17/08/2026
Hoje perguntaram-me: “O lar está legal? O lar tem inspeções? É que hoje em dia ouve-se muita coisa…”
Sim. Ouve-se muita coisa.
Eu também ouço.
Também vejo as notícias. Também leio. Também procuro perceber o que aconteceu. Vejo e revejo situações que envolvem instituições e pessoas idosas e faço aquilo que considero ser minha obrigação enquanto responsável por uma instituição: faço o meu trabalho de casa.
Porque um lar, seja privado ou do setor social, não funciona sem regras nem controlo.
Existe enquadramento legal. Existe tutela. Existem inspeções, fiscalizações e visitas de acompanhamento. Existem normas, procedimentos, registos, planos de prevenção, planos de contingência e muita, muita burocracia.
E ainda bem que existe fiscalização.
Estamos a cuidar de pessoas. Muitas delas frágeis e vulneráveis. Quem assume essa responsabilidade tem de estar preparado para prestar contas pelo seu trabalho.
Mas há outra coisa que faço quando vejo uma notícia sobre um lar.
Pergunto-me: o que podemos aprender com isto?
Analiso. Reflito. Partilho com a minha equipa. Reunimos. Conversamos. Revemos procedimentos quando é necessário. Identificamos riscos. Questionamos a nossa própria forma de trabalhar.
E depois colocamos as mãos ao trabalho.
As notícias sobre aquilo que corre mal noutras instituições não devem servir apenas para provocar indignação ou medo. Para quem trabalha nesta área, também devem servir para refletir, prevenir e melhorar.
Somos perfeitos?
Não. Não somos.
E desconfio sempre um pouco de quem trabalha com seres humanos e se considera perfeito.
Podemos errar. Podemos ter um dia mais difícil. Podemos perceber que determinado procedimento precisa de ser melhorado. Podemos ter de parar, reconhecer e corrigir.
O importante é não nos acomodarmos.
Por detrás de toda a legislação, das inspeções, dos dossiers, dos planos e dos procedimentos, existe um trabalho diário que raramente aparece nas notícias.
Existe o trabalho de acordar alguém com dignidade.
De cuidar da higiene sem retirar intimidade.
De ajudar numa refeição sem transformar uma pessoa adulta numa criança.
De preservar autonomia mesmo quando fazer pela pessoa seria mais rápido.
De perceber uma mudança de comportamento.
De ouvir.
De conversar.
De tranquilizar.
De acompanhar uma família.
De respeitar vontades, hábitos, medos e histórias de vida.
Existe uma equipa inteira a trabalhar diariamente com pessoas idosas e a carregar a enorme responsabilidade que isso representa.
Por isso, quando alguém me pergunta se uma instituição está legal ou se é fiscalizada, não me incomoda que queira saber.
Perguntem. Informem-se. Visitem. Observem. Peçam esclarecimentos.
É um direito de quem procura cuidados e é uma obrigação de quem os presta saber responder.
Mas não fiquem apenas pelos papéis.
Perguntem também:
Como é que aqui se cuida?
Como é tratada uma pessoa quando ninguém está a visitar?
Como preservam a autonomia?
Como respeitam a individualidade?
O que fazem quando alguma coisa corre mal?
Como aprendem com os erros?
Como trabalham para que amanhã seja melhor do que hoje?
Porque uma licença é indispensável.
Uma inspeção é necessária.
Um procedimento é fundamental.
Mas nenhum papel, sozinho, cuida de uma pessoa.
Quem cuida são pessoas.
Pessoas com formação, responsabilidade e deveres, certamente.
Mas também pessoas capazes de olhar para outro ser humano e perceber que à sua frente não está “mais um utente”.
Está alguém com uma vida inteira de histórias, escolhas, afetos e dignidade.
Não somos perfeitos. Trabalhamos todos os dias para sermos melhores.
E fazemos o nosso trabalho com responsabilidade, com consciência e, acima de tudo, com amor.
Porque quando se trabalha com pessoas, cumprir a lei é obrigatório.
Cuidar com humanidade é aquilo que dá sentido a tudo o resto.