que…”. É o superego a fazer horas extraordinárias, muitas vezes com uma sofisticação impressionante. E, de repente, já não precisamos de ninguém a apontar o dedo — fazemos isso sozinhas, com uma eficácia “profissional”.

O julgamento do outro não pode nem deve continuar a ser o principal organizador da nossa vida interna. Que não podemos continuar a negociar quem somos em função de como poderemos ser percebidas. Que há um custo demasiado alto em viver permanentemente orientadas pelo olhar alheio. E que esse custo, muitas vezes, é a perda de autenticidade e de ar para respirar.

Isto não significa viver em oposição. É tolerar a tensão de não ser totalmente aprovada. É aceitar que haverá sempre alguém a achar que estamos a fazer demais… ou de menos. Nunca o bastante.
Há algo profundamente elegante — e aqui sim, verdadeiramente sofisticado — numa mulher que se autoriza a ser sem pedir licença constante.

Porque quando deixamos de tentar agradar a todos, algo curioso acontece: começamos, finalmente, a viver. Mais a sério. Com mais verdade, mais presença, mais textura.

– A minha crónica de Junho para a está disponível online aqui 👉 https://www.luxwoman.pt/seremos-sempre-julgadas-entao-mais-vale-viver

Quando uma filha cresce a ser o ombro oficial da casa, o porto de abrigo emocional, a intérprete certificada de silêncio...
31/05/2026

Quando uma filha cresce a ser o ombro oficial da casa, o porto de abrigo emocional, a intérprete certificada de silêncios e suspiros, instala-se nela um fenómeno discreto e devastador: o adiamento crónico de si mesma. Reguladora emocional em part-time que rapidamente assinou contrato vitalício — sem ler as letras pequenas. Ninguém nos diz que ser “a forte” pode ser só uma criança a sobreviver “bem demais”.

A psicologia tem nomes pouco poéticos para isto: inversão de papéis, parentificação emocional, fronteiras difusas. Na prática? A filha torna-se apoio emocional da mãe. A criança aprende que amar é proteger quem a devia proteger. Parece nobre. Quase cinematográfico. Mas cobra juros altos na vida adulta. Porque uma filha não pode ser mãe da própria mãe sem amputar partes de si mesma. Sem arquivar desejos na pasta do “logo se vê”. Sem sentir culpa por descansar. Sem achar que existir plenamente é uma forma de deserção afectiva.

O problema nunca foi amar muito. Foi amar anulando-se com garbo. F**ar exposta a queixas para as quais a idade ainda não tinha tradução — como quem tenta suster uma barragem com as próprias mãos. Mediar conflitos conjugais que não eram seus como árbitra sem apito. Carregar segredos densos demais para ombros em crescimento. Sentir que o humor da mãe dependia do seu desempenho emocional — da palavra certa, do silêncio certo, da presença certa. Isto não é intimidade. É responsabilidade emocional deslocada. É um cargo invisível numa empresa chamada Família Lda., onde o organigrama afectivo ninguém ousa redesenhar. Ninguém nos ensina o essencial: amar não é absorver, amar não é resolver, amar não é ficar por lealdade à dor. Amar também é limite. Distância saudável. Respirar fora da história da mãe sem queimar a ponte.

Quando cada uma regressa ao seu lugar, o vínculo não se quebra — depura-se. Como um vidro finalmente lavado. Sai o ruído. F**a o afecto. Sai a culpa. F**a efectivamente o amor. A escolha. Porque quando cada uma regressa ao seu lugar, o vínculo não se quebra. Clarifica-se. Sai o peso. F**a o afecto. E, pela primeira vez, a relação torna-se leve, adulta, possível.

– A minha crónica de Maio para a Revista LuxWoman está disponível online aqui 👉 https://www.luxwoman.pt/entre-o-colo-e-a-culpa-maes-filhas-e-o-silencio-que-nos-prende/

Maio chega sempre com frases em caligrafia emocional do tipo “amor incondicional”, “colo eterno”, “a melhor mãe do mundo...
14/05/2026

Maio chega sempre com frases em caligrafia emocional do tipo “amor incondicional”, “colo eterno”, “a melhor mãe do mundo”. E atenção: eu acredito nesse amor. Profundamente. Vivo-o na pele e na biografia — sou filha do colo que me formou e mãe dos colos que hoje ofereço. Mas também acredito que tudo o que é sagrado demais deixa de ser questionado — e o que não se questiona ganha bolor de verdade absoluta.

Há silêncios que se herdam como o serviço de jantar da família. Ninguém escolheu, mas estão lá. E um desses silêncios mora na relação (complexa) entre mães e filhas: a ideia de que amar é ser leal à dor, é encolher-se para não incomodar, ouvir, compreender, estar sempre. Não falhar. Não cansar. Não ocupar espaço. Não dizer.

Muitas vezes, isso foi apenas lealdade à dor de uma mãe. Uma lealdade funda, quase uterina, que nos ensinou a confundir empatia com auto-abandono.

Há mães que sofreram o suficiente para escrever três romances russos e ainda sobrar tragédia para um spin-off. Mulheres que engoliram frustrações com o pequeno-almoço, que transformaram cansaço em competência, que sobreviveram a relações estreitas, trabalhos ingratos, abusos e negligências demorados e sonhos adiados numa prateleira alta demais. Mulheres que foram fortes porque não tiveram outra escolha. Mulheres que merecem respeito, muito, ternura, descanso e um abraço.

Mas — e este “mas” é importante — respeito não é fusão emocional. E amor não é herdar o peso que não nos pertence como se viesse costurado no ADN.

Quando uma filha cresce a ser o "ombro oficial" da casa, o porto de abrigo emocional da mãe, instala-se nela um fenómeno discreto e devastador: o adiamento crónico de si mesma. Aprende a escutar antes de sentir. A acolher antes de escolher. A compreender antes de existir. Vai ficando para depois, como quem guarda a melhor roupa para um dia que nunca virá.

Porque algures no inconsciente dessa filha escreve-se, em letras garrafais: se eu estiver bem demais, estou a trair quem sofre. Se eu for leve, sou egoísta. Se eu brilhar, ofusco. Se eu for feliz à séria, alguém paga a conta emocional. E assim nascem mulheres exemplares por fora e exaustas por dentro. Mulheres eficientes, produtivas, disponíveis, afinadas com as necessidades de toda a gente — menos com as próprias. Mulheres que sabem tudo sobre os outros e quase nada sobre si. A psicologia tem nomes pouco poéticos para isto: inversão de papéis, parentificação emocional, fronteiras difusas, codependência emocional. Na prática? A filha parece carregar e incorporar uma dor que não é originalmente sua. A criança aprende que amar é proteger e cuidar quem a devia proteger e cuidar. Parece nobre. Quase cinematográfico. Mas cobra juros altos na vida adulta. Porque uma filha não pode ser mãe da própria mãe sem amputar partes de si mesma.

Nesta crónica que escrevi para a Revista LuxWoman procuro evidenciar que nem todo o amor que nos ensinaram é leve. Muitas filhas carregam dores que não lhes pertencem. Há silêncios que passam de mãe para filha sem nunca serem conversados. Esta é uma crónica sobre lealdades invisíveis, papéis trocados e o dia em que percebemos que cuidar não pode significar desaparecer. Se é filha, isto toca-lhe. Se é mãe, talvez a transforme.

— A minha crónica de Maio – "Entre o Colo e a Culpa – mães, filhas e o silêncio que nos prende" – está publicada na edição deste mês, nas bancas.

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O cérebro humano ama previsibilidade. Mesmo quando essa previsibilidade é infeliz. O conhecido, ainda que doloroso, ofer...
30/04/2026

O cérebro humano ama previsibilidade. Mesmo quando essa previsibilidade é infeliz. O conhecido, ainda que doloroso, oferece sensação de controlo. O novo, ainda que libertador, activa incerteza. É por isso que tantas mulheres permanecem fiéis a versões que já não lhes servem. Não por falta de inteligência ou coragem, mas porque abandonar um padrão implica atravessar um vazio. E o vazio assusta.

Há algo profundamente perturbador em admitir: “Eu já não quero ser essa mulher.” Porque essa mulher construiu relacionamentos, reputação, identidade social. Foi elogiada por ser forte, resiliente, disponível, compreensiva, multitarefa, agregadora, “boazinha”…

E aqui reside uma das armadilhas mais sofisticadas da liberdade feminina: o elogio pode ser uma coleira dourada.

Quando a força se torna obrigação, a resiliência passa a ser silêncio. Quando a empatia vira auto-abandono, a maturidade é apenas supressão emocional. Muitas mulheres são recompensadas por tolerar mais do que deveriam. E isso cria uma identidade baseada na capacidade de aguentar.

Mas aguentar não é o mesmo que estar livre.

A verdadeira liberdade talvez comece quando deixamos de nos orgulhar daquilo que nos adoece. Quando paramos de romantizar a mulher que “dá conta de tudo”. Quando reconhecemos que dizer “eu sou assim” pode ser apenas uma forma elegante de evitar o risco de mudar.

Mudar não é ‘instagramável’. Não tem filtros bonitos. Tem noites de dúvida, silêncios constrangedores e aquela sensação estranha de não saber exactamente quem se está a tornar. Já acompanhei mulheres que perderam relações ao mudarem. E, ainda assim, meses depois diziam: “Doeu. Mas eu voltei a respirar.”

Talvez a pergunta mais honesta que possamos fazer não seja “Eu sou assim?”, mas “Eu continuo a querer ser assim?”

Se a resposta for não, há trabalho a fazer. E isso é uma boa notícia. Porque significa que estamos vivas. Em movimento. Em processo.

Algumas versões de nós precisam morrer. Não por fracasso. Mas por evolução. E talvez a forma mais radical de liberdade feminina não seja provar que somos fortes — mas permitir-nos transformar.

– A minha crónica de Abril para a está disponível online aqui 👉 https://www.luxwoman.pt/a-liberdade-de-deixar-de-ser-quem-fomos

O cérebro humano ama previsibilidade. Mesmo quando essa previsibilidade é infeliz. O conhecido, ainda que doloroso, ofer...
24/04/2026

O cérebro humano ama previsibilidade. Mesmo quando essa previsibilidade é infeliz. O conhecido, ainda que doloroso, oferece sensação de controlo. O novo, ainda que libertador, activa incerteza. É por isso que tantas mulheres permanecem fiéis a versões que já não lhes servem. Não por falta de inteligência ou coragem, mas porque abandonar um padrão implica atravessar um vazio. E o vazio assusta.

Há algo profundamente perturbador em admitir: “Eu já não quero ser essa mulher.” Porque essa mulher construiu relacionamentos, reputação, identidade social. Foi elogiada por ser forte, resiliente, disponível, compreensiva, multitarefa, agregadora, “boazinha”…

E aqui reside uma das armadilhas mais sofisticadas da liberdade feminina: o elogio pode ser uma coleira dourada.

Quando a força se torna obrigação, a resiliência passa a ser silêncio. Quando a empatia vira auto-abandono, a maturidade é apenas supressão emocional. Muitas mulheres são recompensadas por tolerar mais do que deveriam. E isso cria uma identidade baseada na capacidade de aguentar.

Mas aguentar não é o mesmo que estar livre.

A verdadeira liberdade talvez comece quando deixamos de nos orgulhar daquilo que nos adoece. Quando paramos de romantizar a mulher que “dá conta de tudo”. Quando reconhecemos que dizer “eu sou assim” pode ser apenas uma forma elegante de evitar o risco de mudar.

Porque mudar implica desaprender.

Mudar não é ‘instagramável’. Não tem filtros bonitos. Tem noites de dúvida, silêncios constrangedores e aquela sensação estranha de não saber exactamente quem se está a tornar. Já acompanhei mulheres que perderam relações ao mudarem. E, ainda assim, meses depois diziam: “Doeu. Mas eu voltei a respirar.”

Liberdade não é apenas ter opções externas. É ter plasticidade interna.

Talvez a pergunta mais honesta que possamos fazer não seja “Eu sou assim?”, mas “Eu continuo a querer ser assim?”

Se a resposta for não, há trabalho a fazer. E isso é uma boa notícia. Porque significa que estamos vivas. Em movimento. Em processo.

Algumas versões de nós precisam morrer. Não por fracasso. Mas por evolução. E talvez a forma mais radical de liberdade feminina não seja provar que somos fortes — mas permitir-nos transformar.

— A minha crónica de Abril – "A Liberdade de deixar de ser quem fomos" – está publicada na edição deste mês da

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Há uma liberdade nova, é verdade. E ela convive com vozes antigas que não se calam assim tão facilmente. Muitas mulheres...
01/04/2026

Há uma liberdade nova, é verdade. E ela convive com vozes antigas que não se calam assim tão facilmente. Muitas mulheres vivem hoje numa espécie de dupla cidadania psíquica: por fora, independentes, competentes, informadas; por dentro, ainda habitadas por culpas, medos e lealdades invisíveis a um sistema que as ensinou a não incomodar, a não pedir demais, a não ocupar demasiado espaço.

Romper com tudo isto não é simples nem romântico. A liberdade feminina não é confortável — e talvez por isso seja tão ameaçadora. Implica perder aprovação. Desiludir expectativas. Revisitar histórias antigas. Olhar para as mulheres que vieram antes de nós — mães, avós — e reconhecer nelas não só modelos, mas também sobreviventes de um mundo que lhes pediu silêncio e auto-alienação.

Aqui, o trabalho psicoterapêutico pode ser profundamente transformador. Não porque “conserta” as mulheres — mas porque lhes devolve espaço interno. Em terapia, muitas mulheres começam por objectivos aparentemente simples: reduzir ansiedade, dormir melhor, melhorar relações. Com o tempo, surgem metas mais profundas: aprender a colocar limites sem culpa, reconhecer e validar emoções, recuperar o contacto com o corpo, integrar raiva de forma saudável, construir escolhas alinhadas com valores próprios — e não apenas com expectativas externas.

Ser mulher hoje é aprender a desobedecer sem se perder. A criar novas formas de existir que não passem nem pela submissão nem pela imitação de modelos masculinos igualmente exaustos. Não queremos igualdade se isso significar apenas viver como homens cansados num sistema que adoece toda a gente. Repito: toda a gente!

O feminino não é fraco — foi “só” enfraquecido. E talvez esteja na hora de o recuperar sem o romantizar, sem o enrijecer, sem o tornar mais uma performance.

Afinal, quando foi que aprendemos a achar normal o que sempre doeu?

– A minha crónica de Março para a está disponível online aqui 👉 https://www.luxwoman.pt/o-problema-nao-e-sermos-mulheres-e-o-que-fizeram-disso

Ser mulher nunca foi apenas uma condição biológica. Durante séculos, ser mulher foi um exercício de contenção, foi repre...
19/03/2026

Ser mulher nunca foi apenas uma condição biológica. Durante séculos, ser mulher foi um exercício de contenção, foi representar bem. Um papel afinado entre submissão e silêncio, competência e contenção, desejo em surdina e ambição em modo avião. Nada disto era “natural” — era treino social com aplauso garantido. Chamaram-lhe "virtude". Muitas vezes era apenas sobrevivência bem coreografada.

Dizem-nos que tudo mudou. Mudou, sim — mas por dentro ainda ecoam vozes antigas. A mulher do século XXI é independente por fora e exausta por dentro. Trabalha como se não tivesse filhos, cuida como se não tivesse trabalho e sorri como se não tivesse limites. Não está necessariamente infeliz — mas está permanentemente em esforço.

A Psicologia é clara: a sobrecarga feminina é crónica. Papéis múltiplos, responsabilidade emocional invisível, necessidades próprias adiadas até segunda ordem. Aprendemos a cuidar de todos com mestria — e a abandonar-nos com eficiência. Chamam-lhe "força". O corpo discorda. A mente também.

O corpo, aliás, sempre foi campo de batalha: escrutinado, corrigido, domesticado, "pasteurizado". Livre, mas com moderação. Desejável, mas não desejante. Hoje veste-se de “auto-cuidado” e “wellness”, mas continua a ser vivido como projecto infinito de melhoramento — raramente como casa aonde se pode simplesmente regressar e estar.

A revolução real é muitas vezes silenciosa: descansar sem culpa, dizer “não” sem rodapé explicativo, ocupar espaço sem pedir licença. Ser mulher pode estar finalmente a deixar de ser performance para voltar a ser presença.

O feminino não é fraco — foi “só” enfraquecido. E talvez esteja na hora de o recuperar sem o romantizar, sem o enrijecer, sem o tornar mais uma performance.

Neste mês de Março, em que assinalamos o Dia Internacional da Mulher, talvez a pergunta já não seja “o que é ser mulher?”, mas antes: o que estamos finalmente dispostas a deixar de ser?

— A minha crónica de Março – "O problema não é sermos mulheres — é o que fizeram disso" – está publicada na edição deste mês da , nas bancas.

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