23/05/2026
O Narcisismo e a Falha no Vínculo: Uma Análise Psicanalítica do Caso Marine e Marc
Para além do crime, o caso que chocou o país permite-nos observar, sob a lente da psicanálise, a falência trágica da função parental e o colapso dos limites éticos.
1. A Instrumentalização do Objeto: Na psicanálise, o investimento libidinal (o afeto que liga os pais aos filhos) é o que garante a proteção. Quando o casal decide abandonar os menores, estamos perante uma "desumanização do objeto": os filhos deixaram de ser sujeitos com necessidades e tornaram-se "obstáculos" descartáveis num projeto narcísico pessoal.
2. A Falência da Função Terceira: O papel do padrasto, figura que deveria representar a Lei e a contenção, revelou-se um catalisador de rutura. Em vez de mediar ou proteger, Marc, inserido num delírio partilhado com a mãe, impôs uma lógica onde o vínculo de sangue foi suplantado pela fantasia do casal. Houve uma exclusão psíquica total das crianças do sistema afetivo dos adultos.
3. O "Folie à Deux" como Defesa: A tentativa de manipulação da realidade em tribunal ("parecerem doidinhos") não é um delírio, mas uma manobra defensiva do Ego. É a tentativa de fugir à responsabilidade e à "castração" (a punição/prisão), revelando que, no fundo, a noção de realidade estava presente, mas a empatia estava ausente.
4. A Cicatriz no Psiquismo: O trauma de ser abandonado por quem deveria ser o "espelho" e a segurança é a ferida mais profunda que uma criança pode carregar. A psicanálise ensina-nos que o vínculo primário é a base de toda a estrutura psíquica; a sua quebra impõe um desafio colossal de reparação para estes meninos.
Este é um caso sobre a ausência de humanidade no olhar do outro. O narcisismo, quando não contido, pode destruir os laços mais sagrados da natureza humana.
Como acredita que podemos falar sobre a reconstrução da identidade nestas crianças, após a perda da sua referência de proteção?
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