22/08/2026
De tudo o que fiz e por toda a parte por onde passei, vi, no olhar de tanta gente, a azáfama do fazer, do ter... Ao mesmo tempo, vi o vazio do “não Ser”.
Já cuidei de bebés, já cuidei de velhos e já cuidei de doentes... Presenciei o início e também o fim.
E, na curva, andamos nós: eu, tu e os outros...
Talvez também por cuidar da espiritualidade e das fragilidades dos outros, e das minhas também, consiga traçar uma linha do olhar reluzente de um bebé até ao olhar apagado de um idoso. E, durante essa linha, consigo vislumbrar todos os sonhos, anseios e planos que, uns pelo meio, outros mesmo antes de começar, foram rasgados, usurpados pela dor, pelo sofrer, pelo esgotar; por aqueles que, como tantos, já se esvaíram do seu próprio Ser e que, aos poucos, vão esvaziando também o nosso, o meu, o teu Ser...
Sinto muito por ver o brilho, a audácia e a vitalidade serem arrancados de quem apenas sonhava Ser, de quem apenas nasceu para Ser. Ser em completude. Ser a si mesma/o, sem pedir perdão e sem medo de perder, acabando por se perder de si mesma/o e, muitas vezes, perdendo-se para os outros até ao fim.
Até o brilho mortiço do olhar se desvanecer e sobrar apenas a lembrança de uma vida que era para Ser; uma experiência que, de tão pouco vivida, foi quase nada...
Talvez eu sinta muito, ou demais até. Mas, de tudo o que vi, vivi e senti, trago sempre um pouco de todos dentro de mim.
Mónica Castanhas