20/05/2026
A compreensão é importante, mas nem tudo em nós responde imediatamente à razão.
Há repetições que vêm de zonas mais antigas: formas de procurar amor, reconhecimento, segurança, reparação ou pertença. Mesmo quando já conseguimos entendê-las. Mesmo quando sabemos que nos magoam, que nos prendem a situações onde já não queremos estar, a lugares internos com os quais já não concordamos.
O problema é que repetir nem sempre é falta de consciência. Em consulta, as respostas da minha parte são raras e sei quão frustrante posso ser. Mas quando alguém pergunta “porque é que faço isto?”, penso muitas vezes na ditadura dos porquês: essa expectativa de que uma explicação clara venha finalmente interromper aquilo que insiste.
Às vezes, a pergunta precisa de se deslocar. Em vez de um porquê, outros tantos: “o que é que em mim ainda precisa disto?”, "que parte de mim continua a procurar este lugar?”, “quando me frustro por estar outra vez a fazer o mesmo, o que gostaria de ter conseguido fazer diferente?”, "será que me estou a defender? se sim, de quê?".
Escutar com mais profundidade, para mim, é isto: interromper o ciclo imediato da ação-reação, perceber-fazer-mudar. É poder criar um intervalo entre o impulso e a resposta, os gestos automáticos. No fundo, a repetição e a possibilidade de elaboração.
E isso não é rápido nem fácil, mas parece-me muito mais transformador... Permanecer tempo suficiente com as perguntas, as hipóteses, os entendimentos racionais, o olhar. Há sempre um motivo para fazermos o que fazemos, os teus podem estar nos sítios mais inesperados.
Abres essa caixinha?
Filipa