29/08/2026
As dificuldades em dormir não têm nada a ver com aquilo que estamos sempre a tentar encontrar fora de nós.
O sistema está constantemente em alerta.
Passamos o dia inteiro no automático: fazer, resolver, correr, trabalhar, cuidar dos outros, responder a tudo… mas raramente paramos para perceber como está o nosso corpo, o que estamos a sentir, o que a nossa mente está a pensar e aquilo que, emocionalmente, estamos a carregar.
Durante o dia, evitamos determinadas preocupações. Evitamos olhar para algumas dores. Empurramos pensamentos para o lado. Dizemos a nós próprios: “Depois resolvo isto.”
Distraímo-nos com televisão, redes sociais, trabalho, tarefas, conversas… Mantemo-nos ocupados para não pensar. Continuamos como se nada estivesse a acontecer.
Mas aquilo que não foi elaborado durante o dia não desaparece simplesmente porque chegou a noite.
Quando finalmente paramos, o silêncio cria espaço para aquilo que esteve a ser abafado durante horas.
E é aí que, para algumas pessoas, a noite se transforma numa batalha.
Os pensamentos não param. As preocupações aparecem. As emoções tornam-se mais intensas. O corpo permanece tenso. A mente continua a procurar respostas.
A dificuldade em dormir pode tornar-se precisamente esse momento em que a mente continua a processar aquilo que ficou pendente durante o dia: acontecimentos, preocupações, decisões, medos, conflitos, antecipações e emoções que não encontraram espaço para ser reconhecidas.
E ainda encontro muitas pessoas presas à ideia de:
“São as energias.”
“Estou a canalizar.”
“Estou mais sensível.”
“Há alguma coisa espiritual a impedir-me de dormir.”
Mas experimenta fazer uma pergunta diferente.
O que é que passei o dia inteiro a evitar olhar?
Que preocupação não quis sentir?
Que emoção engoli?
Que situação me incomodou e fingi que estava tudo bem?
Que pensamento estou constantemente a afastar?
E o que é que o meu corpo está a tentar comunicar enquanto continuo a viver no automático?
Talvez o trabalho não seja simplesmente aprender a “desligar a mente” à força.
Talvez seja começar a escutar, durante o dia, aquilo que a tua mente e o teu corpo continuam a trazer durante a noite.
Porque quando passas o dia inteiro a fugir de ti, a noite pode tornar-se o único momento em que já não consegues fugir.
A consciência começa quando deixas de procurar imediatamente uma causa fora de ti e começas a investigar aquilo que está a acontecer dentro de ti.
E talvez uma boa noite de sono comece muito antes de te deitares.
Comece na forma como atravessas o teu dia.