24/05/2026
Há dias em que tudo o que faço parece girar à volta da forma como me vejo. Olho-me ao espelho, procuro ângulos e reparo em detalhes que parecem ganhar dimensão à medida que os observo.
Surgem pensamentos como “isto está estranho”; “as pessoas vão reparar”; “não devia estar assim”… São ruídos constantes e insistentes e, quanto mais os tento ignorar, mais presentes ficam. A ansiedade sobe rapidamente, a respiração acelera e sinto um desconforto constante, como se não conseguisse simplesmente habitar o meu corpo sem o analisar. Sem me aperceber, entro em comportamentos repetitivos: verifico, ajusto, evito e volto a verificar. A atenção fixa-se no espelho, na roupa e nos detalhes. O alívio existe, mas é breve e rapidamente substituído pela dúvida.
Viver assim consome tempo, energia e liberdade. Dou por mim a evitar fotografias, adiar planos, escolher roupas específicas ou até evitar olhar diretamente para as pessoas, com receio de que reparem exatamente naquilo que me incomoda.
Quem está de fora nem sempre percebe que isto não é vaidade ou exagero — é uma tentativa de controlar a perceção do próprio corpo, mesmo quando ela não corresponde à realidade. Durante muito tempo achei que conseguia lidar com isto sozinho, até perceber que já não era eu que controlava os pensamentos, mas eles que me controlavam a mim.
Hoje, com a terapia, consigo perceber que não se trata de eliminar estes pensamentos à força, mas da forma como me relaciono com eles. É preciso reconhecê-los, questioná-los e não lhes obedecer automaticamente. Em alguns casos, a medicação também pode ser uma aliada — e está tudo bem com isso.
Eles ainda cá estão, mas já não fazem com que tudo gire à volta da forma como me vejo. Agora tenho mais tempo, mais espaço e mais liberdade — e isso, por si só, já é muito.