23/06/2026
Acupunctura, Medicina Tradicional Chinesa e “medicina integrativa”: é preciso esclarecer!
Nos últimos dias foi divulgada uma notícia sobre publicidade enganosa em saúde, relacionada com uma clínica do Porto que se promovia como “medicina integrativa”.
A imagem escolhida para acompanhar essa notícia foi a de uma pessoa a receber acupunctura.
Enquanto enfermeira e especialista de Medicina Tradicional Chinesa, não posso deixar de fazer este esclarecimento.
A acupunctura não é sinónimo de publicidade enganosa.
A Medicina Tradicional Chinesa não é sinónimo de charlatanismo.
São profissões de saúde regulamentadas e não podem ser usadas de forma genérica, como imagem simbólica de práticas abusivas.
Esta escolha visual não é irrelevante. As imagens comunicam. Criam associações. Moldam percepções. E, neste caso, associar uma notícia sobre publicidade enganosa a uma imagem de acupunctura contribui para lançar suspeição sobre uma prática que, em Portugal, tem enquadramento legal próprio.
Também não posso ignorar que o Público recorrentemente publica conteúdos que levantam dúvidas ou suspeitas sobre as Terapêuticas Não Convencionais, muitas vezes sem a devida contextualização, sem distinção entre práticas regulamentadas e práticas abusivas, e sem ouvir de forma equilibrada os profissionais sérios destas áreas.
Quando essa linha editorial se repete e, numa notícia sobre publicidade enganosa, se escolhe uma imagem de acupunctura, é legítimo questionar se essa escolha foi verdadeiramente inocente....
E isso é grave .
É desinformação.
Em Portugal, a acupunctura e a Medicina Tradicional Chinesa fazem parte das Terapêuticas Não Convencionais legalmente reconhecidas. A legislação portuguesa regula o acesso e exercício profissional destas áreas e inclui expressamente acupuntura, fitoterapia, homeopatia, medicina tradicional chinesa, naturopatia, osteopatia e quiropráxia como profissões de saúde .
No meu caso, os meus títulos profissionais são claros: sou enfermeira e especialista de Medicina Tradicional Chinesa.
Trabalho com acupunctura, dietética chinesa, fitoterapia, aconselhamento de estilos de vida e outras ferramentas próprias da minha área de formação e competência profissional.
Mas há aqui outra questão importante: o uso da expressão “medicina integrativa”.
Em Portugal, pelo enquadramento legal actual e ao contrário de outros paises no mundo, não existe uma legislação específ**a que crie a profissão, a especialidade ou a valência autónoma de “medicina integrativa”.
Mas o facto de não existir legislação específ**a para “medicina integrativa” não signif**a, por si só, que o uso da expressão seja legalmente proibido.
O que não pode acontecer é a expressão ser usada de forma ambígua, como se “medicina integrativa” fosse uma especialidade médica reconhecida, uma subespecialidade médica, uma profissão regulada independente ou uma garantia de tratamento diferenciado.
E é aqui que está o ponto essencial.
O problema não está necessariamente em usar a palavra “integrativa” para descrever uma abordagem de cuidados. O problema está em usá-la como se fosse um título profissional autónomo, uma especialidade médica reconhecida ou uma promessa terapêutica ampla que possa induzir a pessoa em erro.
Há uma diferença muito grande entre dizer:
“Faço medicina integrativa”, de forma isolada, sem explicar formação, enquadramento, limites e competências;
e dizer:
“Sou enfermeira e especialista de Medicina Tradicional Chinesa. Trabalho numa abordagem integrativa, complementar e centrada na pessoa, articulando diferentes áreas de cuidado, dentro das competências legais de cada profissional e sem substituir diagnóstico, vigilância ou tratamento médico.”
A primeira frase pode gerar ambiguidade.
A segunda explica com transparência o que se faz, quem faz, com que formação e com que limites.
Para mim, uma abordagem integrativa em saúde signif**a olhar para a pessoa como um todo, respeitar a medicina convencional, articular diferentes áreas de cuidado, valorizar estilos de vida, alimentação, sono, dor, ansiedade, fadiga, digestão, regulação emocional e qualidade de vida.
Signif**a complementar, não substituir.
Signif**a cuidar com segurança, não prometer milagres.
Signif**a trabalhar com responsabilidade, não vender ilusões.
Publicidade enganosa em saúde deve ser combatida. Sempre.
Promessas de cura, garantias de resultados, substituição de tratamentos médicos necessários, uso indevido de títulos profissionais ou comunicação que explore a fragilidade das pessoas devem ser fiscalizados.
Mas combater a publicidade enganosa não pode signif**ar colocar todas as práticas complementares no mesmo s**o. Não pode signif**ar insinuar que a acupunctura representa, por si só, engano. Não pode signif**ar associar visualmente uma prática regulamentada a práticas abusivas, sem contexto e sem rigor.
Na Clínica Manuela Santos, a nossa intervenção é complementar e integrativa no sentido do cuidado: trabalha-se com Medicina Tradicional Chinesa, acupunctura, osteopatia, hipnose clínica, reiki e outras áreas de suporte à saúde, sempre dentro das competências profissionais de cada elemento da equipa.
Não prometemos curas milagrosas.
Não afastamos pessoas da medicina convencional.
Não substituímos diagnósticos médicos.
Não desvalorizamos tratamentos necessários.
Não usamos a palavra “integrativa” como especialidade médica.
Usamo-la para descrever uma forma de cuidar: mais ampla, mais humana, mais articulada e centrada na pessoa.
A população merece informação rigorosa.
Os profissionais sérios merecem respeito.
As práticas regulamentadas merecem ser discutidas com conhecimento, não com preconceito.
A publicidade enganosa deve ser denunciada.
A má prática deve ser fiscalizada.
A comunicação em saúde deve ser clara e responsável.
E os orgãos de comunicação social devem procurar informar com o rigor e profissionalismo que tambem lhes é exigido e esperado .