Lapsis Centro Psicoterapeutico

Lapsis Centro Psicoterapeutico Somos pioneiros, inovadores mantemos uma qualidade que só quem foi, ou é nosso paciente, pode avaliar.

Na Lapsis entendemos a criança como um todo, e todas as valências que passam pela psicoterapia, psicomotricidade, terapia da fala, grupos terapêuticos consoante a idade da criança, pedopsiquiatria, terapia familiar e apoio aos pais, são colocadas ao serviço de um único interesse: o bem estar mental da criança e da família.

A mente como espaço: do aprisionamento psíquico ao universo interiorPodemos pensar o desenvolvimento emocional a partir ...
27/04/2026

A mente como espaço: do aprisionamento psíquico ao universo interior
Podemos pensar o desenvolvimento emocional a partir de uma ideia simples e profunda: a mente humana como um espaço interno em construção. O sofrimento psíquico grave corresponderia a uma mente sem espaço suficiente para conter emoções, pensar experiências e simbolizar conflitos. Pelo contrário, a saúde emocional seria uma mente habitável, capaz de acolher afectos, tolerar ambivalências e criar sentido. A maturidade psicológica implica assim uma mente multidimensional, onde passado, presente e futuro coexistem de forma integrada.
Na realidade, não nascemos com esse espaço mental já constituído. Este constrói-se progressivamente na relação com quem cuida. Através da rêverie descrita por Wilfred Bion, da continência emocional, do espelho afectivo, da previsibilidade e do brincar, a criança aprende que os estados internos podem ser sentidos sem destruir, pensados sem esmagar e transformados em signif**ado. Quando este processo falha, a mente tende a f**ar comprimida, rígida ou fragmentada.
Com efeito, numa primeira dimensão psíquica, a experiência mental é linear e, por conseguinte, aprisionada. Predomina o imediato: tudo ou nada, presença ou abandono, impulso ou colapso. A ausência é vivida como desaparecimento total e a frustração como catástrofe. Trata-se de um estado próximo do “terror sem nome” de Bion, onde existe angústia impensável e caos sem representação. É também semelhante ao Inferno de Dante na Divina Comédia: repetição, circularidade e sofrimento sem transformação.
Na segunda dimensão, surge alguma organização psíquica. A criança começa a distinguir dentro e fora, tolera pequenas esperas, reconhece o regresso do objecto amado e inicia sentimentos de culpa e reparação. Continua a existir fragilidade, mas já não há caos total. Esta etapa aproxima-se do Purgatório de Dante, sofrimento com sentido, esforço gradual e possibilidade de crescimento.
Na terceira dimensão aparece verdadeiro espaço mental. Desenvolvem-se interioridade, memória simbólica, imaginação e capacidade de manter internamente alguém ausente. A criança pode sentir saudade sem colapsar, amar e zangar-se com a mesma pessoa, brincar simbolicamente e esperar. Existe agora um mundo interno vivo e habitável. É a mente criativa, profunda e relacional.
Numa quarta dimensão, o espaço interno integra também o tempo psíquico. O passado pode ser compreendido, o presente vivido e o futuro imaginado sem terror. Surge capacidade contemplativa, sentido existencial e observação de si sem destruição narcísica. Este nível aproxima-se do Empíreo em Dante e do conceito de “O” em Bion: contacto com uma verdade emocional profunda que ultrapassa explicações simplistas.
Neste percurso, o self transitivo desempenha um papel central. Podemos entendê-lo como a função relacional que permite a passagem entre dimensões psíquicas. No campo mãe-bebé, a criança internaliza experiências de contenção e vai adquirindo profundidade mental. Quando essa relação é suficientemente boa, forma-se espaço interno. Quando falha de forma persistente, o sujeito pode permanecer preso a estados achatados, impulsivos ou vazios.
A psicopatologia pode então ser pensada como colapso dimensional. Na ansiedade extrema, a pessoa cai temporariamente para estados lineares de ameaça. Na depressão, o mundo interno perde vitalidade e torna-se rígido. No trauma, o tempo congela e a experiência f**a sem simbolização. Já a criatividade madura implica circulação flexível entre profundidade interna e integração temporal.
A psicoterapia, nesta perspectiva, consiste em expandir dimensões internas. Ajuda a criar distância entre impulso e acto, transformar sensação em símbolo, suportar paradoxos, integrar a história vivida e recuperar esperança. Em vez de apenas reduzir sintomas, a terapia amplia o espaço mental.
Assim, podemos resumir: o Inferno não é um lugar, mas uma mente sem espaço. O Purgatório é uma mente em construção. O Paraíso é uma mente habitável. E o Empíreo é uma mente reconciliada consigo própria, com os outros, com o ser.
Crescer, no fundo, é passar de uma linha aprisionada para um universo interior total.
Dr. Bernardo Corrêa D'Almeida
Imagem: pixabay.com

04/04/2026
01/04/2026

RETIFICAÇÃO: Há um erro na narração, o pai de Torquato se chamava Dr. Heli da Rocha Nunes. O Segredo Filosófico da Cajuína: Uma Análise Profunda com Baruch E...

Culpa, autoridade internalizada e transformaçãoA experiência humana é profundamente marcada pelas relações de autoridade...
18/03/2026

Culpa, autoridade internalizada e transformação
A experiência humana é profundamente marcada pelas relações de autoridade e de cuidado que encontramos ao longo da vida. Figuras como a mãe, o pai, líderes religiosos, professores ou terapeutas podem tornar-se referências internas mais ou menos duradouras. Na psicologia, este fenómeno é conhecido como internalização: pessoas signif**ativas passam a existir dentro de nós sob a forma de vozes, expectativas e modelos de relação.

Quando a autoridade vivida é muito rígida ou autoritária, essa internalização pode assumir a forma de um superego muito exigente. A pessoa passa a carregar dentro de si um juiz interno severo, que critica de forma moral e implacável e produz sentimentos persistentes de culpa. Mesmo quando alguém decide seguir um caminho diferente — por exemplo, deixar um determinado estado de vida ou questionar valores herdados — essa voz interior pode continuar a funcionar como se nada tivesse mudado, de forma mais ou menos avassaladora. Assim, a culpa não nasce necessariamente de uma falta real, mas da permanência interior de normas e expectativas profundamente assimiladas.

Nestes casos, podem surgir dois movimentos psicológicos em simultâneo. Por um lado, pode emergir a revolta contra a autoridade, semelhante à reação de um filho perante um pai autoritário. A revolta é uma tentativa de recuperar autonomia e identidade. Por outro lado, a própria autoridade pode permanecer interiorizada, gerando conflito interno: uma parte da pessoa deseja liberdade, enquanto outra continua a julgar e a condenar. Esta tensão ajuda a compreender por que motivo muitas pessoas, mesmo depois de tomarem decisões conscientes, continuam a sentir culpa ou insegurança moral.

A psicoterapia procura precisamente trabalhar estas dinâmicas internas. Como afirmava o psicanalista português Coimbra de Matos, “uma terapia sem amor não é terapia”. O “amor” de que ele fala não é sentimentalismo, mas uma atitude clínica de profundo respeito, empatia e interesse pela pessoa. Essa atitude cria uma relação diferente daquela que muitas pessoas viveram em contextos de autoridade rígida. Em vez de julgamento, surge compreensão; em vez de condenação, aparece curiosidade e abertura. Com o tempo, essa experiência pode também ser interiorizada, oferecendo à pessoa uma nova forma de se relacionar consigo própria — menos acusadora e mais humana.

Neste contexto, torna-se possível compreender outra afirmação de Coimbra de Matos: “devemos aprender a errar e a errar cada vez melhor.” Muitas pessoas que cresceram sob forte exigência moral vivem com um medo intenso de errar. O erro é sentido como uma falha grave ou motivo de vergonha. A maturidade psicológica, porém, implica reconhecer a inevitabilidade do erro humano e aprender com ele. “Errar melhor” signif**a errar com mais consciência, sem destruir a própria autoestima e transformando a experiência em crescimento.

Aqui entra também a dimensão do perdão. Psicologicamente, um perdão sem amor tende a ser vazio, podendo até funcionar como um escape. Um perdão meramente formal — baseado apenas em regras ou obrigações — pode resolver a situação exterior, mas não transforma a experiência interior. A culpa permanece ativa se a pessoa continua a sentir-se julgada ou rejeitada. O perdão autêntico envolve o reconhecimento da falha, mas também a preservação da dignidade da pessoa. Integra empatia, compreensão da fragilidade humana e a manutenção do vínculo relacional. Só assim o perdão adquire verdadeira força transformadora.

Deste ponto de vista, o processo terapêutico pode ser entendido como um caminho de reorganização das autoridades internas. A pessoa aprende a distinguir entre as vozes herdadas do passado e a sua própria consciência atual. A revolta inicial pode transformar-se em autonomia, e a culpa pode dar lugar a uma responsabilidade mais madura. O objetivo não é eliminar o passado, mas integrá-lo de forma mais livre e mais humana.

Assim, o crescimento psicológico implica um movimento duplo: libertar-se de autoridades interiorizadas que já não correspondem à própria vida e, ao mesmo tempo, construir dentro de si uma nova forma de relação — marcada pela compreensão, pela capacidade de perdão e pela aceitação da imperfeição. Nesse sentido, crescer psicologicamente é aprender a viver com humanidade: amar, perdoar e continuar a aprender, mesmo através dos erros.

Dr. Bernardo Corrêa D'Almeida

16/03/2026
Um filho a CrescerO equilíbrio entre o tempo e o espaço, quão difícil é de gerir? O que é isso de adolescer?"Há sempre u...
10/03/2026

Um filho a Crescer
O equilíbrio entre o tempo e o espaço, quão difícil é de gerir? O que é isso de adolescer?
"Há sempre um tempo que passa e um tempo que não passa" (Manuel Alegre), e para os pais o tempo que não passa é sempre muito maior, eles vão crescendo mas é por engano, até que chega um dia em que nós dizemos: ele cresceu mesmo, este já não é o meu bebé, é estranho como um rapaz de quatro anos (sim porque para nós terá sempre 4 anos), nos diz calmamente que vai dormir em casa de uma amiga com um grupo de amigos. Como é que nós crescemos? lembras-te? Crescemos às escondidas, o primeiro cigarro, o primeiro beijo, o primeiro amor, tudo em segredo, para não falar da imensidão de amores infantis que esses então foram ultra secretos para nós, embora toda a gente soubesse. Nós que ainda nos julgamos com idade de ir para a terra fazer fisgas(1) para apanhar pássaros e fazermos bailaricos nas fontes e que achávamos muito velhos as pessoas com 50 anos, somos de repente mães e pais de adolescentes e de adultos e estamos quase a ser avós mas shiu.. não contem a ninguém... Esta barba branca é apenas um disfarce, a mãe diz que pode ser o disfarce de uma criança que nunca cresceu, o pai concorda mas só em parte, há de facto uma criança que não cresceu por trás da barba branca mas há também um adolescente a correr para os bailes à procura dos seus amores, há um rapaz de 20 e poucos anos a acabar os cursos e os mestrados e a pensar e agora o que é que eu faço com isto (com isto, entenda-se a vida), há aqui um espaço/tempo para mim? Há um homem que começa a sentir na pele as grandes traições, as lutas de poder, etc.. E há um homem que proclamam como pai com um menino nos braços . Sentimos que muito tempo e muito espaço nos foi roubado enquanto pais e muita interacção ficou por fazer, muita brincadeira, muitas conversas f**aram pelo caminho e agora? Será que ainda vamos a tempo? Somos nós capazes de sentir os nossos filhos? cada vez mais se erguem muros entre pais e filhos, vão-se colocando barreiras mesmo que inconscientemente, por exemplo uma mãe que amamenta e que ao mesmo tempo está focada no telemóvel, poder-se-á criar vínculo funcional , um vínculo ambivalente/ansioso (inseguro) como identif**a Bowlby, a criança vai repetir esse tipo de vínculo pela vida fora, ansiosa, insegura, com baixa auto estima , sempre à procura da aprovação do outro, angústia extrema na separação, mas ambivalência (busca e rejeição) no reencontro. O Pai que no momento de brincar, ou de fazer outra actividade com os filhos opta por se focar no futebol, no reality show ou no que se está a passar online pode também causar o mesmo dano. Os adolescentes vivem para o espelho que lhes devolve uma imagem que corresponde à imagem interna que foi criada com base no vínculo primário que estabeleceram com o mundo e com os pais.
Paulo Nuno Pereira

(1) Fisga: Instrumento elástico usado para arremessar pequenos projéteis, geralmente feito de uma forquilha de madeira e uma tira de borracha.

Imagem: pixabay.com

Raiou o dia de São Valentim; de pé todos estão. Para ser vossa Valentina, irei pôr-me à janela, então. Hamlet - Acto 4, ...
11/02/2026

Raiou o dia de São Valentim; de pé todos estão. Para ser vossa Valentina, irei pôr-me à janela, então. Hamlet - Acto 4, Cena 5

O Outro ainda existe?Quando é que o Outro perdeu a existência?O Outro alguma vez existiu? Ou somos só nós num jogo de cenários e máscaras internas de fortes idealizações e desidealizações para satisfazer muitas vezes não só o nosso desejo infantil mas também o desejo dos outros. No meio destas lutas e destas poeiras onde é que f**amos nós, onde é que f**a o amor, onde é que f**a a relação, onde é que f**a o Outro? O Outro, hoje em dia, e o Eu são construtos muito oprimidos pelo contexto social, pelo contexto de ter o peso certo, a altura certa, a roupa certa, os ténis certos, o penteado certo, etc... Sente-se a aflição dos jovens para tentarem satisfazer tantos desejos que tomam como seus avaliando-se num espelho que do Eu nada devolve, "por trás do espelho quem está" ? Aquele sou ou é o meu ideal, ou é a parte fraca de mim, quem é que eu vejo? E quando eu olho para sombra? Que luz me chega desta sombra? Quantos Eus esquecidos habitam esta sombra?É necessário entrarmos no espelho como a Alice(1) mas desta vez para nos salvarmos, cada um tem que entrar no seu e salvar-se, não fiquem à espera que os outros entrem no vosso espelho. Conheçam as vossas fantasias, as vossas frustrações, os vossos sonhos, os vossos medos, as vossas esperanças, encontrem o vosso caminho perdido da infância, não tenham medo de se perderem nele. É sempre preciso perdermo-nos em nós para depois nos encontrarmos mais fortes e seguros. Dessa busca sairemos certamente mais fortes e menos dependentes dos outros e do peso do socialmente exigido. Se não fizermos esse caminho interno à procura de nós próprios, de quem somos, o que queremos, para onde vamos e como é que nos damos ao outro , como é que amamos os outros, como é que nos amamos a nós próprios, f**a um vazio, esse vazio é não raras vezes preenchido pelas dependências, pela dependência do Outro, da relação, de substâncias e da necessidade de controlo.
Namorem muito mas sobretudo enamorem-se de vós mesmos.
Dr. Paulo Nuno Pereira
(1) Referência ao livro "Alice do Outro lado do Espelho"; Lewis Carroll

06/01/2026
06/01/2026

Luciano Amorim, novo amigo e influencer cultural leu o meu poema

A importância da tolerância à frustração: de bebé e até à idade adultaVivemos num tempo em que a frustração é vista como...
19/12/2025

A importância da tolerância à frustração: de bebé e até à idade adulta
Vivemos num tempo em que a frustração é vista como algo a evitar. Queremos respostas rápidas, soluções imediatas e alívio instantâneo do desconforto. No entanto, a frustração além de ser, muitas vezes, inevitável, é fundamental para o desenvolvimento do pensamento.
O psicanalista Wilfred Bion propôs uma ideia simples e profunda: o pensamento nasce quando a satisfação não é imediata. Desde o início da vida, desenvolvemos expectativas em relação ao mundo. Quando aquilo que esperamos acontece de imediato, a experiência encaixa-se sem grande esforço. Mas quando surge a falta, a carência ou o atraso, somos impelidos a pensar, a criar signif**ado para o que estamos a sentir.
Bion chamou a estas expectativas iniciais pré-concepções. Quando elas encontram realização imediata, formam-se concepções. Mas é quando a expectativa se confronta com a frustração que o pensamento verdadeiramente emerge. Por isso, para Bion, a capacidade de pensar depende da capacidade de suportar a frustração sem fugir dela ou tentar eliminá-la a todo o custo.
Assim se compreende também a importância das primeiras relações. Inspirando-se em Melanie Klein, Bion distingue entre a experiência do “bom seio”, associada à satisfação e ao acolhimento, e a do “mau seio”, associada à frustração e à ausência. Quando existe apoio emocional suficiente, a experiência frustrante pode ser tolerada e transformada em algo
pensável. Caso contrário, a frustração torna-se excessiva e pode levar à confusão, à impulsividade ou ao bloqueio do pensamento.
Ora, a relação emocional e cognitiva que se estabelece entre o bebé e a mãe é assim fundamental, de tal modo que Bion descreve três tipos fundamentais de vínculo: o do amor - relação de aproximação, integração, cuidado; o do ódio - relação de ataque, rutura, agressão; e o do conhecimento - relação que permite conhecer, aprender com a experiência, pensar.
Ora, se um indivíduo não tolera frustração ou não suporta certos pensamentos/emoções, ele pode atacar o próprio processo de ligação: ataque ao amor, ataque ao conhecimento, exacerbação do ódio.
Assim se entende como pensar seja uma forma de relação com o conhecimento — uma abertura à verdade emocional, mesmo quando ela é incómoda. Pensar implica aceitar o não saber, a dúvida e o erro. Quando essa relação se torna demasiado ameaçadora, tendemos a evitá-la, fechando-nos à reflexão e repetindo padrões que pouco transformam a experiência.
Com efeito, proteger alguém de toda a frustração não favorece o crescimento psíquico. O que realmente ajuda é poder acompanhar, conter e dar sentido à experiência frustrante, permitindo que ela se transforme em pensamento.
A frustração, assim compreendida, deixa de ser apenas um problema a resolver. Torna-se uma experiência necessária para o desenvolvimento emocional, para a criatividade e para a aprendizagem ao longo da vida.
Dr. Paulo Nuno Pereira
Dr. Bernardo Corrêa D'Almeida

Parte I - O Pai Interno e o Burnout A travessia entre Burnin e Burnout — fogo-fátuo da modernidade A palavra burnout der...
28/11/2025

Parte I - O Pai Interno e o Burnout
A travessia entre Burnin e Burnout — fogo-fátuo da modernidade
A palavra burnout deriva do inglês: queimar por fora até ao fim, consumir-se em cinzas. Já burnin, termo mais recente, designa o movimento inverso e anterior: queimar por dentro, enquanto a chama permanece viva e intensa — consumindo-se de forma silenciosa. Ambos descrevem modos de existir em grande combustão: ora na exuberância da entrega total, ora no colapso da exaustão que já não permite reagir.
Ora, a nossa hipótese é que o burnout não nasce simplesmente do mundo externo; nasce do encontro doloroso entre esse mundo e as nossas feridas internas. O contexto desperta o que já era frágil. A pressão laboral, o excesso de tarefas, a cultura de resultados podem funcionar como gatilhos ef**azes, mas só desencadeiam o colapso quando o sujeito já traz consigo um modo de amar e de ser amado que pode estar baseado no sacrifício e na dependência afetiva do outro.
O burnin inaugura este percurso: pode ser uma pessoa que está numa depressão manifesta ou num estado de negação da depressão em que nem ela tem consiciencia que está deprimida , a que chamamos depressividade.
O burnout é o resultado para nós do burnin no mundo laboral, nas relações externas. Ora, a forma como nos relacionamos com o trabalho — e com a exigência — pode ser uma réplica dos nossos vínculos primários da infância. Na psicanálise, a função paterna representa a lei simbólica, a autorização para existir socialmente, o reconhecimento do valor pessoal. Pais autoritários levam a criança a acreditar que apenas a excelência garante amor e pertença; pais ausentes ou indiferentes ensinam, pelo silêncio, que é preciso fazer muito para ser visto; pais democráticos, que aliam exigência afetiva a limites coerentes, oferecem a possibilidade de o sujeito se sentir digno mesmo na falha. Quem acendeu a nossa chama pode assim determinar, muitas vezes, como ela arde em nós e por quanto tempo.
A projeção da experiência de ter um pai autoritário nas relações laborais afeta profundamente o indivíduo, criando padrões de comportamento e vulnerabilidades que aumentam signif**ativamente o risco de burnout. Esta projeção manifesta-se principalmente através da internalização do modelo de autoridade, moldando a forma como o indivíduo lida com chefias, pressão, e autonomia no ambiente de trabalho: a Submissão e Medo de Crítica, o indivíduo aprendeu que desobedecer ou falhar resulta em punição severa ou perda de afeto (no contexto parental), no trabalho, isto traduz-se em submissão excessiva à chefia, mesmo que esta seja tóxica. O trabalhador evita o conflito a todo o custo e tem um medo intenso de cometer erros ou de receber feedback negativo, existe uma incapacidade de dizer "não" à sobrecarga de trabalho, o medo de desagradar impede o estabelecimento de limites saudáveis, resultando em exaustão emocional e stress crónico; o Perfeccionismo e Autoexigência Excessiva, a única maneira de um filho de um pai autoritário ganhar validação ou evitar críticas é atingir um padrão de excelência inatingível, no trabalho, esta dinâmica manifesta-se como perfeccionismo patológico e uma autocobrança incessante (o chamado "trabalhador workaholic"), o perfeccionismo é um fator de risco primário para o burnout, a necessidade de dar "200%" em todas as tarefas, o receio de delegar e a incapacidade de aceitar o "suficientemente bom" levam à sobrecarga contínua e à exaustão física e mental ; Dificuldade na Autoestima e Realização : a ausência de reconhecimento ou a crítica constante na infância geram uma baixa autoestima e uma sensação de incompetência subjacente, o trabalhador pode procurar validação através de resultados, mas nunca se sente realmente realizado ou bom o suficiente, independentemente do sucesso. O indivíduo não consegue sentir realização profissional, um dos pilares do burnout. O sentimento de insatisfação crónica mantém-no num ciclo vicioso de trabalhar mais para provar o seu valor, sem nunca o alcançar, o que aprofunda a exaustão.
Já a projeção de um pai democrático na relação do trabalhador com a liderança e com os colegas e o risco de burnout estão inversamente relacionados: o estilo parental democrático atua como um fator protetor contra o burnout laboral, promovendo o desenvolvimento de recursos psicológicos essenciais. O estilo parental democrático é caracterizado por: Alta exigência (estabelece regras e limites claros); Alta responsividade (oferece elevado afeto, apoio emocional e diálogo); valoriza a autonomia, a comunicação aberta, a criatividade e a participação nas decisões.A pessoa que foi criada num ambiente democrático internaliza a confiança e a competência para navegar no mundo profissional de forma mais saudável. Na infância: A criança era incentivada a tomar decisões apropriadas à sua idade, a argumentar as suas ideias e a participar na criação de regras. No trabalho: O adulto tem elevada autoeficácia (confiança nas suas capacidades), capacidade de autorregulação e de iniciativa. Ele procura ativamente soluções e sente-se confortável em assumir responsabilidades. Estes recursos (autonomia e autoeficácia) são a antítese do burnout. O trabalhador sente controlo sobre as suas tarefas e ambiente, o que reduz signif**ativamente o stress laboral. O adulto tem capacidade de negociação e assertividade. Consegue estabelecer limites saudáveis e comunicar as suas necessidades. A capacidade de impor limites previne a sobrecarga, a principal causa da exaustão emocional. A comunicação aberta permite a busca de apoio ou a discussão de expectativas irrealistas com a chefia. O indivíduo criado num ambiente democrático tende a prosperar sob estilos de liderança que se assemelham ao modelo parental, como a liderança transformacional ou a liderança participativa.
Quando a função parental falha, não contendo a angústia da criança, instala-se aquilo que Bion designou terror sem nome: um medo primitivo, incessante, sem palavras que o possam representar. No burnin, o sujeito mantém-se sempre ocupado, sempre disponível, sempre a responder expectativas — como se a imobilidade pudesse libertar o terror que vive dentro de si. Quando o burnout chega, esse terror regressa sem filtro, esmagador: o colapso não é apenas físico, mas também simbólico e emocional.
Dr. Paulo Nuno Pereira
Dr. Bernardo Corrêa D'Almeida

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