27/04/2026
A mente como espaço: do aprisionamento psíquico ao universo interior
Podemos pensar o desenvolvimento emocional a partir de uma ideia simples e profunda: a mente humana como um espaço interno em construção. O sofrimento psíquico grave corresponderia a uma mente sem espaço suficiente para conter emoções, pensar experiências e simbolizar conflitos. Pelo contrário, a saúde emocional seria uma mente habitável, capaz de acolher afectos, tolerar ambivalências e criar sentido. A maturidade psicológica implica assim uma mente multidimensional, onde passado, presente e futuro coexistem de forma integrada.
Na realidade, não nascemos com esse espaço mental já constituído. Este constrói-se progressivamente na relação com quem cuida. Através da rêverie descrita por Wilfred Bion, da continência emocional, do espelho afectivo, da previsibilidade e do brincar, a criança aprende que os estados internos podem ser sentidos sem destruir, pensados sem esmagar e transformados em signif**ado. Quando este processo falha, a mente tende a f**ar comprimida, rígida ou fragmentada.
Com efeito, numa primeira dimensão psíquica, a experiência mental é linear e, por conseguinte, aprisionada. Predomina o imediato: tudo ou nada, presença ou abandono, impulso ou colapso. A ausência é vivida como desaparecimento total e a frustração como catástrofe. Trata-se de um estado próximo do “terror sem nome” de Bion, onde existe angústia impensável e caos sem representação. É também semelhante ao Inferno de Dante na Divina Comédia: repetição, circularidade e sofrimento sem transformação.
Na segunda dimensão, surge alguma organização psíquica. A criança começa a distinguir dentro e fora, tolera pequenas esperas, reconhece o regresso do objecto amado e inicia sentimentos de culpa e reparação. Continua a existir fragilidade, mas já não há caos total. Esta etapa aproxima-se do Purgatório de Dante, sofrimento com sentido, esforço gradual e possibilidade de crescimento.
Na terceira dimensão aparece verdadeiro espaço mental. Desenvolvem-se interioridade, memória simbólica, imaginação e capacidade de manter internamente alguém ausente. A criança pode sentir saudade sem colapsar, amar e zangar-se com a mesma pessoa, brincar simbolicamente e esperar. Existe agora um mundo interno vivo e habitável. É a mente criativa, profunda e relacional.
Numa quarta dimensão, o espaço interno integra também o tempo psíquico. O passado pode ser compreendido, o presente vivido e o futuro imaginado sem terror. Surge capacidade contemplativa, sentido existencial e observação de si sem destruição narcísica. Este nível aproxima-se do Empíreo em Dante e do conceito de “O” em Bion: contacto com uma verdade emocional profunda que ultrapassa explicações simplistas.
Neste percurso, o self transitivo desempenha um papel central. Podemos entendê-lo como a função relacional que permite a passagem entre dimensões psíquicas. No campo mãe-bebé, a criança internaliza experiências de contenção e vai adquirindo profundidade mental. Quando essa relação é suficientemente boa, forma-se espaço interno. Quando falha de forma persistente, o sujeito pode permanecer preso a estados achatados, impulsivos ou vazios.
A psicopatologia pode então ser pensada como colapso dimensional. Na ansiedade extrema, a pessoa cai temporariamente para estados lineares de ameaça. Na depressão, o mundo interno perde vitalidade e torna-se rígido. No trauma, o tempo congela e a experiência f**a sem simbolização. Já a criatividade madura implica circulação flexível entre profundidade interna e integração temporal.
A psicoterapia, nesta perspectiva, consiste em expandir dimensões internas. Ajuda a criar distância entre impulso e acto, transformar sensação em símbolo, suportar paradoxos, integrar a história vivida e recuperar esperança. Em vez de apenas reduzir sintomas, a terapia amplia o espaço mental.
Assim, podemos resumir: o Inferno não é um lugar, mas uma mente sem espaço. O Purgatório é uma mente em construção. O Paraíso é uma mente habitável. E o Empíreo é uma mente reconciliada consigo própria, com os outros, com o ser.
Crescer, no fundo, é passar de uma linha aprisionada para um universo interior total.
Dr. Bernardo Corrêa D'Almeida
Imagem: pixabay.com