08/08/2026
Do Quintal ao Hospital: A História Escondida do Hospital da Ordem Terceira de S. Francisco do Porto
Sabia que um dos hospitais mais emblemáticos do Porto nasceu à sombra de um convento, num simples quintal?
A história do Hospital da Venerável Ordem Terceira de São Francisco do Porto prova que, nesta cidade, a solidariedade e o rigor sempre andaram de mãos dadas — desde 1698.
Tudo começou com o acolhimento de doze irmãos entrevados num quintal junto à capela da Ordem. Por trás desta obra estiveram nove mulheres extraordinárias: cinco viúvas e quatro casadas, que custearam a fundação do próprio bolso. Foram eleitas precisamente no dia de Santa Isabel Rainha de Portugal, 4 de julho, como que abençoadas pelo espírito de caridade da santa. Chamavam-se D. Mariana da Costa, D. Isabel de Albuquerque, Doroteia de Jesus, Luísa Marques, Isabel Soares, Inês, Maria de Mesquita, Paula Pinto e Berta de Abreu. As obras arrancaram a 11 de agosto e ficaram concluídas a 19 de novembro de 1686, com um investimento de 250 000 réis — uma fortuna para a época.
Mas o mais surpreendente é o que veio depois. Muito antes de existirem algoritmos e bases de dados, a Venerável Ordem Terceira de São Francisco do Porto já geria a assistência aos doentes com uma precisão quase informática: tudo era registado, cruzado e arquivado ao pormenor. E, em 1731, deu um salto visionário — levou o hospital a casa das pessoas, criando um serviço pioneiro de assistência médica domiciliária.
As atas das reuniões de Mesa, que desde 1691 registam estas decisões, são hoje o coração do nosso arquivo. Mostram-nos que, séculos antes da era digital, já existia um "algoritmo" a funcionar em pleno Porto: o rigoroso sistema de papel que decidia quem era ajudado, e como.
Ao digitalizar estes documentos, damos à tecnologia de hoje a missão de contar a história da compaixão de ontem — e de manter viva a memória de nove mulheres que, num simples quintal, mudaram para sempre a forma como o Porto cuidava dos seus doentes. Do quintal ao hospital, do arquivo ao algoritmo: a mesma missão, atravessando os séculos.