A Psicóloga Sara

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A Psicóloga Sara https://www.apsicologasara.com/ Ajudo-a(o) a despertar o poder de cura que há em si. Vamos junta(o)s? Olá a todos! Sejam bem-vindos!

No Dia do Psicólogo, resolvi criar esta página com o intuito de poder partilhar com todos a minha caminhada nestas tão nobres “artes” que são a Psicologia e a Psicoterapia. Aqui, poderão descobrir um pouco mais acerca dos grandes temas da psicologia, compreender melhor o que acontece em psicoterapia e conhecer mais do meu trabalho. Irei partilhar algumas coisas do que sei e faço para que outras pessoas também se possam beneficiar com estas partilhas ao longo dos seus caminhos. Através desta página irei também publicar actividades e eventos nos quais participo ou que recomendo. Poderão também encontrar aqui muita informação, credível e validada, que ajude a um maior conhecimento sobre vós mesmos e ao processo de desenvolvimento pessoal. Estão todos convidados a participar e a deixar os vossos comentários e mensagens privadas, que eu terei todo o gosto em responder. Feliz Dia do Psicólogo, queridos!

Há textos que terminam quando os publicamos.E há textos que, por qualquer razão, f**am.Esta foi a minha última crónica p...
30/09/2026

Há textos que terminam quando os publicamos.
E há textos que, por qualquer razão, f**am.

Esta foi a minha última crónica publicada na LuxWoman, edição de Setembro de 2026.

Entretanto, a revista — com a Equipa e a Direcção Editorial que eu conheci — chegou ao fim — abruptamente, como às vezes chegam ao fim certas coisas que julgávamos ainda ter tempo para continuar — e o site deixou de estar disponível. Com ele, desapareceu também o arquivo de uma colaboração que acompanhei durante anos, feita de palavras, mulheres, inquietações, humor, provocação, pensamento, sentimento e muitas páginas.

Por isso, esta crónica já não pode ser lida no lugar onde nasceu.

Mas pode ser lida aqui. 👇

Partilho-a não apenas como quem recupera um texto, mas como quem guarda um pedaço de uma história que foi real. Uma história profissional e, também, profundamente pessoal: a de ter encontrado naquela revista — e, em particular, na pessoa da minha estimada Leonor Antolin Teixeira, então directora editorial deste projecto — um espaço onde a minha voz podia ser exactamente aquilo que gosto que ela seja: minha, inquieta, incómoda quando precisa, terna quando merece, irónica quando convém e, sobretudo, livre.

É, portanto, a minha última crónica na LuxWoman.

E não queria deixar de agradecer a toda a maravilhosa equipa com a qual tive o gosto de colaborar e privar, mas em particular à Leonor Antolin Teixeira, que durante estes quatro anos de parceria foi directora editorial deste projecto e, sobretudo, alguém que reconheceu a minha voz e lhe deu espaço para ser e estar, sem medo de pensar alto.

Obrigada, Leonor, por esse espaço, pela confiança e por estes quatro anos de palavras partilhadas. ❤️🩷💜

E talvez seja também uma forma bonita de não deixar que um arquivo desaparecido leve consigo aquilo que escrevemos nele.

Aqui f**a. 🩷

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SETEMBRO NÃO É UM RECOMEÇO. É UM REGRESSO A SI

Setembro chega com a promessa irresistível de um reset: nova rotina, novos objectivos, nova versão de nós. Mas e se essa obsessão por mudar for, tantas vezes, apenas uma forma sofisticada de fugir ao que realmente sentimos?

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Há qualquer coisa de quase infantil na forma como esperamos por Setembro. Como se Agosto fosse uma espécie de parêntesis e Setembro viesse, pontualmente, devolver-nos a vida — mas uma vida melhor. Mais organizada. Mais saudável. Mais produtiva. Mais disciplinada. Mais parecida com aquela mulher que imaginámos que seríamos quando finalmente tivéssemos tudo sob controlo.

Em Setembro vamos ao ginásio. Em Setembro começamos a dieta. Em Setembro acordamos mais cedo. Em Setembro organizamos a agenda. Em Setembro retomamos aquele projecto. Em Setembro deixamos de procrastinar. Em Setembro pomos a vida em ordem.

E, de preferência, pomos também o corpo, a casa, a carreira, a relação, os filhos, a alimentação, o sono e a cabeça. Tudo isto, naturalmente, antes do dia 15.

Há qualquer coisa de profundamente sedutora nesta fantasia de recomeço. Eu própria reconheço essa tentação: a ideia de que uma mudança de calendário pode produzir a sensação de que também nós mudámos. Que uma página nova pode, de alguma maneira, apagar o cansaço da anterior.

Talvez seja por isso que Setembro tenha este estranho poder psicológico. Não é apenas o mês do regresso. É o mês da promessa. A promessa de que desta vez vamos conseguir.

Mas conseguir o quê, exactamente?

É uma pergunta que me ocorre cada vez mais. Porque talvez não precisemos de começar tudo de novo. Talvez precisemos parar. Parar o suficiente para perceber de que estamos, afinal, a fugir.

Vivemos numa cultura que nos ensinou a responder ao desconforto com acção. Estamos cansadas? Organizamos melhor o tempo. Estamos ansiosas? Fazemos uma lista. Estamos insatisfeitas? Estabelecemos objectivos. Sentimo-nos perdidas? Criamos um plano. Não sabemos o que fazer da nossa vida? Fazemos um 'vision board.'

E não há nada de errado com agendas, objectivos, ginásios ou listas de tarefas. O problema começa quando a produtividade deixa de ser uma ferramenta e passa a ser uma estratégia emocional. Quando fazer nos impede de sentir. Quando estar permanentemente ocupadas nos poupa à pergunta que mais tememos responder: “Estou realmente feliz com a vida que estou a construir?”

É que há perguntas para as quais uma agenda não tem resposta. E há dores que não se resolvem com uma rotina matinal às 6 da manhã. Às vezes, aquilo que parece falta de disciplina é exaustão. Aquilo que parece procrastinação é medo. Aquilo que parece falta de motivação é tristeza. Aquilo que parece necessidade de organização é ansiedade. E aquilo que chamamos “querer melhorar” pode ser, algumas vezes, apenas a incapacidade de aceitar que alguma coisa na nossa vida precisa de mudar — e que essa mudança talvez não tenha nada a ver com sermos mais eficientes. Talvez tenha a ver com sermos mais honestas.

É por isso que me inquieta um pouco esta nossa obsessão contemporânea com a melhor versão de nós próprias. Melhor segundo quem? Mais bonita sob o critério de quem? Mais magra de acordo com quem? Mais produtiva em relação a quem? Mais desejável na óptica de quem? Mais bem-sucedida à luz de quê ou de quem?

Há mulheres que passam décadas a aperfeiçoar-se sem nunca perguntarem se gostam da pessoa que estão a tentar aperfeiçoar. E talvez esta seja uma das formas mais subtis de auto-abandono. Não nos abandonamos apenas quando aceitamos que alguém nos trate mal. Às vezes abandonamo-nos quando passamos tanto tempo a tentar corresponder que já não sabemos distinguir aquilo que queremos daquilo que aprendemos que deveríamos querer.

É aqui que Setembro, para mim, começa a ganhar outro signif**ado. Porque talvez o verdadeiro regresso não seja ao trabalho, à escola, ao ginásio ou à rotina. Talvez seja um regresso a nós. E regressar a nós pode ser desconfortável. Porque implica silêncio. E o silêncio tem uma coisa particularmente inconveniente: não nos deixa continuar a fugir.

É muito mais fácil preencher a agenda do que escutar o vazio. Muito mais fácil marcar uma consulta, uma aula, uma reunião, um jantar, uma viagem, um projecto. Muito mais fácil estar sempre a caminho de qualquer coisa do que chegar finalmente a nós próprias.

Há mulheres que vivem permanentemente em “modo projecto”. Estão sempre a trabalhar em qualquer coisa: no corpo, na carreira, na relação, na maternidade, na auto-estima, na casa, na próxima etapa. Como se a vida fosse um ‘work in progress’ que nunca pudesse ser habitado enquanto não estivesse suficientemente acabado. Mas talvez a vida não seja uma obra que temos de terminar antes de podermos começar a vivê-la. Talvez possamos simplesmente entrar nela. Mesmo imperfeitas. Mesmo cansadas. Mesmo sem saber. E talvez seja precisamente aí que começa a parte mais difícil.

Porque, quando paramos de tentar ser melhores, começamos inevitavelmente a perguntar-nos quem somos. E esta pergunta leva-nos, muitas vezes, muito mais atrás do que gostaríamos. Leva-nos à infância. À família. Às primeiras ideias que aprendemos sobre amor. Sobre homens. Sobre mulheres. Sobre aquilo que uma mulher deve suportar para ser considerada boa. Sobre aquilo que precisa de oferecer para ser escolhida. Sobre aquilo que não pode dizer para não perder. Sobre o tamanho que pode ocupar numa sala, numa relação, numa família, numa vida.

Estamos a viver um momento profundamente importante entre mulheres e homens. Muitas mulheres estão finalmente a olhar para trás e a perceber a dimensão do preço que pagámos por séculos de patriarcado e misoginia. Pagámos com o corpo. Com a liberdade. Com a segurança. Com o silêncio. Com a culpa. Com relações onde aprendemos a confundir amor com sacrifício. E estamos a fazer perguntas que talvez as nossas mães e avós não tenham tido condições para fazer.

Estamos a dizer às nossas filhas coisas que muitas de nós precisámos de aprender já adultas: que não precisam de ser agradáveis para serem amadas. Que podem dizer não. Que podem ocupar espaço. Que não devem confundir medo com respeito. Que não têm de suportar o insuportável para provar que amam. Que o corpo delas não é propriedade de ninguém. Que não precisam de diminuir-se para que um homem se sinta grande. É um progresso extraordinário. Mas há uma revolução que acontece muito mais devagar. A que acontece dentro de nós.

Porque podemos defender a igualdade e continuar, internamente, a viver segundo velhas regras. Podemos dizer à nossa filha para não aceitar migalhas e continuar nós próprias emocionalmente disponíveis para homens que só nos dão migalhas. Podemos dizer a uma amiga que ela merece mais e continuar numa relação em que pedimos desculpa por ter necessidades. Podemos falar de amor-próprio e continuar a acreditar, secretamente, que precisamos ser mais bonitas, mais interessantes, mais magras, mais compreensivas ou mais indispensáveis para sermos escolhidas.

É aqui que a história se torna mais complexa. Porque o patriarcado não vive apenas nas leis, nas instituições ou nos comportamentos dos homens. Também pode viver dentro das mulheres. Nas vozes internas que herdámos. Na culpa automática. Na necessidade de agradar. No medo de desiludir. Na dificuldade em estabelecer limites. Na ideia de que descansar é preguiça. Na sensação de que ser necessária é a mesma coisa que ser amada.

E muitas dessas primeiras aprendizagens aconteceram através da mulher que, para muitas de nós, foi a primeira grande professora do amor: a nossa mãe.

É uma afirmação delicada. E talvez por isso precise de ser feita com cuidado. Olhar para a ferida materna não é culpar a mãe. Não é transformar mães em vilãs nem ignorar tudo aquilo que elas fizeram por nós. É tentar compreender. Porque também as nossas mães foram filhas. Também elas receberam um guião. Também aprenderam, muitas vezes, que uma boa mulher aguenta, perdoa, cuida, tudo compreende, não faz ondas, não pede demasiado, mantém a família unida e coloca os outros antes de si.

Algumas cresceram numa época em que uma mulher independente era vista como ameaça, uma mulher sexualmente livre como perigo, uma mulher sem filhos como incompleta, uma mulher divorciada como fracasso e uma mulher que dizia “não” como egoísta.

Como poderiam transmitir-nos uma liberdade que elas próprias nunca lhes foi ensinada?

Não se trata de as culpar. Trata-se de interromper a transmissão. Porque compreender de onde vem uma herança não signif**a que tenhamos de continuar a carregá-la. Talvez uma das formas mais adultas de amar a nossa mãe seja conseguir dizer: “Eu percebo porque fizeste assim. Mas eu já não preciso de fazer assim.” Talvez ela tenha aprendido que amor era f**ar. Nós podemos aprender que amor também é poder partir. Talvez ela tenha aprendido que uma mulher segura a família mesmo quando se desfaz por dentro. Nós podemos ensinar às nossas filhas que uma mulher também pode dizer: “Eu não consigo.” Talvez ela tenha aprendido a engolir a raiva. Nós podemos aprender a escutá-la. Talvez ela tenha aprendido que ser boa era não incomodar. Nós podemos descobrir que ser inteira é, às vezes, exactamente o contrário.

E talvez seja por isso que a chamada “ferida materna” seja menos uma história sobre culpa e mais uma história sobre consciência. Porque aquilo que não compreendemos, repetimos. Aquilo que compreendemos, podemos começar a escolher. E há escolhas que mudam uma vida.

Dizer não. Sair. F**ar. Pedir. Receber. Descansar. Desejar. Deixar de explicar. Deixar de provar. Deixar de tentar ser a mulher perfeita para alguém que nunca aprendeu a vê-la.

Há uma frase que me ocorre muitas vezes quando penso nisto: talvez algumas mulheres estejam há anos a tentar tornar-se a mulher que finalmente será impossível abandonar. Mais bonita. Mais magra. Mais disponível. Mais interessante. Mais sexual. Mais compreensiva. Mais paciente. Mais bem-sucedida. Mais tudo. Tudo e mais alguma coisa.

Como se o abandono fosse sempre uma sentença sobre o nosso valor e nunca uma informação sobre a capacidade do outro para amar. E é aqui que a fuga se disfarça de mudança. Porque mudar é escolher. Fugir é tentar tornar-nos irrepreensíveis para que nada de mau nos aconteça.

Em Setembro, mudar pode signif**ar deixar de viver uma relação que nos diminui. Fugir pode signif**ar começar uma dieta para tentar sentir que finalmente merecemos o nosso próprio corpo. Mudar pode signif**ar reconhecer que estamos exaustas. Fugir pode signif**ar preencher ainda mais a agenda. Mudar pode signif**ar admitir que não queremos aquela vida. Fugir pode signif**ar construir uma vida cada vez mais eficiente que não temos coragem de questionar. É uma diferença subtil. Mas decisiva.

Por isso, talvez este Setembro não precise de nos encontrar com uma lista de resoluções. Talvez precise de nos encontrar com algumas perguntas. O que estou a tentar melhorar em mim que, na verdade, preciso primeiro de compreender? O que estou a fazer incessantemente para não sentir? Que parte da minha vida parece perfeita por fora e me deixa vazia por dentro? Que ideia sobre o que é ser mulher continuo a obedecer sem sequer saber de onde veio? O que aprendi sobre o amor que já não quero ensinar às minhas filhas — nem continuar a ensinar a mim própria?

E talvez a pergunta mais difícil: quem sou eu quando deixo de tentar ser necessária, desejável, impecável ou forte?

Talvez não gostemos imediatamente da resposta. Talvez ela venha acompanhada de lágrimas. Talvez venha acompanhada de raiva. Talvez venha com uma vontade enorme de mudar tudo. Mas talvez, pela primeira vez, não seja preciso mudar tudo. Talvez seja preciso f**ar. F**ar connosco. Sentar ao nosso lado. Ouvir aquilo que durante anos tivemos demasiado trabalho para escutar. Porque há uma diferença enorme entre transformar a nossa vida e finalmente habitá-la. E talvez seja essa a revolução que nos falta. Não a revolução de nos tornarmos uma “mulher nova”. Mas a revolução silenciosa de deixarmos de tentar ser a mulher que nos ensinaram que devíamos ser.

Setembro pode, então, ser muito mais do que um recomeço. Pode ser uma espécie de regresso a casa. Não à casa onde nascemos. À casa que somos. A nós mesmas. À mulher que ficou debaixo de todas as versões que construímos para sermos aceites. À mulher que talvez tenha aprendido cedo demais a ser forte. À mulher que se tornou competente para não precisar de pedir. À mulher que se tornou indispensável para se sentir segura. À mulher que confundiu paz com silêncio. À mulher que confundiu amor com esforço e com conivência. À mulher que confundiu ser boa com desaparecer.

Talvez esteja na altura de a irmos buscar. Sim, a essa mulher. Não para a tornar melhor. Não para a corrigir. Não para a transformar num novo projecto. Mas para lhe dizer, finalmente: podes parar. Já não precisas fugir. Podes ocupar espaço. Podes querer. Podes desquerer. Podes dizer não. Podes ser amada sem te abandonares. E talvez seja esse o verdadeiro signif**ado de recomeçar. Não começar outra vida. Voltar à nossa. Porque talvez Setembro não nos peça uma vida nova. Talvez nos peça a coragem de voltar àquela que andamos há demasiado tempo a adiar.

Sara Ferreira

[email protected]
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Há uma doença que ainda não consta dos manuais de Medicina nem de Psicologia. Não aparece nas análises, não se vê numa r...
29/08/2026

Há uma doença que ainda não consta dos manuais de Medicina nem de Psicologia. Não aparece nas análises, não se vê numa ressonância magnética, não obriga a baixas médicas imediatas e, por isso mesmo, passa quase sempre despercebida. Curiosamente, quem sofre dela costuma ser elogiada. É competente, disponível, resiliente, organizada, generosa, uma “pessoa boazinha”.

Eu prefiro outro nome: a doença do depois. No consultório, ela chega quase sempre vestida de controlo. Mas senta-se em cansaço. Começa com uma frase que se repete com uma precisão inquietante: “Eu estou só cansada… mas não sei bem de quê.”

Não é um cansaço simples. É um cansaço com história longa. E reza sempre assim: “Depois descanso.” “Depois trato de mim.” “Depois mudo.” “Depois penso nisso.” “Depois volto a ser eu.” “Depois faço aquilo”. “Depois começo, finalmente, a viver.”

Não é dramático. É quase clínico. Diz coisas como: “Eu funciono… mas não sinto prazer.” “Eu faço tudo… mas já não sei o que gosto.” “Eu estou bem… mas não estou bem.” E depois surge outra frase que se repete, de novo, com uma inquietante precisão: “Eu nem sei quando foi que deixei de ser eu.” Não é um colapso. É uma erosão. Aos poucos, deixam de se ouvir. Deixam de se escolher. Deixam de se perguntar o que querem. E começam a viver num modo altamente eficiente de sobrevivência emocional.

Mas há uma forma mais simples de dizer isto: Quando deixamos de nos escolher durante demasiado tempo, o psiquismo começa a apagar-se por dentro. E o corpo acompanha.

Há mulheres que entram e dizem que funcionam bem, que dão conta de tudo, que não têm motivos objectivos para estar mal. E, no entanto, o corpo contradiz a narrativa. Insónia. Irritabilidade. Falhas de memória. Ansiedade difusa. Uma sensação constante de estar sempre em atraso — não com tarefas, mas consigo próprias.
Há um momento muito particular em consulta que conheço bem: o instante em que a mulher percebe que não está apenas cansada. Está desligada de si própria.

E talvez o mais difícil: a culpa de se escolher. Porque, para muitas mulheres, começar a existir para si próprias não é vivido como liberdade. É vivido como transgressão.

A vida não costuma dar licenças. A vida acontece. E continua. Mesmo quando não estamos presentes. E talvez um dia percebamos que não foi a vida que nos faltou. Foi presença nela. E o “depois”… foi apenas o nome elegante que demos a uma forma lenta de desaparecimento.

– A minha crónica de Agosto para a Revista LuxWoman está disponível online aqui, na sua versão aberta e integral 👉 https://www.luxwoman.pt/a-doenca-do-depois/

Há uma doença que ainda não consta dos manuais de Medicina nem de Psicologia. Não aparece nas análises, não se vê numa r...
14/08/2026

Há uma doença que ainda não consta dos manuais de Medicina nem de Psicologia. Não aparece nas análises, não se vê numa ressonância magnética, não obriga a baixas médicas imediatas e, por isso mesmo, passa quase sempre despercebida. Curiosamente, quem sofre dela costuma ser elogiada. É competente, disponível, resiliente, organizada, generosa, uma “pessoa boazinha”.

Eu prefiro outro nome: a doença do depois. No consultório, ela chega quase sempre vestida de controlo. Mas senta-se em cansaço. Começa com uma frase que se repete com uma precisão inquietante: “Eu estou só cansada… mas não sei bem de quê.”
Não é um cansaço simples. É um cansaço com história longa. E reza sempre assim: “Depois descanso.” “Depois trato de mim.” “Depois mudo.” “Depois penso nisso.” “Depois volto a ser eu.” “Depois faço aquilo”. “Depois começo, finalmente, a viver.”

Não é dramático. É quase clínico. Diz coisas como: “Eu funciono… mas não sinto prazer.” “Eu faço tudo… mas já não sei o que gosto.” “Eu estou bem… mas não estou bem.” E depois surge outra frase que se repete, de novo, com uma inquietante precisão: “Eu nem sei quando foi que deixei de ser eu.” Não é um colapso. É uma erosão. Aos poucos, deixam de se ouvir. Deixam de se escolher. Deixam de se perguntar o que querem. E começam a viver num modo altamente eficiente de sobrevivência emocional.

Mas há uma forma mais simples de dizer isto: Quando deixamos de nos escolher durante demasiado tempo, o psiquismo começa a apagar-se por dentro. E o corpo acompanha.

Há mulheres que entram e dizem que funcionam bem, que dão conta de tudo, que não têm motivos objectivos para estar mal. E, no entanto, o corpo contradiz a narrativa. Insónia. Irritabilidade. Falhas de memória. Ansiedade difusa. Uma sensação constante de estar sempre em atraso — não com tarefas, mas consigo próprias.

Há um momento muito particular em consulta que conheço bem: o instante em que a mulher percebe que não está apenas cansada. Está desligada de si própria.

E talvez o mais difícil: a culpa de se escolher. Porque, para muitas mulheres, começar a existir para si próprias não é vivido como liberdade. É vivido como transgressão.

A vida não costuma dar licenças. A vida acontece. E continua. Mesmo quando não estamos presentes. E talvez um dia percebamos que não foi a vida que nos faltou. Foi presença nela. E o “depois”… foi apenas o nome elegante que demos a uma forma lenta de desaparecimento.

— A minha crónica deste mês – "A Doença do Depois" – está publicada na edição de Agosto da Revista LuxWoman , nas bancas.

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Há lutos de que ninguém fala. Não exigem flores, nem velórios, nem mensagens de condolências. São os lutos das vidas que...
31/07/2026

Há lutos de que ninguém fala. Não exigem flores, nem velórios, nem mensagens de condolências. São os lutos das vidas que não vivemos. Da profissão que não seguimos. Da casa onde nunca morámos. Da pessoa que poderíamos ter amado. Da coragem que não encontrámos. Da mulher — ou do homem — que poderíamos ter sido. Crescer é escolher. Mas escolher implica sempre deixar morrer alguma coisa.

Quando dizemos "sim" a uma vida, dizemos inevitavelmente "não" a muitas outras.

A mudança que nunca fizemos parece a solução para todos os problemas. Mas esquecemo-nos de que toda a vida contém dor. Toda. Porque ninguém consegue construir uma vida inteira enquanto permanece dividido entre a realidade e a fantasia. E talvez seja precisamente aqui que reside um dos grandes paradoxos da maturidade: para abraçar plenamente uma vida, precisamos primeiro de fazer o luto das outras.

Precisamos aceitar que nunca seremos todas as pessoas que poderíamos ter sido. Precisamos abandonar a ideia de uma escolha perfeita. Precisamos reconhecer que toda a vida é, inevitavelmente, uma colecção de presenças e de ausências.

A maioria das pessoas acredita que sofre pelo que perdeu. Mas e se sofresse, sobretudo, pelo que nunca chegou a ter?
Nesta crónica que escrevi para a Revista LuxWoman reflecti sobre as vidas paralelas que imaginamos, as escolhas que nos definem e o difícil — mas libertador — exercício de fazer o luto das possibilidades que f**aram para trás.

– A minha crónica de Julho para a está disponível online aqui 👉 https://www.luxwoman.pt/a-vida-que-nao-aconteceu/

Há lutos de que ninguém fala. Não exigem flores, nem velórios, nem mensagens de condolências. São os lutos das vidas que...
16/07/2026

Há lutos de que ninguém fala. Não exigem flores, nem velórios, nem mensagens de condolências. São os lutos das vidas que não vivemos. Da profissão que não seguimos. Da casa onde nunca morámos. Da pessoa que poderíamos ter amado. Da coragem que não encontrámos. Da mulher — ou do homem — que poderíamos ter sido. Crescer é escolher. Mas escolher implica sempre deixar morrer alguma coisa.

Quando dizemos "sim" a uma vida, dizemos inevitavelmente "não" a muitas outras.

A mudança que nunca fizemos parece a solução para todos os problemas. Mas esquecemo-nos de que toda a vida contém dor. Toda. Porque ninguém consegue construir uma vida inteira enquanto permanece dividido entre a realidade e a fantasia. E talvez seja precisamente aqui que reside um dos grandes paradoxos da maturidade: para abraçar plenamente uma vida, precisamos primeiro de fazer o luto das outras.

Precisamos aceitar que nunca seremos todas as pessoas que poderíamos ter sido. Precisamos abandonar a ideia de uma escolha perfeita. Precisamos reconhecer que toda a vida é, inevitavelmente, uma colecção de presenças e de ausências.

A maioria das pessoas acredita que sofre pelo que perdeu. Mas e se sofresse, sobretudo, pelo que nunca chegou a ter?

Nesta crónica que escrevi para a Revista LuxWoman reflecti sobre as vidas paralelas que imaginamos, as escolhas que nos definem e o difícil — mas libertador — exercício de fazer o luto das possibilidades que f**aram para trás.

— A minha crónica deste mês – "A Vida Que Não Aconteceu" – está publicada na edição de Julho da , nas bancas.

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Talvez uma das verdades mais desconfortáveis — e ao mesmo tempo mais libertadoras — seja esta: seremos sempre julgadas. ...
27/06/2026

Talvez uma das verdades mais desconfortáveis — e ao mesmo tempo mais libertadoras — seja esta: seremos sempre julgadas. Sempre. Independentemente do que façamos, da forma como amamos, trabalhamos, cuidamos, falhamos, tentamos outra vez. Há sempre uma leitura. Uma interpretação. Um rótulo prontíssimo a colar. Se estamos sozinhas, somos exigentes demais. Se f**amos numa relação, somos permissivas. Se choramos, somos frágeis. Se não choramos, somos frias. Se falamos, exageramos. Se nos calamos, consentimos. A régua nunca falha — apenas muda de mãos.

E no meio disto, há uma armadilha psicológica particularmente perversa: a ideia de que, se formos ajustando o suficiente — se formos limando arestas, moderando intensidades, escolhendo melhor as palavras, os tempos, os gestos — um dia vamos escapar ao julgamento. Um dia vamos acertar. Um dia vamos ser validadas de forma limpa, inequívoca, sem ressalvas.

Sabe que mais? Esse dia não chega. Porque o julgamento não está apenas “lá fora”. Ele instala-se. Interioriza-se. Pior: internaliza-se. Ganha voz própria. Transforma-se naquele comentário silencioso que nos acompanha: “não devias ter dito isto assim”, “estás a ser demais”, “cuidado, podem achar que…”, atenção, deves achar que…”. É o superego a fazer horas extraordinárias, muitas vezes com uma sofisticação impressionante. E, de repente, já não precisamos de ninguém a apontar o dedo — fazemos isso sozinhas, com uma eficácia “profissional”.

O julgamento do outro não pode nem deve continuar a ser o principal organizador da nossa vida interna. Que não podemos continuar a negociar quem somos em função de como poderemos ser percebidas. Que há um custo demasiado alto em viver permanentemente orientadas pelo olhar alheio. E que esse custo, muitas vezes, é a perda de autenticidade e de ar para respirar.

Isto não signif**a viver em oposição. É tolerar a tensão de não ser totalmente aprovada. É aceitar que haverá sempre alguém a achar que estamos a fazer demais… ou de menos. Nunca o bastante.
Há algo profundamente elegante — e aqui sim, verdadeiramente sofisticado — numa mulher que se autoriza a ser sem pedir licença constante.

Porque quando deixamos de tentar agradar a todos, algo curioso acontece: começamos, finalmente, a viver. Mais a sério. Com mais verdade, mais presença, mais textura.

– A minha crónica de Junho para a está disponível online aqui 👉 https://www.luxwoman.pt/seremos-sempre-julgadas-entao-mais-vale-viver

Quando uma filha cresce a ser o ombro oficial da casa, o porto de abrigo emocional, a intérprete certif**ada de silêncio...
31/05/2026

Quando uma filha cresce a ser o ombro oficial da casa, o porto de abrigo emocional, a intérprete certif**ada de silêncios e suspiros, instala-se nela um fenómeno discreto e devastador: o adiamento crónico de si mesma. Reguladora emocional em part-time que rapidamente assinou contrato vitalício — sem ler as letras pequenas. Ninguém nos diz que ser “a forte” pode ser só uma criança a sobreviver “bem demais”.

A psicologia tem nomes pouco poéticos para isto: inversão de papéis, parentif**ação emocional, fronteiras difusas. Na prática? A filha torna-se apoio emocional da mãe. A criança aprende que amar é proteger quem a devia proteger. Parece nobre. Quase cinematográfico. Mas cobra juros altos na vida adulta. Porque uma filha não pode ser mãe da própria mãe sem amputar partes de si mesma. Sem arquivar desejos na pasta do “logo se vê”. Sem sentir culpa por descansar. Sem achar que existir plenamente é uma forma de deserção afectiva.

O problema nunca foi amar muito. Foi amar anulando-se com garbo. F**ar exposta a queixas para as quais a idade ainda não tinha tradução — como quem tenta suster uma barragem com as próprias mãos. Mediar conflitos conjugais que não eram seus como árbitra sem apito. Carregar segredos densos demais para ombros em crescimento. Sentir que o humor da mãe dependia do seu desempenho emocional — da palavra certa, do silêncio certo, da presença certa. Isto não é intimidade. É responsabilidade emocional deslocada. É um cargo invisível numa empresa chamada Família Lda., onde o organigrama afectivo ninguém ousa redesenhar. Ninguém nos ensina o essencial: amar não é absorver, amar não é resolver, amar não é f**ar por lealdade à dor. Amar também é limite. Distância saudável. Respirar fora da história da mãe sem queimar a ponte.

Quando cada uma regressa ao seu lugar, o vínculo não se quebra — depura-se. Como um vidro finalmente lavado. Sai o ruído. F**a o afecto. Sai a culpa. F**a efectivamente o amor. A escolha. Porque quando cada uma regressa ao seu lugar, o vínculo não se quebra. Clarif**a-se. Sai o peso. F**a o afecto. E, pela primeira vez, a relação torna-se leve, adulta, possível.

– A minha crónica de Maio para a Revista LuxWoman está disponível online aqui 👉 https://www.luxwoman.pt/entre-o-colo-e-a-culpa-maes-filhas-e-o-silencio-que-nos-prende/

Maio chega sempre com frases em caligrafia emocional do tipo “amor incondicional”, “colo eterno”, “a melhor mãe do mundo...
14/05/2026

Maio chega sempre com frases em caligrafia emocional do tipo “amor incondicional”, “colo eterno”, “a melhor mãe do mundo”. E atenção: eu acredito nesse amor. Profundamente. Vivo-o na pele e na biografia — sou filha do colo que me formou e mãe dos colos que hoje ofereço. Mas também acredito que tudo o que é sagrado demais deixa de ser questionado — e o que não se questiona ganha bolor de verdade absoluta.

Há silêncios que se herdam como o serviço de jantar da família. Ninguém escolheu, mas estão lá. E um desses silêncios mora na relação (complexa) entre mães e filhas: a ideia de que amar é ser leal à dor, é encolher-se para não incomodar, ouvir, compreender, estar sempre. Não falhar. Não cansar. Não ocupar espaço. Não dizer.

Muitas vezes, isso foi apenas lealdade à dor de uma mãe. Uma lealdade funda, quase uterina, que nos ensinou a confundir empatia com auto-abandono.

Há mães que sofreram o suficiente para escrever três romances russos e ainda sobrar tragédia para um spin-off. Mulheres que engoliram frustrações com o pequeno-almoço, que transformaram cansaço em competência, que sobreviveram a relações estreitas, trabalhos ingratos, abusos e negligências demorados e sonhos adiados numa prateleira alta demais. Mulheres que foram fortes porque não tiveram outra escolha. Mulheres que merecem respeito, muito, ternura, descanso e um abraço.

Mas — e este “mas” é importante — respeito não é fusão emocional. E amor não é herdar o peso que não nos pertence como se viesse costurado no ADN.

Quando uma filha cresce a ser o "ombro oficial" da casa, o porto de abrigo emocional da mãe, instala-se nela um fenómeno discreto e devastador: o adiamento crónico de si mesma. Aprende a escutar antes de sentir. A acolher antes de escolher. A compreender antes de existir. Vai f**ando para depois, como quem guarda a melhor roupa para um dia que nunca virá.

Porque algures no inconsciente dessa filha escreve-se, em letras garrafais: se eu estiver bem demais, estou a trair quem sofre. Se eu for leve, sou egoísta. Se eu brilhar, ofusco. Se eu for feliz à séria, alguém paga a conta emocional. E assim nascem mulheres exemplares por fora e exaustas por dentro. Mulheres eficientes, produtivas, disponíveis, afinadas com as necessidades de toda a gente — menos com as próprias. Mulheres que sabem tudo sobre os outros e quase nada sobre si. A psicologia tem nomes pouco poéticos para isto: inversão de papéis, parentif**ação emocional, fronteiras difusas, codependência emocional. Na prática? A filha parece carregar e incorporar uma dor que não é originalmente sua. A criança aprende que amar é proteger e cuidar quem a devia proteger e cuidar. Parece nobre. Quase cinematográfico. Mas cobra juros altos na vida adulta. Porque uma filha não pode ser mãe da própria mãe sem amputar partes de si mesma.

Nesta crónica que escrevi para a Revista LuxWoman procuro evidenciar que nem todo o amor que nos ensinaram é leve. Muitas filhas carregam dores que não lhes pertencem. Há silêncios que passam de mãe para filha sem nunca serem conversados. Esta é uma crónica sobre lealdades invisíveis, papéis trocados e o dia em que percebemos que cuidar não pode signif**ar desaparecer. Se é filha, isto toca-lhe. Se é mãe, talvez a transforme.

— A minha crónica de Maio – "Entre o Colo e a Culpa – mães, filhas e o silêncio que nos prende" – está publicada na edição deste mês, nas bancas.

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