26/07/2026
Acho que está na altura de haver mais empatia com quem vive com obesidade.
Falo também por mim. Faz 8 anos que me mantenho num peso considerado "normal", mas não foi, nem é, fácil. É uma luta diária, silenciosa, que provavelmente me vai acompanhar para sempre.
É raro falar publicamente sobre este tema, porque é complexo, sensível e continua rodeado de preconceitos. Cada caso é um caso. E não nos podemos esquecer de que Portugal continua a estar entre os países europeus com maiores taxas de excesso de peso e obesidade.
Vivemos num país onde, muitas vezes, a obesidade também está ligada à pobreza. Nem todos os pais têm possibilidades para pagar ginásios, nutricionistas ou fazer compras frequentes em lojas como o Celeiro. Existem mais de 1,5 milhões de pessoas em Portugal que fazem apenas três ou quatro refeições quentes por semana, porque simplesmente não há dinheiro.
Em muitas famílias, as crianças têm na refeição da escola o único prato quente do dia. Os pais não são criminosos por isso. Vivem com uma frustração silenciosa que lhes corrói a alma. Muitas vezes recorrem ao que conseguem comprar: bolachas, batatas fritas, salsichas com ovo e tantos outros alimentos que estão longe de ser uma alimentação equilibrada. Não porque não saibam fazer melhor, mas porque não podem. Este parágrafo ofereço-to, Rebeca Reinaldo.
Criou-se também um estigma em relação a quem procura ajuda médica. Quem recorre a um endocrinologista e faz tratamento com medicação parece, para alguns, ter menos mérito do que quem consegue perder peso apenas com alimentação e exercício físico.
Mas porquê?
Existem várias formas de combater a obesidade. O importante é dar o primeiro passo. Coragem não é a forma como se emagrece. Coragem é decidir mudar.
A obesidade é uma doença. Vou repetir: a obesidade é uma doença.
Quando uma pessoa tem muito mais peso do que deveria, isso pode resultar de inúmeros fatores: depressão, ansiedade, compulsão alimentar, alterações hormonais, genética, efeitos secundários de medicamentos e tantas outras causas que ninguém vê.
E, por isso mesmo, quem entrevista alguém sobre este tema tem uma enorme responsabilidade. Uma entrevista não é um espaço para fazer comentário social nem para transformar uma conversa num debate de opiniões, como acontece noutros formatos televisivos. Quando se está a falar de uma doença, o papel de quem entrevista deve ser ouvir, compreender e informar.
O objetivo da Ana Barros é simples: mostrar que uma pessoa com obesidade não tem de viver com vergonha. Pode vestir-se bem, cuidar de si, andar cheirosa, airosa, sorrir e ter autoestima. O excesso de peso não define o valor, a dignidade nem a felicidade de ninguém.
Quero acreditar, Cláudio Ramos, que foste mal preparado para esta entrevista. O que era suposto ser uma conversa sobre uma doença acabou, em vários momentos, por parecer um espaço de comentário e opinião, quase como se estivesses num painel de debate com o Quinaz e os restantes comentadores que estão sempre aos gritos. E isso desviou o foco do que realmente importava.
Há sempre quem ache que pode julgar. Há sempre quem opine sobre a felicidade, a força de vontade ou o caráter de quem vive com obesidade, sem conhecer a história que existe por trás daquele corpo.
Antes de criticar, experimentem ter empatia.
Porque ninguém escolhe sofrer. E por trás de cada corpo há uma história, há dor, há luta, há noites difíceis e dias em que custa simplesmente existir. Mas também há coragem, há resistência e uma vontade imensa de ser feliz. E isso, acima de tudo, merece respeito.