30/04/2026
Sobre Simona Kossak
Chamavam-na de bruxa no vilarejo.
Diziam que os animais a seguiam pela mata como se ela fosse parte dela.
Uma lince costumava adormecer ao seu lado.
Um javali dividiu sua cama por 17 anos.
E um corvo travesso roubava documentos e os destruía no telhado de sua cabana.
Simona Kossak viveu três décadas em uma casa de madeira sem luz elétrica, confiscou armadilhas ilegais feitas para capturar as últimas linces da região e acabou sendo acusada de roubo por tentar protegê-las. No tribunal, disse apenas:
“Quando restam só 12 linces, quem somos nós para decidir que esta floresta deve desaparecer?”
Foi essa mulher, tida como excêntrica e incompreendida, que acabou salvando a última floresta primitiva da Europa.
Apesar de vir de uma das famílias mais prestigiadas da arte polonesa — os Kossak, conhecidos por seus quadros históricos — ela rejeitou o destino artístico que esperavam dela. No vilarejo próximo à floresta de Białowieża, ninguém sabia como interpretá-la. Histórias circulavam: aves que pousavam em suas mãos, cervos que se aproximavam sem medo, animais selvagens caminhando ao seu lado em plena névoa. Para alguns, era uma bruxa. Para outros, uma espécie de fada do bosque. Mas Simona era, na verdade, uma cientista que acreditava que o mundo moderno havia se tornado barulhento demais para perceber a linguagem silenciosa da natureza.
Depois de estudar biologia na Universidade Jaguelônica, conseguiu um posto no Instituto de Pesquisa de Mamíferos de Białowieża, em 1971. Ali encontrou o que considerava seu lugar definitivo: o último fragmento vivo da imensa floresta ancestral que um dia cobriu grande parte da Europa. Ao ver o bosque iluminado pela lua em sua primeira noite ali, declarou:
“É aqui. Se não for aqui, não será em nenhum outro lugar.”
Foi então que se instalou na pequena cabana de madeira chamada Dziedzinka. Sem energia elétrica, sem água encanada, sem qualquer luxo. Levou poucos objetos pessoais: alguns móveis da família, lâmpadas a óleo, livros e um ferro antigo. O que seria apenas uma estadia temporária transformou-se em sua casa pelos próximos 30 anos.
Com o tempo, ela passou a viver cercada de animais que acolhia, estudava e ajudava. Um fotógrafo chamado L**h Wilczek mudou-se para uma construção próxima e, aos poucos, os dois se aproximaram — especialmente depois que ele levou para casa um javali recém-nascido. Criaram o filhote juntos, chamaram-no de Żabka, e ela cresceu até se tornar uma imensa companheira de quatro patas que pedia carinho como um cachorro e dormia na cama do casal. A partir daí, L**h e Simona se tornaram inseparáveis, e ele documentou por décadas a vida extraordinária que compartilhavam naquele fragmento de mundo intocado.
A casa deles transformou-se em um refúgio onde qualquer criatura tinha espaço.
Simona cuidou de uma lince chamada Agata, que dormia junto dela todas as noites.
Cuidou de alces batizados de Cola e Pepsi.
Criou cães, pavões, corujas e até ratos.
E havia também Korasek, o corvo mais temido — e amado — da floresta. Ele roubava estojos, dinheiro, tesouras, papéis importantes e até multas de guardas florestais, que depois destruía no telhado da cabana como se estivesse cumprindo uma missão secreta. A população dizia que o corvo era um castigo pelos pecados do vilarejo. Simona gargalhava sempre que ouvia essas histórias.
A ligação dela com os animais era tão profunda que se dizia uma “zoopsicóloga”. Para ela, cada um tinha personalidade, sentimentos e vínculos tão reais quanto qualquer relação humana.
Mas sua vida também foi marcada por confrontos.
Quando soube que pesquisadores haviam instalado armadilhas de aço para capturar lobos e linces raríssimas, confiscou tudo e se recusou a devolver. Por isso, foi levada à justiça. E sua defesa acabou mudando a forma como pesquisas eram conduzidas na floresta inteira.
Mais tarde, quando interesses madeireiros ameaçaram árvores milenares, Simona voltou a lutar. Escreveu cartas, abriu denúncias, produziu filmes e programas que ganharam prêmios e repercutiram no país. Repetia uma frase que carregava como lema:
“Esta floresta existe há dez mil anos. Quem nos deu o direito de decidir que ela deve desaparecer agora?”
Em 2000, foi condecorada com a Cruz de Ouro ao Mérito da Polônia por seu trabalho científico e ambiental. Em 2003, assumiu a direção do Departamento de Florestas Naturais, onde permaneceu até morrer, em 2007, aos 63 anos.
L**h continuou morando em Dziedzinka até sua morte, em 2018, preservando tudo o que construíram juntos.
Hoje, a floresta de Białowieża continua viva.
Bisões caminham pelas clareiras.
Lobos e linces rondam as sombras.
E quem percorre as trilhas que Simona cruzou tantas vezes talvez sinta algo do que ela sempre defendeu: que seres humanos não estão acima de nada. São apenas mais uma parte da natureza — e nenhuma parte é mais importante que outra.
Ela recusou o conforto, rejeitou o barulho do mundo e escolheu ouvir o que a floresta dizia.
E por causa dessa escolha, uma das últimas grandes florestas da Terra ainda existe.
Fontes:
• Polish Academy of Sciences – Białowieża Archives
• National Museum of Natural History of Poland – Biografia de Simona Kossak
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