24/07/2026
𝐄͟𝐱͟𝐩͟𝐨͟𝐬͟𝐭͟𝐨͟𝐬͟ ͟𝐝͟𝐚͟ ͟𝐋͟𝐨͟𝐮͟𝐫͟𝐢͟𝐧͟𝐡͟𝐚̃͟͟:͟ ͟𝐇͟𝐢͟𝐬͟𝐭͟𝐨́͟͟𝐫͟𝐢͟𝐚͟𝐬͟ ͟𝐑͟𝐞͟𝐜͟𝐮͟𝐩͟𝐞͟𝐫͟𝐚͟𝐝͟𝐚͟𝐬͟ ͟ #͟𝟏͟
Hoje partilho convosco uma história que nos recorda uma das realidades mais duras da história portuguesa: a das crianças expostas. Esta é a história de duas dessas crianças, cujas vidas se cruzaram com a da minha família.
Os meus sextos avós, 𝗝𝗼𝘀𝗲́ 𝗚𝗼𝗺𝗲𝘀 e 𝗧𝗼𝗺𝗮́𝘀𝗶𝗮 𝗠𝗮𝗿𝗶𝗮, viveram primeiro no Toxofal de Baixo e, mais tarde, no Toxofal de Cima. Casaram a 29 de setembro de 1788 e tiveram, pelo menos, sete filhos.
O primeiro foi o meu quinto avô, 𝗔𝗻𝘁𝗼́𝗻𝗶𝗼 "𝗧𝗼𝗺𝗮́𝘀" 𝗚𝗼𝗺𝗲𝘀, nascido a 5 de novembro de 1789. Seguiu-se 𝗣𝗲𝗱𝗿𝗼, nascido a 17 de abril de 1792.
Pelo meio, o casal acolheu uma menina exposta, de nome 𝗟𝘂𝘇𝗶𝗮*, que dera entrada no Hospital Real dos Expostos de Lisboa a 13 de dezembro de 1790. No seu registo de batismo encontra-se uma pequena nota que diz muito sobre o destino desta criança: "Deu-se a Tomásia Maria, mulher de José Gomes." Foi assim que Luzia passou a integrar aquele lar.
Infelizmente, a sua permanência foi curta. 𝗟𝘂𝘇𝗶𝗮 faleceu a 22 de novembro de 1792 e foi sepultada na Ermida de Santo Amaro, no Toxofal de Cima. Também 𝗣𝗲𝗱𝗿𝗼, o segundo filho do casal, teve uma vida curta. Morreu solteiro, aos 18 anos, e foi sepultado na mesma ermida a 26 de outubro de 1810.
Algum tempo depois, 𝗝𝗼𝘀𝗲́ 𝗚𝗼𝗺𝗲𝘀 e 𝗧𝗼𝗺𝗮́𝘀𝗶𝗮 𝗠𝗮𝗿𝗶𝗮 receberam um segundo menino exposto, chamado 𝗠𝗮𝗻𝘂𝗲𝗹**, também proveniente do Real Hospital dos Expostos de Lisboa. Morreu a 10 de outubro de 1794, apenas um mês depois de nascer a filha biológica do casal, 𝗠𝗮𝗿𝗶𝗮, a 12 de setembro. Ainda desconheço o que o futuro reservou a esta 𝗠𝗮𝗿𝗶𝗮, mas certamente a sua infância também foi marcada pelas dificuldades do seu tempo.
A família continuou a crescer com o nascimento de 𝗝𝗼𝗮̃𝗼 em 1796, 𝗠𝗮𝗿𝗶𝗮 em 1798 (que faleceu em 1799 com apenas sete meses de idade), 𝗙𝗮𝗯𝗶𝗮̃𝗼 em 1801 e 𝗠𝗮𝗿𝗴𝗮𝗿𝗶𝗱𝗮 em 1804 (que faleceu em 1811 com sete anos de idade).
Hoje olhamos para estas datas com tristeza, mas, no final do século XVIII e no início do século XIX, esta era uma realidade infelizmente comum. A mortalidade infantil era extremamente elevada. Muitas crianças não chegavam a completar o primeiro ano de vida e um número significativo não atingia sequer a idade adulta. As causas eram inúmeras: doenças infecciosas, epidemias, desnutrição, falta de cuidados médicos eficazes, condições sanitárias precárias e dificuldades económicas que afetavam grande parte da população. As famílias viviam habituadas à dor da perda, embora isso nunca a tornasse menos dolorosa.
Esta pequena história recorda três crianças que não tiveram a oportunidade de deixar descendência: 𝗟𝘂𝘇𝗶𝗮, 𝗠𝗮𝗻𝘂𝗲𝗹, e 𝗠𝗮𝗿𝗶𝗮. Embora eu procure reconstruir a minha árvore genealógica incluindo também os irmãos dos meus antepassados e suas famílias, estas duas crianças expostas permaneceram esquecidas durante mais de dois séculos.
Hoje, pelo menos, voltam a ter um nome e uma história.
Não creio que precisem das nossas orações. Se estas pequenas almas inocentes não merecerem o Céu, então dificilmente alguém o merecerá.
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𝗙𝗼𝗻𝘁𝗲𝘀:
* Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa – Registos do Hospital Real dos Expostos.
** Apesar do excelente trabalho que o Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa tem vindo a desenvolver na digitalização e disponibilização dos seus fundos documentais, ainda existe material por tratar. Pela pesquisa que consegui efetuar, suspeito que o Manuel corresponda ao exposto que deu entrada na Roda dos Expostos a 5 de abril de 1793.