25/05/2026
Será que temos medo de olhar verdadeiramente para quem somos? Talvez uma das maiores dificuldades humanas possa ser a de suportar aquilo que descobrimos quando deixamos de fugir de nós próprios. Na alegoria da caverna de Platão, os homens vivem presos nas sombras, tomando ilusões por realidade. Para além da ignorância, o problema é também o do conforto da ilusão. Porque sair da caverna signif**a abandonar aquilo que nos é dado como certo e enfrentar uma verdade capaz de colocar em causa aquilo em que acreditávamos.
Séculos mais tarde, Sigmund Freud mostra-nos que também dentro de nós existem cavernas. Reprimimos medos, desejos, violências e fragilidades, empurrando-os para zonas escondidas da consciência. Mas aquilo que recusamos ver nunca desaparece verdadeiramente. Permanece no escuro, à espera de regressar sob a forma de ansiedade, vazio, obsessão ou destruição. De tal modo que, muitas vezes, aquilo de que fugimos acaba por nos dirigir silenciosamente.
Ora, de acordo com Carl Jung, a sombra é tudo aquilo que rejeitamos em nós ou que em nós está por ser potenciado: impulsos, medos, desejos, capacidades. Quanto mais tentamos parecer moralmente perfeitos ou racionalmente controlados, mais essa sombra cresce no interior. Na realidade, ela não desaparece por ser ignorada; torna-se apenas mais invisível e mais poderosa. Talvez grande parte da violência humana nasça precisamente da incapacidade das pessoas de reconhecer a própria escuridão e o seu caminho de iluminação ou transformação.
Pois bem, no Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, essa cegueira manifesta-se mesmo assim: coletiva. No fundo, Saramago evidencia como os seres humanos raramente compreendem plenamente o que fazem, vivem dentro de ilusões, escondem-se em rotinas, recusam encarar a fragilidade e a violência. E talvez a verdadeira tragédia seja perceber que sempre estivemos cegos sem o saber.
Friedrich Nietzsche sentia que a modernidade se afastava cada vez mais da vida profunda. Ao falar da tensão entre o apolíneo e o dionisíaco, Nietzsche descreve um mundo excessivamente racional, organizado e controlado, mas ao mesmo tempo distante da intensidade humana. Em nome da ordem e da produtividade, reprimimos o instinto, o desejo, o caos, o corpo e a emoção, e aquilo que nos faz crescer. No entanto, aquilo que é reprimido nunca desaparece. Continua vivo debaixo da superfície, como uma força subterrânea que mais cedo ou mais tarde definha-se como uma flor que não pode ver o sol.
Poetas como Arthur Rimbaud e Charles Baudelaire desceram precisamente a esse lado escondido da existência. Procuraram na vertigem, no excesso e na inquietação uma verdade mais funda do que aquela que a sociedade permitia mostrar. E talvez tenham percebido algo que hoje se tornou ainda mais evidente: vivemos rodeados de imagens, ruídos, estímulos e distrações, mas cada vez mais afastados de nós próprios.
Pois bem, a caverna de Platão já não é um lugar escuro; tornou-se um excesso de luz, ecrãs e representações que nos impedem de olhar em silêncio para aquilo que realmente somos. É talvez neste ponto que a frase de Rimbaud ganha toda a sua profundidade: “Eu é um outro.” O sujeito humano nunca coincide plenamente consigo mesmo. Existe sempre em nós uma alteridade interior, uma dimensão desconhecida, fragmentada e por vezes inquietante que escapa ao controlo da consciência. Tanto assim que aquilo que recusamos reconhecer em nós próprios é frequentemente projetado, vivido ou procurado no outro. Talvez seja precisamente daí que nasce a importância dos vínculos humanos: descobrimo-nos através do amor, do conflito, da perda, da projeção, do reconhecimento e da comunhão. O outro não é apenas alguém exterior a nós; habita também o interior da nossa própria identidade.
Nesse sentido, ganha uma profundidade particular a frase atribuída a Jesus: “os cegos veem, e aqueles que veem f**am cegos.” A verdadeira cegueira talvez não pertença àqueles que reconhecem a própria fragilidade, mas àqueles que acreditam possuir uma lucidez absoluta. Porque quem admite a própria escuridão pode começar a transformar-se; mas quem vive convencido da sua clareza torna-se incapaz de questionar-se.
Talvez, por isso, a maior cegueira humana não seja a falta de visão, mas recusar ser consciente, recusar sentir. Inventamos distrações, certezas, ideologias, moralidades e entretenimentos para evitar o confronto com aquilo que nos habita mais profundamente: o medo, a solidão, o desejo, a fragilidade, a morte, mas também a responsabilidade de existir, a esperança, a gratidão, a alegria e a possibilidade de comunhão.
No fundo, permanece a pergunta essencial: será que os seres humanos querem realmente ver, ou preferem continuar protegidos pelas suas sombras?
Dr. Paulo Nuno Pereira
Dr. Bernardo d'Almeida