24/07/2026
Esta semana vi um apresentador dizer a uma jovem, em direto, que não podia “normalizar” o corpo dela. Ela tem 23 anos, mais de cem quilos, e foi ao programa falar sobre autoestima e preconceito. Saiu de lá a dizer que se sentiu atacada. Não me surpreende. O que me surpreende é continuarmos a achar isto normal.
Vou contar-vos sobre uma Carolina.
Essa Carolina sentia-se bonita. Genuinamente bonita, com o corpo que tinha. E ainda assim, todos os dias, esse corpo lutava contra ela: contra a mobilidade que perdia, contra as dores, contra os limites que o peso lhe impunha na cadeira de rodas. Foi por isso que decidiu emagrecer. 28kg perdidos, ao longo de um ano e meio. Pela liberdade de se mover no mundo.
E sabem o que aconteceu? As pessoas começaram a perguntar se ela estava doente. Diziam que ela “andava estranha”. A mesma sociedade que a tinha julgado quando era mais gorda, julgava-a agora que era mais magra. Só julgaram…
É este o padrão que me interessa nomear, porque atravessa todos os corpos: o gordo, o magro, o que está numa cadeira de rodas e por isso se torna invisível.
O corpo de alguém é sempre assunto de todos, menos da própria pessoa.
Quando um apresentador diz a uma convidada que não pode “normalizar” o peso dela, está a decidir, em nome dela, o que o corpo dela deve significar. E quando alguém pergunta à Carolina se está doente por ter emagrecido, faz a mesma coisa ao contrário. Ou se se sente bonita por ser uma Mulher com Deficiência.
O julgamento muda de direção. A lógica é sempre a mesma: o teu corpo pertence ao meu comentário.
Como psicóloga, sei o que estes comentários fazem. Minimizam. Envergonham. E a vergonha não emagrece ninguém, não cura ninguém, não devolve mobilidade a ninguém. Empurra as pessoas para dentro de si próprias, longe da ajuda de que precisam.
Se há uma coisa que aprendi com o meu corpo, é esta: ninguém sabe o que um corpo carrega só de olhar para ele.
Da próxima vez que sentirem vontade de comentar o corpo de alguém, gordo, magro, numa cadeira de rodas ou fora dela, perguntem-se primeiro: isto é sobre a pessoa à minha frente, ou é sobre o meu próprio desconforto?