07/08/2026
Alguns seres atravessam o mundo carregando uma condenação que jamais escolheram. São temidos pela aparência, rejeitados pelos hábitos, expulsos dos lugares onde apenas tentavam sobreviver. Ninguém pergunta se sentem fome, frio ou medo. Basta parecerem estranhos para que muitos se julguem no direito de ferir.
A humanidade costuma oferecer carinho ao que considera bonito, dócil e conveniente. O verdadeiro caráter aparece diante daquilo que não desperta encanto. Respeitar somente o que agrada é fácil. Difícil é conter a própria crueldade quando ninguém está olhando e quando a vítima sequer pode pedir socorro com palavras.
O sapo que surge no quintal não trouxe maldade. A serpente escondida não conhece vingança. O morcego, a ar**ha, o escorpião, o rato e tantos outros animais não nasceram para provocar repulsa. Cada um ocupa um lugar na natureza, sente ameaça e luta pela vida com os recursos que recebeu.
Também existem pessoas tratadas como esses seres. Gente afastada por ser diferente, julgada sem defesa, esquecida porque não corresponde ao padrão que o mundo decidiu admirar. Pessoas que aprenderam a caminhar pelos cantos para não incomodar, embora carreguem dores que ninguém teve paciência de conhecer.
A compaixão perde o sentido quando escolhe apenas os amáveis. Bondade seletiva é vaidade disfarçada.
Antes de ferir, expulsar, humilhar ou condenar, recorde que toda vida se agarra à própria existência. O medo que você sente pode ser o mesmo medo que existe do outro lado.
Respeite os não amados. Talvez sejam eles que revelem, com maior precisão, quanta humanidade ainda resta em você.